Grécia: a visita do amigo americano
Bill Clinton foi a Atenas com mensagem da diáspora grega nos EUA. Face à sugestão alemã de saída da Grécia da zona euro, o Governo de Antonis Samaras procura aliados geopolíticos.
"Estou certo que o governo de coligação [grego] gera imensa confiança nos gregos da diáspora", disse o ex-presidente Bill Clinton em visita a Atenas para promover a "Iniciativa Helénica" liderada por Andrew Liveris, CEO da Dow Chemical. Esta iniciativa visa mobilizar 100 milhões de dólares para apoiar os gregos em medicamentos e alívio da pobreza.
A visita de Bill Clinton foi mais um sinal do interesse geoestratégico que a Grécia tem para os EUA. Interesse que é partilhado pela Rússia e pela China que olham para este país "periférico" como uma oportunidade face à crise da dívida soberana e à tendência da coligação alemã para empurrar Atenas para fora da zona euro.
Os últimos dias foram mais um período pródigo em encostar a Grécia às cordas por parte da alguns dos seus parceiros da zona euro, no momento em que a delegação da troika chegará a Atenas para a análise do andamento do programa de resgate. A troika deverá reunir com o primeiro-ministro Antonis Samaras dia 26 de julho.
BCE, liberais alemães e FMI tiram o tapete a Atenas?
O Banco Central Europeu (BCE) declarou que deixou de aceitar os novos títulos gregos (emitidos aquando da troca de dívida na reestruturação que ocorreu este ano no quadro do segundo plano de resgate) usados pelos bancos helénicos para se financiarem junto do BCE; este embargo decorrerá até que a troika conclua a sua revisão da situação grega. Deste modo, os bancos gregos terão de recorrer exclusivamente ao banco central do país através da linha de Assistência de Liquidez de Emergência (ELA, no acrónimo em inglês).
Entretanto, altos membros da coligação alemã desdobraram-se a sugerir a saída da Grécia da zona euro. Philipp Roesler, vice-chanceler do governo e presidente do Partido Liberal, declarou-se "mais do que cético" sobre a possibilidade da Grécia ser resgatada, em declarações ao canal ARD. Por seu lado, Guido Westerwell, também dos liberais, e ministro dos Negócios Estrangeiros, afirmou que não apoiará a renegociação do segundo pacote de resgate à Grécia. "Isso não funcionará - esse é o Rubicão que não atravessaremos", disse ao Hamburger Abendblatt.
Para resolver os problemas de financiamento em agosto, a troika permitirá que o estado grego emita bilhetes do Tesouro para pagar ao BCE, que adquiriu, com um desconto de 30%, no mercado secundário, dívida grega no valor de de 3,1 mil milhões de euros que vencem em 20 de agosto.
O jornal alemão "Der Spiegel", por seu lado, adiantou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) estaria na disposição de parar o pagamento de tranches a Atenas, não realizando a prevista para agosto, o que deixaria o país à beira da insolvência, de novo, em setembro. Entretanto, o FMI desmentiu o jornal alemão.
Fruto destes rumores e decisões, as yields (juros) dos novos títulos gregos no prazo a 10 anos subiram, ao final da manhã, para 26,81%, segundo dados da Bloomberg. São os mais altos na zona euro. Na sexta-feira passada haviam fechado em 25,58% e há uma semana estavam em 24,95%. A probabilidade de incumprimento da dívida grega está em 98,56%, segundo dados da CMA DataVision. É o risco de bancarrota num horizonte de cinco anos mais elevado no mundo, liderando o "clube" dos 10 países com mais alto risco de incumprimento.
Maior potencial de petróleo
No plano geoeconómico, soube-se, recentemente, que a Grécia é o país da União Europeia com o maior potencial prospetivo de exploração de petróleo no Mar Jónico e no Mar Egeu. O que motivara uma deslocação há um ano da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton a Atenas. Também, interesses russos e chineses (a COSCO chinesa vai gerir os terminais de contentores do porto do Pireu, o mais importante, nos próximos 35 anos e os bancos chineses vão entrar no financiamento da atividade de shipping grega abandonada pelo banco alemão Commerzbank) se movem neste campo.
Um especialista em energia, David Hynes, da Universidade de Tulane, disse, recentemente, em Atenas que a Grécia poderia resolver o problema da sua dívida com base no desenvolvimento da exploração de petróleo e gás, para além do seu importante posicionamento na logística do Mar Negro e do Mediterrâneo.
A Grécia, pela sua posição "periférica" estratégica nas rotas logísticas e no xadrez geopolítico do Mediterrânio Oriental (onde há riscos elevados de turbulência) atrai cada vez mais a atenção de grandes potências externas à União Europeia.



