Godinho Lopes: "Porque é que não podemos contratar um Raúl?"
Em entrevista exclusiva ao Expresso, candidato Godinho Lopes explica dossiê treinador e futuro do futebol do Sporting.
Godinho Lopes dá o exemplo de Peter Schmeichel e admite a vontade de trazer grandes nomes para Alvalade
Nuno Fox
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Como vai resolver as discrepâncias no plantel? Há jogadores de milhões no banco e outros que custam quase tostões a jogar...
Tem de ser reajustado fruto da estratégia. Todos falam do nome do treinador mas o que está a ser discutido é o presidente, treinadores já entraram e saíram vários. O que queremos? Indicar um treinador que pode ter algum azar e três meses depois sai? É um forever? É brincadeira... Alguém que coloca um treinador não acredita na sua capacidade para ganhar as eleições quando se tem de criar um modelo para ser vencedor continuamente, valorizando os talentos da Academia. Devemos ter a formação como base e contratar jogadores que sejam mais-valias pela qualidade e experiência. Agora, contratar jogadores que estão sentados a ver miúdos da Academia a jogar mas ganham dez vezes mais não faz sentido, tem de acabar!
E como se faz isso?
Definindo o modelo, da mesma forma que o treinador tem um objetivo e uma estratégia. Não escolho um treinador porque está desempregado ou pelos lindos olhos, há um modelo de escolha e o mesmo se passa com os jogadores e a Academia. Com um modelo de organização sólido, é tudo mais fácil. Por exemplo, o treinador - quando o escolhemos temos de pensar no modelo. Ou queremos um tipo inglês que compra jogadores, diz a tática, decide o que tem lá dentro e é dono de tudo nessa área ou um diferente, que percebe que temos uma Academia, valores de grande qualidade que já saíram de lá (e outros vão sair), que a formação é a base do clube e depois devemos integrar outros jogadores para haver complementaridade, articular tudo dos iniciados à equipa B à equipa principal, etc.
"É atoarda dizer-se que Martin O'Neill recusou"
Um inglês, portanto, não cabe nesse modelo?
Não.
Portanto, o treinador não será Martin O'Neill?
É uma atoarda dizer-se que falei com um treinador e ele recusou. Poderia achincalhar e dizer que falei com Guardiola ou Mourinho mas não faz sentido. Não tenho postura destruidora, não faz parte de mim. Para além dos portugueses, que têm feito bons trabalhos, as três outras nacionalidades são espanhola, holandesa e italiana...
Então podia ser Rijkaard, não?
É verdade, sabíamos que Rijkaard e Zico estavam desempregados, inclusive que Zico tinha dado uma entrevista a dizer que queria vir para o Sporting e que Rijkaard está em casa há dois anos. Nós temos de olhar para o modelo ganhador e para o perfil que o Sporting necessita, aí escolhemos o mais adequado. Não tenho o direito de falar mal, foram excelentes jogadores mas como treinadores é preciso ver quem são os mais indicados...
Já tem treinador ou só conversas?
Claro que sim, já existe! Fizemos uma seleção mas não revelamos porque o nosso treinador está empregado e tem uma época a defender no clube que representa.
E no dia 27, já pode anunciar?
Estamos tranquilos. Sou responsável, não sou nenhum aventureiro nem preciso de dizer o treinador para ganhar as eleições. As pessoas têm de entender que estão a eleger um presidente e não um treinador para o futebol porque esse nome pode ser efémero, o presidente vai defender o clube durante anos. Depois, também não vou dizer para não ter o mesmo nível de incorreção que os outros candidatos estão a ter. Então o novo treinador não tem de ser discutido também com José Couceiro? Apesar de estar como treinador, é diretor-geral, não faz sentido falar com ele?
"Podia anunciar treinador desde que não prejudicasse"
Então se é assim, já falou com ele...
Não... Mas repare, faz sentido anunciar nomes sem nos sentarmos à mesa para perceber se José Couceiro faz parte do futuro? Fazendo, o técnico tem de ser discutido também com ele. Só depois de ganhar é que podemos fechar com o treinador, a partir daí é que existe já essa legitimidade. Era incorreto, sem termos ganho, dizer que temos A ou B. Por exemplo, se surgir agora um clube que Rijkaard ou Zico entendam que tem maior prestígio do que o Sporting, vão dizer que não aceitam porque estão vinculados a um candidato? Isto é uma feira de vaidades e nós estamos a eleger o presidente do Sporting! Martin O'Neill foi para lançar a confusão, mas os sportinguistas não gostam que atirem poeira para os olhos...
Tem ideia de um treinador mas não vai anunciar. Porquê?
Podia anunciar desde que fosse articulado, bom e não prejudicasse. Temos de ficar em 3.º. Não quero desestabilizar e tenho uma mensagem institucional, prefiro isso porque temos mesmo de ficar em 3.º e começar a época mais tarde, em agosto. Definimos o perfil do treinador e escolhemos fruto desse perfil e daquilo que queremos. Está definido mas temos de conhecer lá dentro como está tudo organizado, os novos valores, se os jogadores não estão a render tanto por causa da sua estrutura ou pela sua capacidade. Não faz sentido embandeirar em arco por isso. Depois, porque o nosso treinador está empregado. Não procuramos desempregados e, por isso, como é um verdadeiro profissional, não seria correto anunciar por respeito ao projeto onde ainda está. Procurámos alguém empregado e tem de estar na sua entidade profissional até ao final da época, só depois muda...
E é melhor do que Rijkaard e Zico, imagino...
Na minha opinião, Zico e Rijkaard foram bons jogadores de futebol mas não se adaptavam ao que queria. No caso do Zico porque não tem a nacionalidade que queremos; Rijkaard porque teve sucesso desportivo em torno do Barcelona mas depois não. O Sporting precisa de alguém que, independentemente do sucesso desportivo e da boa referência como nome, esteja aberto ao projeto do Sporting como é hoje, à ambição e às ligações. Não basta ter sido uma referência - e o nosso foi. Não basta ter sido uma pessoa que tenha ganho títulos - e o nosso ganhou. Precisa de ter ambição e de estar hoje no terreno com uma carreira claramente ascendente. A diferença do nosso para os outros é que tem estado nessa carreira ascendente e os outros nem por isso. Mas não quero desprestigiar nomes.
Trabalham nesses países ou têm essas nacionalidades?
Têm essas nacionalidades mas podem estar a trabalhar em qualquer parte do mundo. Podia falar-lhe do treinador do Espanhol [Maurício Pochettino], que é argentino mas tem uma escola francesa, porque é essa a formação de base mas teve sucesso sendo argentino...
Esse não tem títulos e não entra nas três nacionalidades, por isso risca-se...
Pois... Por isso já está riscado...
"Treinador tem de trabalhar com América Latina e África"
Pois...
Mas isto para explicar que não podemos errar e queremos ter essa vertente ganhadora. O treinador tem de ter ambição, tem de defender o clube e a sua própria imagem, tem que saber trabalhar com a formação, tem que contar com títulos na carreira, tem que, pela sua referência como nome, fazer a interligação com gente mais velha. Já viu um treinador que não esteja habituado a trabalhar com o nosso mercado, que é, com a nossa capacidade, a América Latina e África? É o nosso mercado natural. Se gostava de ter jogadores europeus? Claro, mas exceto os jogadores de grande qualidade que estejam em fim de carreira, que é possível, é difícil ir buscar um jogador europeu que já esteja a jogar cá porque são preços elevados. Consegue-se com fundos e empresários? Claro, outros como nós conseguem, mas temos de ver a relação custo-benefício. O Adebayor, por exemplo, por 14 milhões de euros, que é sua a cláusula, é um bom nome para o Sporting, claro...
E o Sporting conseguia dar?
Tem as condições de qualquer clube europeu para ir buscar parte dos passes dos jogadores. Precisa de ter credibilidade, um técnico e um diretor bons e com prestígio. Precisamos de gente com qualidade como Carlos Freitas, que saiba falar com os agentes, com os empresários, com os clubes, com os dirigentes, que tenha essa credibilidade. Assim as pessoas acreditam em nós. Por exemplo, Augusto Inácio ajudou o Sporting a ser campeão como treinador, agora resta saber se a sua experiência é a adequada para ser vice-presidente do futebol. É isso que temos de perceber. Não o discuto como treinador nem referência em 1999/00. Não estou contra ninguém, tem o seu valor no lugar que tinha e integrado na equipa onde estava. Temos de ir buscar gente certa para os lugares certos.
Como é que enquadra treinador, Luís Duque, Carlos Freitas e José Couceiro?
Falei num projeto articulado no seu todo, com formação, equipa B e principal. Por outro lado, no organograma da SAD, há um administrador-executivo, que é onde está Luís Duque. Não há dúvidas. Depois o treinador, também não há. Os lugares relativos a gestor de ativos, diretor-geral e diretor desportivo da formação têm de ser articulados e, afinal, temos três lugares para duas pessoas. É assim tão complicado?
Quem vai fazer o quê?
Não vou dizer. Há três lugares, diretor desportivo da formação, gestor de ativos e diretor-geral. Será anunciado depois. Carlos Freitas tem um lugar claro e definido mas o momento certo para explicar é quando falámos, no final da época.
"Vendemos em função do projeto, não de necessidades"
Admite que o futuro passa por compra com fundos e alienação de parte dos passes dos jovens jogadores?
O projeto é para ganhar, não quero ficar dependente da venda dos jogadores. Há vendas em função do projeto e não em função das necessidades - e esta é a grande diferença. Vender a qualquer preço só para permitir que se paguem salários não. Jamais venderia um jogador para um rival. Mas veja: faz sentido falar num modelo integrado. Outro candidato [Bruno Carvalho] falou num 4x3x3 para todas as equipas - não sabe o que diz. Então não tem treinador, isso não é para articular com o treinador? É uma irreverência fora do contexto de quem não percebe nada... A independência passa por isso, tenho de ganhar. Se baterem uma cláusula de 30 milhões é outra coisa, vender um jogador para depois aguentar uma época desportiva ou algo do género acabou. A grande mudança é essa - eu, Luís Duque e Carlos Freitas viemos aqui para ganhar, não para vender os jogadores e equilibrar o passivo.
Mas falou de nomes como Adebayor...
Não me diga que já o contratei...
Teria de ser com fundos mais fundos...
Claro, não só mas também passará por aí. Será igual a qualquer clube grande. O Sporting terá os passes que forem necessários mas há uma diferença - quem escolhe os jogadores somos nós e depois vemos as melhores soluções para contratar. Nós escolhemos o treinador, depois vemos com ele os jogadores que são necessários, apresentamos os jogadores, escolhemos em conjunto e depois vamos buscá-los.
Apresenta o Adebayor no final da época?
Não, não... É só um exemplo de um jogador de qualidade. Se fosse presidente tinha pensado nesse jogador. Não tivemos o Peter Schmeichel? Porque é que não podemos ter um Raúl, que em vez de acabar no Schalke podia acabar no Sporting?
Paulo Sérgio estava à espera de Trezeguet, que falhou por 100 mil euros... Ou Thierry Henry, ou Trezeguet ou Van Nistelrooij. Temos de ter capacidade para contratar porque esses jogam e quem está no banco reconhece que são referências. Ao contrário é que não pode ser...
E vendem camisolas, já agora...
Com certeza. É tudo!


