18 de maio de 2013 às 23:00
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"Go home,'paki'!" A propósito do assassino de Toulouse

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)

A expressão ficou-me na memória, e às vezes lembro-me dela. Ouvi-a quando vivi em Londres, há uns 15 anos, passando por um 'sem abrigo'. Curiosamente, ele, um 'homeless', mandou-me para a minha 'home'...! Ri-me porque éramos ambos 'homeless', por razões provávelmente diferentes.

O pensamento veio desta vez por causa do assassino de Toulouse, o tal que se afirmou 'jihadista'. Nos media questionava-se sobre a falta de integração dos 'imigrantes de 3ª geração', e dos suportes ideológicos que encontram para legitimar a sua violência e actos de terrorrismo. É verdade que os terrorrismos não são exclusivos de populações migrantes, nem dos de '3ªa geração' , nem exclusivo a muçulmanos; mas é verdade também que encontramos pela Europa fora, e nos últimos 10 anos, um conjunto de eventos que cabem nesta tipologia. E isto não deixa de ser preocupante.

Reflectindo sobre estas questões, conversava com o meu marido sobre esta ideia de 'homeless'; não do tipo que me mandou para o Pakistão, mas de sentir-me portuguesa, e mesmo assim mandarem-me para a Arábia (como alguns comentadores já o fizeram neste blogue), e de, na eventualidade de lá ir, também nunca ser árabe, porque a naturalidade é moçambicana, a nacionalidade portuguesa, o nome é persa, o apelido hindu, e ainda por cima,Ismailita - ou seja, de uma fé muçulmana minoritária, vista como uma heresia do Islão. Para o meu marido, não há necessidade de ter 'uma identidade'. O que é isso? E para que serve? Onde nos leva? E lembrando-se da obra de V.S.Naipul, A Curva no Rio, recordou o personagem principal que faz uma passagem pela vida sem nada deixar de seu; sem nunca ter tido a vontade de intervir; de contribuir para a mudança. Falar de identidade é portanto, querer categorizar, arrumar, para não baralhar. O que importa mesmo é, onde quer que seja a nossa 'casa' ,de aí deixar algo nosso; contribuir para algo positivo, nem que seja levantar questões que façam pensar. Diz que é o que tenta fazer em em África, com as pessoas com quem trabalha.

Então, qual o elemento que leva o sujeito humano a pensar da maneira como a que pensou o assassino de Toulouse? Será não ter nenhuma expectativa de futuro, ou sentir a injustiça na forma como a sociedade o trata a si e aos que considera seus semelhantes? Ou será a falta de valores? E se sim, quais serão esses?

Em Moçambique os indianos muçulmanos trabalharam muito para viver os seus presentes, e ter expectativas boas para o futuro. Não eram mal-tratados, mas não eram nem 'portugueses', nem 'moçambicanos'. A sociologia anglo-saxónica designa-os como 'middlemen': tinham uma conduta exemplar perante Portugal e na sua actividade mercantil, serviam bem os nativos. Quanto a injustiças, recordo a história de um velho Ismailita que queria ir dançar com umas miúdas giras lá do liceu, mas que o clube era só para 'portugueses'. Não sabiam, e a coisa já estava combinada com as meninas. Ora, pensaram, temos de dar a volta à situação. E por essa noite usaram os cartões de membros do clube com os nomes falsificados: O Noorali passou a "Noronha-qualquer-coisa" e o Haji a "Henrique-qualquer-coisa", e lá foram bailar com as meninas portuguesas que até lhes achavam graça. E nem mesmo nessa condição se sentiram inibidos de contribuir para o bem, para a justiça, para a paz no seu país e no mundo.Foi, pois, por altura da 2ªGrande Guerra que o meu avô paterno e uns companheiros Ismailitas se apresentaram, nos seus trajes mais sóbrios e elegantes, perante a embaixada britânica, oferecendo-se como soldados das forças aliadas.

Concluo que a linha que separa o homicida de Toulouse de gente como a maioria dos muçulmanos que sempre conviveu com a diferença e sentindo-se diferentes, tem a ver com uma vivência cultural de valores religiosos que incentivam a intervenção positiva na sociedade, contribuindo para a mudança, mesmo que pequena. Como me disse um bom amigo Cristão, está na moda dizer-se que as religiões só vieram trazer a morte e a destruição. Na verdade, disse ele, se efectivamente contarmos as mortes e horrores cometidos em nome do Não-Deus, e compararmos com as que se fizeram em nome-de-Deus, encontraremos uma amostra proporcionalmente inferior destas últimas. Ninguém fez ainda as contas. Falamos por intuição, e pela força do mediatismo antireligioso.

Talvez por isso, muitos 'homeless' muçulmanos, com histórias de migrações como a minha, têm feito coisas extraordinárias na 'home' onde cohabitam com outros semelhantes. Eles estão aí; muitos são nossos vizinhos do bairro, da rua, ou do prédio onde vivemos.

Comentários 10 Comentar
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Re: "Go home,'paki'!" A propósito do assassino de
Está-se aqui a falar de dois problemas diferentes.
um deles é a característica do ser humano, como qualquer animal, afastar o que é diferente dele, deja por raça, religião, estrangeiro, de ser de aldeia diferente, orientação sexual, ... Isto explica o "go-home paki" que pode ser "go-home preto, go-home branco, go-home algarvio, go-home comuna", ... Em alturas de crise, basta só um motivo.
Outra questão é a do fundamentalismo islâmico. Fala-se deste porque mais activo, mas existem muitos mais. Nos próprios USA existem diversas seitas que estão a um passo disso. As massas humanas são todas influenciáveis. Só é preciso reunirem-se os ingredientes necessários para despoletar a loucura. Veja-se o fenómeno Hitler, e a histeria que causava. Se analisarmos o alemão isolado, é impensável que aceitasse tal figura. No entanto, ele foi eleito!
O fundamentalismo islâmico é semelhante: reuniram-se os ingredientes e está a arder. O grande problema é que os americanos pelas suas imbecilidades quotidianas e os europeus pelo seu passivismo idiota deitam gasolina para a fogueira...
Equívocos? ou puras mentiras?
Os textos desta senhora sempre me afligem e me deixam desconfortável. Fico constantemente na dúvida sobre a senhora está sinceramente equivocada ou é apenas masoquista e mentirosa. A mexerofada intectual deste texto é de tomo. Cada frase mereceria comentário. A ingenuidade ou hipocrisia das interrogações q formula quanto ao q leva o sujeito a pensar como o assassino de Toulouse são confrangedoras - o seu leque de opções é tão vago, tão genérico, tão inoperacional, q duvidamos da sinceridade. Uma mulher com esta mentalidade não contribui nada para a reforma, necessária e urgente do Islão.Pelo contrário.(E as mulheres são, nesse aspecto, a esperança da mudança! e se não entendem isso...). Muito grave também é a trapalhice descarada - desafio a senhora e fico á espera q venha esclarecer e enumerar "as mortes e horrores cometidos em nome do NÃO-DEUS", mesmo sem se perceber o q seja isso do Não-Deus! Diz q são menos do q as cometidas em nome de Deus, mas "ninguém fez as contas"! Como fazê-las? antes seria necessário saber quais e quantos seriam tais horrores "em nome do Não-Deus"...Mal está tudo quando se equaciona tudo na vida em função da religião, do deus ou não-deus. A identidade das pesoas não se cola exclusivamente, nem principalmente, á sua religião - leia Amartya Sen.
Go home,'paki'
Penso que a Sra. não atingiu ainda a raíz do problema.
E a raíz do problema reside no facto de certas minorias pretenderem viver no país de acolhimento da mesma forma que viviam no país de origem, no caso com uma cultura diferente.
Existe um aforismo: "em Roma, sê romano".
Ou então vai-te embora.
Porque nada tenho contra aquele preto, aquele indiano, aquele cidadão (seja qual for a sua origem) mas que viva de acordo com as normas e a cultura onde vive.
Como fazem os portugueses que emigram para a França, Alemanha, etc.
Procuram viver de acordo com as regras do país que os acolhe.
O que não acontece, de uma forma geral com os mussulmanos - que pretendem impor a sua forma de ver o mundo a todos os outros.
E já agora, estou de acordo com os que afirmam que as religiões servem apenas para dividir, e não para de alguma forma unir os homens.
Re: Muçulmanos Ver comentário
Não dá para entender...
Não dá para entender como funciona a cabeça dum(a) muçulmano. Para eles o que é importante na vida? que princípios e que valores defendem?

O Islão é compatível com a democracia e com os direitos humanos?
 
Nunca vi um muçulmano, mais radical ou menos radical, criticar o que se faz em nome do Islão...
- A mulher é tratada abaixo de cão... mutilada genitalmente em criança, toda a vida vive numa posição de inferioridade em relação ao homem.
- A sharia, é um conjunto de leis medievais, que devia envergonhar qualquer pessoa do século XXI. Os crimes por blasfémia são duma desumanidade...inconcebível, a pedofilia é aceite com normalidade, os pais vendem crianças de 8 ou 9 anos para casar com velhos de 60... a poligamia é permitida...

Uma mulher ou criança violada, é condenada pela sociedade e o abusador se aceitar casar com a vitima não sofre qualquer sanção... Há dias uma rapariga de 17 anos suicidou-se, porque foi obrigada a casar com o homem que a violou, a familia do marido tratava-a mal e os pais não a queriam receber de volta a casa, matar-se foi a solução...
- A vida humana não tem qualquer valor, seja a própria e muito menos a dos outros...

Esta cronista que até tem formação, nunca fala destes casos, como pessoa informada é uma vergonha pactuar com todos estes crimes,
Re: Não dá para entender... Ver comentário
Não dá para entender os "produtos portugueses" Ver comentário
Re: Não dá para entender... Ver comentário
Lavagens!!!
Este artigo é no minimo uma tentativa de lavagem cerebral,Lá vem a pôr paninhos quentes!
Hoje em dia temos que ser politicamente correctos,ora ninguém é obrigado a gostar de x ou y,não é verdade? O facto de por ex.não gostar de Chineses, etc etc,não tenho esse direito? Liberdade de pensamento é um direito que assiste a cada um,agora virem impôr o que está mal ou certo,para mim essa não entra! De certeza que esta Sra ou não sabe o que se passa na Europa e as consequências que já estão á vista devido á nossa permissividade,ou então anda a enganar as pessoas!!A reia para os olhos não obrigado!
Re: "Go home,'paki'!" A propósito do assassino de
Penso que as suas palavras reconhecem, em directo, uma vivência que só quem a experienciou consegue reconhecer. Não interpreto como filosofia religiosa, nem ética, mas sim um ensaio acerca de um estigma e etiquetagem de quem, por um motivo ou outro, vive afastado do pais de origem. Racismo, preconceito, xenofobia, discriminação, segregação existem em todo o lado, às vezes ate dentro do próprio país. A romântica ideia de se ser um cidadão do mundo é ambígua e irreal. Considerarei sempre que o assassínio é o cúmulo dos absurdos mas vivi o bastante para saber que o mundo não é preto e branco, mas tem sempre imensos cambiantes de cinzento. A mentalidade das massas é sempre um perigo terrível, e para mim o homem só pode subsistir pela sua propria humanidade. E se todos somos humanos, a nossa humanidade só subsistirá quando religiões, cores de pele e ideias foram unanimamente respeitadas nos actos diários. A utopia do mundo ideal é apenas isso mesmo, uma utopia. Acredito que todos mais ou menos buscamos a felicidade, e quando todos nos preocuparmos essencialmente em sermos apenas humanos, todos iguais mas todos diferentes, o nosso mundo será um mundo melhor.
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