"Go home,'paki'!" A propósito do assassino de Toulouse
A expressão ficou-me na memória, e às vezes lembro-me dela. Ouvi-a quando vivi em Londres, há uns 15 anos, passando por um 'sem abrigo'. Curiosamente, ele, um 'homeless', mandou-me para a minha 'home'...! Ri-me porque éramos ambos 'homeless', por razões provávelmente diferentes.
O pensamento veio desta vez por causa do assassino de Toulouse, o tal que se afirmou 'jihadista'. Nos media questionava-se sobre a falta de integração dos 'imigrantes de 3ª geração', e dos suportes ideológicos que encontram para legitimar a sua violência e actos de terrorrismo. É verdade que os terrorrismos não são exclusivos de populações migrantes, nem dos de '3ªa geração' , nem exclusivo a muçulmanos; mas é verdade também que encontramos pela Europa fora, e nos últimos 10 anos, um conjunto de eventos que cabem nesta tipologia. E isto não deixa de ser preocupante.
Reflectindo sobre estas questões, conversava com o meu marido sobre esta ideia de 'homeless'; não do tipo que me mandou para o Pakistão, mas de sentir-me portuguesa, e mesmo assim mandarem-me para a Arábia (como alguns comentadores já o fizeram neste blogue), e de, na eventualidade de lá ir, também nunca ser árabe, porque a naturalidade é moçambicana, a nacionalidade portuguesa, o nome é persa, o apelido hindu, e ainda por cima,Ismailita - ou seja, de uma fé muçulmana minoritária, vista como uma heresia do Islão. Para o meu marido, não há necessidade de ter 'uma identidade'. O que é isso? E para que serve? Onde nos leva? E lembrando-se da obra de V.S.Naipul, A Curva no Rio, recordou o personagem principal que faz uma passagem pela vida sem nada deixar de seu; sem nunca ter tido a vontade de intervir; de contribuir para a mudança. Falar de identidade é portanto, querer categorizar, arrumar, para não baralhar. O que importa mesmo é, onde quer que seja a nossa 'casa' ,de aí deixar algo nosso; contribuir para algo positivo, nem que seja levantar questões que façam pensar. Diz que é o que tenta fazer em em África, com as pessoas com quem trabalha.
Então, qual o elemento que leva o sujeito humano a pensar da maneira como a que pensou o assassino de Toulouse? Será não ter nenhuma expectativa de futuro, ou sentir a injustiça na forma como a sociedade o trata a si e aos que considera seus semelhantes? Ou será a falta de valores? E se sim, quais serão esses?
Em Moçambique os indianos muçulmanos trabalharam muito para viver os seus presentes, e ter expectativas boas para o futuro. Não eram mal-tratados, mas não eram nem 'portugueses', nem 'moçambicanos'. A sociologia anglo-saxónica designa-os como 'middlemen': tinham uma conduta exemplar perante Portugal e na sua actividade mercantil, serviam bem os nativos. Quanto a injustiças, recordo a história de um velho Ismailita que queria ir dançar com umas miúdas giras lá do liceu, mas que o clube era só para 'portugueses'. Não sabiam, e a coisa já estava combinada com as meninas. Ora, pensaram, temos de dar a volta à situação. E por essa noite usaram os cartões de membros do clube com os nomes falsificados: O Noorali passou a "Noronha-qualquer-coisa" e o Haji a "Henrique-qualquer-coisa", e lá foram bailar com as meninas portuguesas que até lhes achavam graça. E nem mesmo nessa condição se sentiram inibidos de contribuir para o bem, para a justiça, para a paz no seu país e no mundo.Foi, pois, por altura da 2ªGrande Guerra que o meu avô paterno e uns companheiros Ismailitas se apresentaram, nos seus trajes mais sóbrios e elegantes, perante a embaixada britânica, oferecendo-se como soldados das forças aliadas.
Concluo que a linha que separa o homicida de Toulouse de gente como a maioria dos muçulmanos que sempre conviveu com a diferença e sentindo-se diferentes, tem a ver com uma vivência cultural de valores religiosos que incentivam a intervenção positiva na sociedade, contribuindo para a mudança, mesmo que pequena. Como me disse um bom amigo Cristão, está na moda dizer-se que as religiões só vieram trazer a morte e a destruição. Na verdade, disse ele, se efectivamente contarmos as mortes e horrores cometidos em nome do Não-Deus, e compararmos com as que se fizeram em nome-de-Deus, encontraremos uma amostra proporcionalmente inferior destas últimas. Ninguém fez ainda as contas. Falamos por intuição, e pela força do mediatismo antireligioso.
Talvez por isso, muitos 'homeless' muçulmanos, com histórias de migrações como a minha, têm feito coisas extraordinárias na 'home' onde cohabitam com outros semelhantes. Eles estão aí; muitos são nossos vizinhos do bairro, da rua, ou do prédio onde vivemos.


