A PJ de Braga mantém no Parque Nacional da Peneda Gerês várias brigadas, com inspetores disseminados pelos locais afetados por incêndios. Mas os três detidos por fogo posto nada tinham a ver com a área protegida do parque nacional.
Dois casos envolviam vinganças pessoais por "má vizinhança" e o terceiro incêndio terá sido desencadeado por um doente mental com problemas de alcoolismo, de uma aldeia situada nos arredores de Barcelos, Durrães.
"Todos os anos ele ateia fogos. Depois, confessa tudo às autoridades e até reconstitui os crimes, mas como não há testemunhas e os advogados o aconselham a nunca prestar declarações ao juiz de instrução criminal, acaba por sair em liberdade", apurou o Expresso junto de um autarca.
Uma área imensa que vai desde Melgaço a Montalegre, passando por Arcos de Valdevez, Ponte da Barca e Terras de Bouro - ou seja, cinco municípios de três distritos, Vila Real, Braga e Viana do Castelo - também não facilita o trabalho à PJ, que diariamente é confrontada com muitas denúncias por fogo posto em matas e florestas do Parque Nacional da Peneda Gerês.
Dificuldade na recolha de prova
Segundo vários investigadores da PJ, "o crime de incêndio florestal é dos de maior dificuldade em recolher prova concludente para os tribunais". Acresce que "quem poderia testemunhar é gente isolada e muito idosa, às vezes com mais de 80 anos, que nunca entrou num tribunal e receia acusar os vizinhos". O mutismo chega ao ponto de no Alto Minho os mais velhos comentarem que "à Polícia e à Guarda nem as horas certas do relógio se diz".
Sem testemunhos, os magistrados não aplicam prisão preventiva nem medidas de segurança como o internamento compulsivo. "É preciso haver mais do que uma pessoa presenciar alguém a lançar o fogo, o que é muito difícil em zonas ermas dos montes", confessa ao Expresso um especialista da PJ.
Gerês há muitos...
"Quando se fala no Gerês, às vezes confunde-se as zonas mais montanhosas e ermas com outras como a vila termal do Gerês, onde o fogo não chegou ao núcleo urbano e ficou a centenas de metros", referiu ao Expresso já esta semana um industrial hoteleiro.
"Com as chamas a arderem a muitas dezenas de quilómetros no Soajo, já no Alto Minho, chegámos a ter canceladas num só dia cerca de 30 reservas para alojamento quando não havia já sequer focos de incêndio na vila do Gerês", acrescenta.
O mesmo industrial não quis ser identificado à conta desta revelação curiosa: "Quando as chamas se aproximaram da vila, eram mais os soldados da GNR do que os bombeiros. Aliás, houve gente irada que foi protestar para o centro de operações da Proteção Civil". E mais: "Meios aéreos a sério só passavam cá quando havia diretos televisivos".
Os suspeitos do costume
A motivação e a autoria dos incêndios florestais que têm assolado a serra do Gerês escapam, na maioria dos casos, às razões e aos suspeitos do costume no julgamento popular, como apurou o Expresso junto de moradores e de autoridades que têm lidado com o fenómeno nas últimas semanas.
Se madeireiros, pastores e caçadores são quase sempre os primeiros suspeitos quando se fala de incêndios e nomeadamente de fogo posto, as fontes contactadas pelo Expresso no Gerês apontam antes para casos de vingança entre vizinhos desavindos e negligência de turistas e de emigrantes na origem de muitos fogos naquela zona banhada pelo rio Cávado.
A questão das madeiras tem que se lhe diga. Existe muita madeira alvo das cobiças alheias em terrenos baldios, geralmente administrados pelas autarquias locais. Se arder é comprada a metade do preço, em condições razoáveis.
Se é certo que os pastores precisam de renovar os pastos, a verdade é que não é esta a altura que mais lhes convém, mas sim em fevereiro e março. No entanto, a autorização para a realização de queimadas controladas é sempre dificultada pelos responsáveis do Parque Nacional da Peneda Gerês.
"Patos bravos" negligentes
Com os caçadores registaram-se em anos anteriores casos de vinganças, quando um ou outro ficou fora das áreas de caça associativa. Num desses episódios, por exemplo, o dono de um terreno não podia caçar no mesmo, o que terá aumentado a sua revolta.
Queima-se para vender e comprar (sem burocracias) madeira mais barata, queimam-se áreas para renovar os pastos em pleno verão quente ou para afastar e dizimar a caça. Mas, segundo apurou o Expresso, poucos são os que arriscam queimar as próprias terras, ficar sem caça ou sem uma área considerável de pasto.
Estes são casos isolados, porque as vinganças de vizinhos e as negligências de "patos bravos" no Parque Nacional da Peneda Gerês constituem um número significativo de ignições que se transformam em grandes fogos florestais.
"Há turistas que fazem fogos e grelhados de dia e de noite nesta altura do ano, assim como emigrantes que para limparem os lixos envolventes das casas ateiam o fogo e depois perdem o controlo da situação", explica uma fonte conhecedora da situação.
O caso do "Sãobentinho"
O caso mais típico é o do incendiário misterioso do São Bento da Porta Aberta, que ataca há anos consecutivos impunemente. Desta vez, a GNR evitou que incendiasse à hora do costume, mas ele acabou por vingar-se ateando o fogo à noite. Na sexta-feira, dia da habitual procissão, havia a circundar o santuário e as matas das cercanias muitos soldados da GNR, incluindo patrulhas a cavalo, para prevenir o incêndio mais do que certo.
As forças da GNR dissuadiram o misterioso incendiário que, diz-se na zona, ateia o fogo para desviar as atenções da procissão e da romaria todos os anos".
Os cavalos da GNR deixaram as matas ao final da tarde e o certo é que logo ao princípio da noite foi ateado o "incêndio tradicional" no monte em frente ao São Bento da Porta Aberta, conhecido popularmente por "Sãobentinho".