Não é preciso ser um génio da finança para perceber o que está José Sócrates a fazer este fim de semana no Qatar. O pretexto da visita é outro, naturalmente. Mas o objetivo a atingir é simples e urgente: ter mais uma opção de colocação de dívida pública. Apesar de jornais como o Expresso terem repetidas vezes noticiado a operação diplomática que o Governo lançou nos últimos meses de 2010 junto de países 'amigos', os analistas insistem em não perceber o que se estava (e está) a passar.
Qualquer crise de dívida pública mede-se por indicadores simples. Uma mão cheia de bom senso e outra com uma máquina de calcular chegam para traçar o destino. E quando Portugal tem que pedir emprestado 47 mil milhões de euros em 2011 e os juros estão perto dos sete por cento, o destino está traçado: tem que recorrer ao FMI e ao fundo de emergência europeu.
Mas a história das crises de dívida pública mostra que, muitas vezes, a política internacional joga um papel mais determinante do que a aritmética. Já se começou a ver que a China nos deu a mão. Brasil e Líbia vão mostrar o mesmo. Registem o nome do Qatar, que tem o 14º maior fundo soberano do mundo e as terceiras maiores reservas mundiais de gás natural.
O fundo soberano do Qatar é desconhecido dos políticos portugueses. Mas tem feito negócios relevantes um pouco por toda a parte. Em 2009 deu que falar quando vendeu as ações preferenciais que detinha na Volkswagen, o ano passado investiu mil milhões na maior empresa francesa de construção naval, comprou 10 por cento de uma empresa de eletricidade indiana e estabeleceu uma operação importante na Indonésia.
Não sei o que o Qatar vai querer em troca, mas não deverá andar muito longe do que a China, Líbia ou Brasil vão querer: participações em empresas portuguesas, posições preferenciais no porto de Sines, etc.
É um caminho perigoso? Sim. Mas está traçado. Não sei se evita a vinda do FMI, mas atrasa o processo. E talvez o atrase a ponto de a União Europeia perceber que o resgate de um país não evita o contágio do país seguinte. Deixar os holofotes incidir sobre Espanha é um risco que a UE não pode correr. Um risco económico mas, acima de tudo, um risco político inaceitável. Um risco que, curiosamente, pode salvar Portugal. Até que a UE se decida, resta a Sócrates visitar países 'amigos'.
Ricardo Costa
Texto publicado na edição do Expresso de 15 de janeiro de 2011