Júlio Monteiro era esperado quarta-feira numa sala do Tribunal de Cascais por Maria Alice Fernandes e outros três inspectores da PJ de Setúbal. Os dois procuradores do DCIAP, Vítor Magalhães e Paes Faria, chegaram depois e, apesar de dirigirem as investigações do caso, pouco intervieram, limitando-se a uma ou outra observação ou pedido de esclarecimento.
A directora da Judiciária de Setúbal, que já declarou num processo judicial estar convicta de que Sócrates é vítima de uma cabala política, dirigiu a inquirição e fez a quase totalidade das perguntas, que pouco trouxeram de novo. Daí o à-vontade sorridente de Júlio Monteiro à saída do tribunal. "Saiu como entrou: testemunha", resumiu aliviado o advogado Belmiro Sá Leão. E, de facto, nenhum dos dados apurados no interrogatório incriminam o tio de Sócrates e por isso não foi constituído arguido. Não houve perguntas sobre contas offshore e a inquirição incidiu sobre factos que são do conhecimento público e sobre o relacionamento de Monteiro com Sócrates. Foi a única altura em que o tio Júlio ficou pouco à-vontade, descrevendo a relação como "distante". Desde que o caso Freeport rebentou nos jornais os dois não voltaram a falar.
De acordo com uma fonte judicial, Júlio Monteiro começou por ser confrontado com a relação com Charles Smith, o escocês que intermediou o negócio da construção do outlet de Alcochete e já é um dos arguidos no processo, indiciado por corrupção activa. Monteiro explicou como é que o conheceu - são vizinhos na Quinta do Lago e apontou o local exacto onde está a casa de Smith - e esclareceu que nunca teve relações comerciais com ele. "Só propunha negócios pouco rentáveis".
Explicou que Smith se queixou de um escritório de advogados que lhe exigiu quatro milhões (não se lembra se de euros ou de contos) para conseguir a aprovação do projecto de construção do Freeport e que mediou pessoalmente uma reunião com o sobrinho Sócrates, então ministro do Ambiente. "Não sei se a reunião aconteceu porque o Smith nem sequer me agradeceu".
Depois de garantir que não conhecia o outro arguido do processo - Manuel Pedro, o sócio português da Smith&Pedro, indiciado por corrupção - Júlio Monteiro foi confrontado com o e-mail enviado pelo filho, Hugo, aos responsáveis do Freeport, onde pedia dividendos por ter "desbloqueado" a situação. Estava dirigido a um director da empresa com conhecimento de Sócrates e de Monteiro. Segundo a mesma fonte, o endereço electrónico era jsocrates@neuroniocriativo.pt.
Júlio Monteiro admirou-se com a "novidade" e teve de telefonar a uma funcionária para explicar que tinha sido o filho - que continua na China - a criar os endereços "para se fazer importante". Ao fim de um dia aparentemente perfeito, Napoleão, o dogue francês da família voltou a casa (estava desaparecido) e mereceu um comunicado do escritório de advogados.
A investigação ao caso acelerou depois do ultimato do procurador-geral, que deu 15 dias aos investigadores para ouvirem todos os envolvidos no caso. Manuel Pedro voltou a ser interrogado ao longo do dia de ontem, para ser confrontado com as declarações do outro arguido, Charles Smith.
Pedro já tinha sido chamado a depor na terça-feira no tribunal do Montijo, no mesmo dia e no mesmo local em que a Polícia Judiciária interrogou João Cabral, funcionário da Smith&Pedro e uma das pessoas presentes na gravação de vídeo que as autoridades inglesas têm e onde Smith admite o pagamento de 'luvas' para a aprovação do Freeport.
João Cabral confirmou ao Expresso que foi notificado apenas como testemunha, desmentindo uma notícia que chegou a circular ontem de que teria sido constituído como o terceiro arguido no processo
Com os dois sócios e o funcionário da Smith&Pedro, mais o tio de Sócrates, o Ministério Público ouviu nove pessoas em quatro anos, sendo que as cinco primeiras ainda em 2005, no início da investigação. Há dois arguidos, suspeitos de terem pago luvas, mas nenhum suspeito de as ter recebido.
É muito improvável que Sócrates venha a ser ouvido, mesmo como testemunha.
As perguntas a Júlio Monteiro
Como é que conheceu Charles Smith?
Que tipo de negócios teve com ele?
Conhece Manuel Pedro?
Porque é que era sócio do seu filho Hugo Monteiro na empresa Neurónio Criativo?
Como é que a empresa foi criada?
Porque é que a financiou?
Porque é que José Sócrates tinha uma conta de e-mail na Neurónio Criativo?
Como é que os e-mails foram criados?
Quanto é que a empresa facturou?
Já foi liquidada?
Teve conhecimento do mail enviado por Hugo Monteiro à Freeport?
Porque é que o mail foi enviado?
Porque é que proporcionou uma reunião entre Charles Smith e José Sócrates?
Sabe se e quando a reunião teve lugar?
Qual é a natureza da sua relação com o seu sobrinho, José Sócrates?
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Fevereiro de 2009