François Hollande: "Portugal beneficiará com negociação do Pacto Europeu"
Na entrevista ao Expresso, François Hollande, o candidato socialista que pode destronar Nicolas Sarkozy do Eliseu (primeira volta das presidenciais amanhã e segunda volta a seis de maio), começa por saudar o aniversário da Revolução de 25 de abril de 1974:
"A alguns dias do 25 de abril e da comemoração dos 38 anos da Revolução dos Cravos, quero primeiro lembrar os momentos difíceis de um país ligado à Europa que viu partir, sob uma ditadura de direita, os seus filhos, nomeadamente para a França. Esta revolução, que permitiu a instauração de um regime democrático, é um exemplo para o mundo inteiro".
Instado a responder sobre o que é Portugal para ele, fala na História e na língua portuguesa:
"Portugal é um país pequeno de tamanho, mas grande pela sua História e a influência cultural que exerceu e exerce ainda no mundo. Penso, claro, na epopeia marítima dos navegadores portugueses, mas também nas maravilhas herdadas de uma arte milenária ou ainda na importância da língua portuguesa".
"O fado também é libertino"
Mas, sobre Portugal, François Hollande surpreende, quando evoca o fado:
"O fado, agora reconhecido como património mundial, continua a ser a canção, a voz, a alma de Portugal. Um fado que muita gente, demasiado frequentemente, acredita ser triste, mas que eu sei ser também brincalhão, libertino, cheio de humor e ironia. O fado é um canto de todos tempos, ontem com Amália, hoje com Mariza, Mafalda Arnaulth ou Camané. E, enfim, também não esqueço o futebol!"
"Austeridade, sozinha, fecha a Europa na recessão"
Sobre a crise em Portugal, responde:
"Como outros países europeus, Portugal é duramente atingido pela crise nascida pelas errâncias do sistema financeiro. Eu sei que as previsões de crescimento do Banco de Portugal são dececionantes: antecipa agora uma recessão de 3,4 por cento do PIB em 2012 e um crescimento zero em 2013. Estas dificuldades não são específicas de Portugal, dado que a Europa deverá estar em recessão em 2012. Isso tem de nos levar a uma forte reação: se é indispensável reforçar a disciplina das contas públicas nacionais, a austeridade, sozinha, fecha a Europa no círculo vicioso da recessão".
'Project bonds': "Portugal retirará benefícios"
Quanto às soluções para a crise, em Portugal e na Europa, propõe:
"Temos de introduzir nas nossas políticas uma dimensão de crescimento forte. Neste ponto de vista, o Tratado saído do acordo de nove de dezembro de 2011 não é satisfatório. Se for eleito, prosseguirei portanto a negociação do Pacto europeu precisamente para obter, muito rapidamente, avanços nos domínios do crescimento e da criação de empregos. Estou convencido que Portugal retirará grandes benefícios desta reorientação, com o objetivo de combater, nomeadamente, o problema do desemprego. Tal é o sentido da minha proposta dos "project bonds", que serão destinados a financiar investimentos na Europa, mas também um aumento das intervenções do Banco europeu de investimento para projectos industriais, energéticos e de infraestruturas".
"Limitar especulação contra a divida é indispensável para Portugal"
O candidato socialista às presidenciais defende uma maior intervenção do BCE para travar ataques às dívidas:
"Devemos igualmente discutir, ao nível europeu, sobre a forma como o Banco Central Europeu pode intervir mais para limitar a especulação contra as dívidas soberanas: é indispensável para Portugal; cuja divida é regularmente atacada. A Europa deve poder imaginar ações mais coerentes, mais coordenadas e mais audaciosas, para lutar contra esta crise e os seus efeitos sociais danosos".
Comunidade reforça laços entre Portugal e a França
Sobre a significativa comunidade portuguesa e franco-portuguesa residente em França (avaliada em 1,2 milhões de pessoas), François Hollande diz que ela contribui para reforçar os laços entre Lisboa e Paris:
"Os laços entre a França e Portugal são muito antigos e estão solidamente ancorados. Continuam hoje a perpetuar-se através da nossa História recente, quer se trate da construção europeia quer do enraizamento de uma importante comunidade de origem portuguesa em França. Penso designadamente nas mais de 40 mil empresas e artesãos de origem portuguesa existentes em França, na sua rede associativa que participa na animação dos nossos bairros, das nossas cidades, nos militantes que se envolvem nos sindicatos ou nas organizações não governamentais e, agora, também na vida política e nos media. E há igualmente os artistas: Maria de Medeiros, Lio, Luís Rego, Da Silva, Anna de Palma"...
Portugueses de França "são um modelo" para Europa
O candidato ao Eliseu considera os portugueses de França como um modelo para a Europa:
"Conheço homens e mulheres portugueses e de origem portuguesa que encontrei, frequentemente, no decorrer das minhas atividades públicas, nas minhas deslocações, em todas as regiões de França. Desde que me lembro, a presença deles é, para mim, sinónimo de trabalho, de festa, de solidariedade e de espírito de empreendimento. Eles são, para mim, um modelo do que a Europa deve tornar possível através da mobilidade, do acesso aos direitos, da descoberta e da aceitação das diferenças, em proveito da sociedade no seu conjunto".


AP/Michel Spingler
"Temos de introduzir nas nossas políticas uma dimensão de crescimento forte", disse François Hollande
