França no "clube" dos que pagam juros mínimos
As yields dos títulos franceses a 5 e a 10 anos fecharam na terça-feira (17 de julho) em novos mínimos históricos desde a adesão ao euro. Trata-se de um dos componentes de um cisma que está a abalar a zona euro.
As yields (juros) dos títulos franceses a 5 e a 10 anos prosseguiram na terça-feira (17 de julho) a sua tendência de descida no mercado secundário, fixando novos mínimos históricos, desde a adesão ao euro, em 0,79% e 2,09% respetivamente, segundo dados da Bloomberg para o fecho. A Agência do Tesouro francês realizará na próxima quinta-feira três emissões de bilhetes de Tesouro (BTAN) com maturidades para 2015, 2016 e 2017 e outras três emissões de OAT (obrigações assimiláveis do Tesouro) com maturidades em 2019, 2022 e 2040, que serão, certamente, testes importantes ao mercado da dívida.
Os mínimos históricos nos juros em França são, no entanto, superiores aos dos títulos alemães - Bunds - que fecharam, na terça-feira, em 0,291% a 5 anos e 1,23% a 10 anos, e aos dos títulos do Tesouro norte-americano, nas mesmas maturidades, que estavam, ao final do dia, em 0,6% e 1,49% respetivamente.
Prossegue a fragmentação do núcleo duro da zona euro - Alemanha, França, Itália e Espanha - em termos da percepção que têm os investidores no mercado da dívida soberana. De um lado, Alemanha e França, casos em que os investidores se dispõem a aceitar taxas de remuneração muito baixas para tomar dívida de longo prazo; e do outro Itália e Espanha, onde as taxas de remuneração exigidas pelos investidores aos Tesouros dos dois países continuam em níveis elevados.
Os juros das obrigações espanholas subiram, na terça-feira, para 6,12% no prazo a 5 anos e para 6,83% no prazo a 10 anos. No caso dos títulos do Tesouro italiano, os juros desceram para 5,35% no prazo a 5 anos e 6,04% no prazo a 10 anos.
Duas fases na crise da dívida da zona euro
A fragmentação no seio do núcleo duro da zona euro corresponde a uma nova fase na crise das dívidas soberanas dentro do espaço da moeda única.
Em uma primeira fase, entre 2009 e 2011, os investidores internacionais começaram por reavaliar o risco das dívidas das economias mais frágeis da "periferia" da zona euro, sobretudo depois da revelação no final de 2009 das vigarices nas estatísticas gregas durante o governo da Nova Democracia e da crise aguda do sistema bancário irlandês. Os especialistas chamam-lhe, em inglês, o re-pricing do risco. Essa reavaliação levou ao disparo das yields dos títulos soberanos dos países do euro mais "periféricos" com problemas de dívida pública elevada em relação ao PIB (Grécia e Portugal) ou mergulhados no estoiro de uma "bolha" financeira sem precedentes (Irlanda).
Atualmente, emergiu uma segunda fase, em que os investidores dissociam claramente o risco das dívidas espanhola e italiana do de outras grandes economias da zona euro (nomeadamente Alemanha e ultimamente também França). Deste modo, as yields começaram a divergir colossalmente entre estes dois subgrupos e o prémio de risco em relação à dívida alemã disparou. Este re-pricing agrava-se pelo facto de que a economia vai estar em recessão para Espanha e Itália em 2012 e 2013, colocando ainda mais em causa a sustentabilidade das contas públicas da terceira e quarta economias do euro.
O "clube" dos que cobram para emitir dívida
A cereja em cima do bolo deste cisma que abala a zona euro é o "clube" dos países que emitem dívida soberana com rentabilidade negativa em prazos curtos para os investidores. Ou seja, os investidores pagam para emprestar a esses países. Alguns críticos alcunham estes títulos de "certificados de confiscação".
Nos prazos a 2 e a 3 anos emergiu, no mercado secundário, um subgrupo de países da zona euro em que as yields são negativas, ou seja os tomadores de títulos - os investidores - assumem perdas para deter nos seus portefólios tais bilhetes do Tesouro ou obrigações como valores encarados como "refúgio". Dito de outro modo, os Tesouros deste subgrupo dão-se ao luxo de cobrar junto dos investidores para emitir dívida.
O "clube" dos países com juros negativos nestes prazos mais curtos, no seio da zona euro, inclui a Alemanha (que temos regularmente referido) e a Holanda. Esta semana juntou-se a Áustria e a Finlândia. Fora da zona euro, mas dentro da União Europeia (EU), inclui-se a Dinamarca, e, na Europa, fora da UE, a Suíça.
A França já conseguiu, também, emitir dívida soberana no curto prazo no mercado primário com rentabilidades negativas para os investidores.
Em contraste com o "clube" dos candidatos a uma bancarrota num horizonte a cinco anos - que a CMA DataVision diariamente divulga com o seu TOP 10 do risco de incumprimento -, emergiu um outro "clube", o dos que cobram aos investidores para emitir valores de "refúgio".



