25/05/2012 atualizado às 15:49
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Fisgas institucionais

Henrique Raposo
8:00 Terça feira, 24 de fevereiro de 2009

No "Público", Vital Moreira (VM) fez questão de dizer que não concorda com a minha tese: a III República, diz o distinto progenitor da Constituição, tem freios e contrapesos sólidos, e, por isso, eu sou uma espécie de ficcionista político quando afirmo que "Portugal não tem um regime com freios e contrapesos". Na sua argumentação, VM revela o problema central da nossa cultura política: excesso de "pessoalização" e défice de reflexão institucional.

VM afirma que o "poder presidencial de dissolução parlamentar constitui o mais decisivo contrapoder no nosso sistema". Sobre esta argumentação, temos de dizer duas coisas. Em primeiro lugar, é preocupante ver um constitucionalista a conceber um político - o Presidente - como o nosso maior contrapoder. Pensar de forma constitucional significa evitar a 'pessoalização' da política. Um regime constitucional baseia-se em instituições e não em homens. Em segundo lugar, é inquietante ver alguém considerar o poder de dissolução do Parlamento como um freio institucional. Este poder de dissolução é uma ameaça, é uma bomba atómica que se usa uma vez; não é um contrapeso institucional para o dia-a-dia da República. A dissolução do Parlamento é um acto político 'revolucionário' sem qualquer relação com o espírito do constitucionalismo. Aliás, tal como está concebido na Constituição de VM, o Presidente da República (PR) não é um freio com dignidade institucional. É, isso sim, um rei imprevisível e opaco. Para ser um efectivo contrapeso, o PR não deveria possuir a bomba atómica política, mas sim uma série de pequenas fisgas institucionais.

A transparência de uma república é assegurada por uma miríade de instituições fiscalizadoras: Tribunal Constitucional (TC), Banco de Portugal (BdP), Autoridade para a Concorrência, provedor de Justiça, etc. Estas instituições são os efectivos freios e contrapesos. Em Portugal, o problema começa quando o partido do governo consegue controlar - total ou parcialmente - todas estas instituições. VM entra no terreno da fábula política quando afirma, por exemplo, que o TC é um poderoso contrapeso. Como tem salientado Nuno Garoupa, o TC está demasiado partidarizado. Por outras palavras, os juízes do TC são demasiado dependentes do PSD e PS, os partidos que controlam as nomeações. O caso que comprova esta partidarização do mais alto tribunal da nação é, claro, o 'caso Rui Pereira'. Saindo da esfera do PS, Rui Pereira foi nomeado juiz do TC. Porém, só ali permaneceu durante um mês. Porquê? Bom, o PS achou que Rui Pereira, afinal, dava mais jeito como ministro da Administração Interna. Este caso provou que os freios e contrapesos da III República são, na verdade, prolongamentos da vontade do partido da maioria. Nem por acaso, VM passa ao lado do 'caso Rui Pereira'.

Um efectivo sistema de freios e contrapesos exige o seguinte: o PR deve nomear os juízes do TC para mandatos vitalícios; antes de assumirem o cargo, os juízes devem passar pelo filtro do Parlamento. E, já agora, o PR, sem sugestões do governo, deve ser o único responsável pela nomeação do provedor, do procurador-geral e do governador do BdP. Estas são as tais fisgas institucionais que devem entrar no arsenal do PR. Em troca, o Presidente deve devolver a bomba atómica.

Henrique Raposo

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De Rei a Imperador
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 9:56 | Terça feira, 24 de fevereiro de 2009
Apesar das muitas fisgadas certeiras, o articulista acaba por desejar demasiadas fisgas nas mãos do Presidente, eleito em Portugal à moda inquietente das democracias sul-americanas.
 
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a primeira actitude de um governo
L M O (seguir utilizador), 1 ponto , 10:50 | Terça feira, 24 de fevereiro de 2009
E sempre o controlo das instituicoes consideradas do "estado", juizes, autarquias, empresas, fundacoes...a ideia E apenas uma estender os tentaculos tentando abranger o maior numero de centros de decisao e poder para assim exercer a sua "democracia" A sua vontade.

Nunca neste paIs se viu um governo de maioria ou nao, a apresentar um plano nacional de accao duradoiro que abrange-se a sociedade de uma forma vertical. A sua exequibilidade seria alias impossivel, ao contrario da Noruega, Suecia e Finlandia nOs achamos que tudo se consegue da noite para o dia. Para alguns sim, conseguem, perguntem aos Dias Loureiro e tantos outros
 
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HR, Você Merecia Melhor!
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 17:21 | Sexta feira, 27 de fevereiro de 2009
Seria bom que encontrasse um adversário à sua altura.

Não é o caso de Vital Moreira.

Vital Moreira é um dos progenitores, como diz bem, da actual arquitectura do Estado.

Podia, no entanto, ter reconhecido que a mesma refecte as circunstâncias históricas particularmente desfavoráveis à democracia que prevaleciam na altura da sua elaboração e reconhecer que os imensos e graves defeitos que apresenta deviam ser emendados.

Nada disso acontece. O homem acha que fez um bom trabalho, o que só demonstra a sua pequena estatura intelectual.

Por mais que os sintomas nefastos da arquitectura do Estado todos os dias nos digam que algo está morto e arrefece, o nosso homem permanece impávido e incapaz de extrair conclusões.

Consta que o seu adversário é geralmente tido em consideração. É possível, desde que por pessoas com as mesmas características.
 
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Discutir o sexo dos anjos
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 23:52 | Segunda feira, 2 de março de 2009
O regime político português, a III Republica ou como gosto de referir o rotativismo (ora PS ora PSD) não pode legitimamente ser discutido enquanto democracia. É na verdade um regime de partido único (o PS/PSD) que controla todas as instâncias de poder.

O facto de se organizarem eleições, em que só pode vencer o PS/PSD, mostra bem como não temos uma autêntica democracia. O PS e PSD são duas alas da mesma ideologia, da mesma política, do mesmo estilo de governação.

Assim as discussões sob freios, controlos, etc. não passam de lamentáveis farsas. Não é possível aperfeiçoar este regime. Essa será sempre uma discussão estéril É a versão actual de discutir o sexo dos anjos. É uma boa tarefa para mentes ociosas como VM e HR.

Para introduzir uma verdadeira democracia era preciso mudar de regime. Seria necessário fundar uma IV República. As actuais elites no poder obviamente opõem-se.
 
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