"Financial Times": regresso de Portugal aos mercados em 2013 é "inconcebível"
O regresso de Portugal aos mercados no próximo ano, conforme está previsto no acordo de assistência económica e financeira, é "inconcebível", e os mercados já antecipam um incumprimento financeiro "nos próximos cinco anos", escreve hoje o "Financial Times" (FT).
Num editorial assinado pelo editor para os assuntos europeus, Tony Barber, o jornal afirma que Portugal pode pôr em perigo a tese defendida pelos responsáveis europeus segundo a qual a Grécia é um caso isolado e 'resolvido': "A Grécia, na sua desesperada luta para evitar o incumprimento financeiro, é única.
Os responsáveis europeus defendem este argumento à exaustão, mas a recessão económica em Portugal e a dura batalha para pagar a dívida ameaça provar que estão errados - e lançar uma nova tempestade sobre o euro", afirma o jornal.
No editorial, Barber escreve que "a verdade brutal é que os mercados financeiros já estão a colocar um preço sobre um incumprimento português nalgum ponto nos próximos cinco anos" e lembra as taxas de juro exigidas pelos investidores, acima de 17% no prazo a dez anos, recordando que os mesmos investidores tiveram o mesmo comportamento com a Grécia, há um ano.
Passos garante que Portugal vai cumprir acordo
O artigo, que surge no dia seguinte ao primeiro-ministro ter afirmado que Portugal vai cumprir o acordo "custe o que custar", escreve que os investidores na Grécia podem ter de suportar um perdão de dívida ('haircut') de 70% e argumenta que "se os detentores de dívida pública portuguesa tiverem de suportar um 'haircut', isso iria destruir o argumento dos líderes europeus de que tinham, com sucesso, colocado o problema grego em quarentena face ao resto da zona euro".
Concedendo que a Europa olha para Portugal e para os seus líderes políticos como "mais confiáveis" que os gregos, o artigo no jornal económico de referência na Europa considera que o país enfrenta "desafios nunca visto desde a revolução dos cravos, em 1974", exemplificando com a taxa de desemprego de 13,6% e com a recessão prevista de 3% este ano, para além da previsão da dívida pública nos 118% do PIB em 2013 e das "dezenas de milhares de licenciados" que estão a emigrar todos os anos.
A conclusão, pode ler-se, é que "o governo de centro-direita, 'empurrado' pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, está a introduzir reformas estruturais que devem, em tempo, melhorar a competitividade de Portugal, mas tempo é que o país não tem muito", porque "se não conseguir regressar ao mercado da dívida no próximo ano, vai precisar de uma segunda injeção de ajuda da UE e do FMI".
Lembrando as declarações do líder da CIP, António Saraiva, que estimou em 30 mil milhões de euros as necessidades adicionais de Portugal, para além dos 78 mil milhões contratados com a 'troika', o FT termina o artigo afirmando que "a grande questão é se mesmo esta ajuda extra será suficiente para impedir um incumprimento" e sentencia: "O futuro do euro pode depender da resposta".



