Algumas pás e muitas mãos livres para escavar uma trincheira de 20 metros serviram de base a um dos filmes mais baratos da produção nacional e quem sabe um dos mais premiados em festivais.
Enquanto a indústria do cinema se afunda com orçamentos cada vez mais limitados, uma dúzia de jovens algarvios decidiu arregaçar as mangas e mostrar que dinheiro não é problema, ou pelo menos, não é o maior.
"Há muito tempo que faço filmes de baixo orçamento. O Comando foi espontâneo, procurámos ver os recursos que tínhamos em volta e depois a estória foi surgindo depois", explica Patrício Faísca, realizador, ao Expresso.
Todas as horas vagas longe do emprego, num supermercado gourmet, Patrício gasta-as a fazer cinema e consigo arrasta dezenas de voluntários.
"Toda a equipa técnica (da NewLightPictures), os atores e nós trabalhamos a custo zero, só por amor ao cinema. Nós queremos fazer trabalhos, tentamos não desistir e chegar àquilo que pretendemos", desvenda o realizador, que admite nutrir o sonho de uma longa-metragem.
Case study de baixo custo
"Comando", a curta-metragem que ganhou recentemente o prémio de melhor filme nacional no Festival de Cinema de Arouca, retrata uma missão quase impossível: a obrigatoriedade de um soldado entregar uma carta ao oficial superior em pleno campo de batalha, no meio de fogo cerrado.
O filme, com argumento de Sonat Duyar, exigiu quatro dias para escavar uma trincheira no terreno de um vizinho, várias armas de airsoft emprestadas e alguns uniformes, tudo quase a custo zero.
Apesar de tudo, a dada altura os produtores - que também são realizadores e atores - exigiram financiamento: 27 euros foram precisos para comprar sangue falso e arame farpado, necessários para dar realismo às cenas de guerra.
O filme já tinha ganho distinções anteriores, com a atribuição de Melhor Produção Nacional de 2010 na gala anual do Shortcutz Lisboa. A curta recebeu ainda nomeações nas categorias de Melhor Direção de Arte e de Melhor Curta do Mês no Shortcutz Porto.
Comando português viaja por todo o mundo
"Comando", com uma duração de 10 minutos, tem sido também solicitado para exibição em várias mostras de cinema internacionais, em países como o Brasil, China ou Reino Unido.
A equipa, que gostaria de um dia vir a profissionalizar-se, tem agora entremãos uma média metragem, K17.
É a estória de um agente secreto português enviado para uma missão pelo Governo, que de súbito percebe que o seu próprio Governo o abandona, por falta de verbas para financiar a missão. "É uma pequena rábula política, que faz uma alusão à situação atual por que passamos no nosso país", conclui Patrício Faísca.
Pode ver o filme na íntegra aqui.