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Tchim, tchim!

"A multidão agita-se, grita..." O Expresso publicou diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à passagem de ano. Este é o quinto - e último - dos Contos Portatéis de Ano Novo

Cristina Sampaio

Tchim, tchim! Tchim para ali, tchim prá aqui. A multidão agita-se, grita. Alguns abraçam-se, a maioria regista o momento. Uma mão leva a bebida à boca, enquanto a outra capta imagens. Os movimentos repetem-se. Veem-se muitas imagens, formam-se grupos a vê-las. É tempo de festa. Não se trata de passar de um dia para o outro, são 366 dias que já se foram e outros tantos (menos um) que aí vêm, novinhos em folha. Há coisas que se enraízam de tal modo que duram uma eternidade. Tradições até um dia, porque a eternidade deixou de ser eterna, é nisso que Mariana acredita.

O significado das palavras anda em mudança, os amigos acham uma tontaria esta preocupação, mas Mariana tem estado a pesquisar os registos. Muitas palavras já não nos dizem a mesma coisa e não é só porque o progresso ou o desgaste as relegou para o passado, é uma conspiração das elites.

— Elites, vocábulo que foi dos primeiros a ser alterado.

Mariana fala alto, fala para nenhum interlocutor, não importa, faz parte das suas decisões de ano novo a substituição de imagens por áudio quando encetar uma conversa seja com quem for mesmo que seja ninguém.

O fogo de artifício rebenta. Tinham prometido uma passagem de ano à antiga, uma vez sem exemplo não iria poluir o ambiente ou suscitar sentimentos bélicos, as duas razões que proibiram esse tipo de festejo. E eis o céu incrivelmente luminoso, com a chuva controlada de brasas, isso sim, uma sensação nunca vista.

Mariana cala o discurso da adulteração, junta interjeições ao clamor geral. A dada altura sente uma mão malandra.

— Tira a mão! — grita Mariana, desviando o corpo, dificilmente, condicionada pela multidão eufórica que enche de dança a principal praça da cidade.

— Sou um maroto — responde-lhe o rapaz que nunca vira.

— Maroto? Sabias que em determinada época passada chamar maroto era bastante ofensivo? Um maroto era do pior.

Catarina e Fonseca, homem sem nome próprio, trocam murmúrios aos gritos, parece um contrassenso mas neste caso não é. Fonseca está intrigado, tenta uma confirmação:

— Mas tu assististe à conversa? Viste-os?

— Sim... — diz Catarina.

— E depois?

— Depois, foram dali, de mão dada — disse ela, aproveitando para entrelaçar os dedos nos dele.

E nunca mais ninguém os viu, nem a uns nem a outros.

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