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Ao menos estavam juntos

Até esta sexta-feira, o Expresso publica diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à passagem de ano. Este é o quarto dos Contos Portáteis de Ano Novo

Cristina Sampaio


— Meia noite!!! Viva o novo ano! — gritaram os quatro, de copo na mão, batendo com os pés, abraçando-se de seguida. Quando se olharam nos olhos - porque, dizem, as saúdes de copos assim o exigem para não amaldiçoar as relações sexuais dos próximos sete anos - não viram as mesmas caras. Quer dizer, os rostos mantinham-se, reconheciam-se, mas... os cabelos estavam brancos, os poros mais abertos, a pele talhada...

Enquanto se afastavam uns dos outros, de olhos arregalados, bocas espantadas, ninguém disse uma palavra. Não era possível, claro, pensavam. Não podiam ter envelhecido assim de um ano para o outro. Pior: de um minuto para o outro. Mas era o que viam. Portanto, a realidade apresentava-se dessa forma, havia que acreditar, só é permitido não acreditar naquilo que se não vê.

Ainda agora tinham 30 anos, mais coisa menos coisa. Para aparecerem assim, quanto tempo passara? As mãos diziam ter-se passado bastante, a pele arrepanhada demorava a voltar ao lugar. E o choro de crianças, vinha de onde? Do quarto ao lado da sala? Filhos? Netos? Mais uma impossibilidade. Nenhum deles vivia junto, sim, namoravam, eram amigos desde a faculdade, porém, ainda não tinham acordado em mais compromissos; o pula-pula dos afazeres profissionais, um emprego aqui, outro ali, a empresa que dois deles criaram e parece fazer o seu caminho, as horas a cultivar o físico, a beber copos, a olhar as redes, a postar, a escrever para poupar a língua...

Desorientados, procuram a tevê e os telemóveis para poderem olhar outros, observar outras feições, ver o que se passa no mundo. É tudo um pouco incompreensível. A grande tela incorporada na parede só fazia coisas a pedido, e os telefones por onde andavam? Só veem óculos, nanoaparelhos, um robô a surgir da cozinha, ou de onde antes era a cozinha.

Dá-se então uma corrida à casa de banho. Maria, Micaela, Tomás e Rodriguinho querem ver-se ao espelho. E, enquanto isso, apalpam a cara, puxam pelos e cabelos, largando interjeições entre uma afirmação e uma interrogação: Não pode ser! Mas o que é que está a acontecer?

A interrogativa apresenta-se desfasada. Não está a acontecer, já tinha acontecido.

Suspiram, ao menos estão juntos.