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O gajo é Deus?

Até 30 de dezembro, o Expresso publica diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à passagem de ano. Este é o terceiro dos Contos Portáteis de Ano Novo

Cristina Sampaio

Era uma vez um gajo que era Deus. Quem quiser que não acredite, mas o tipo era Deus. Ela não sabia se era Cristo, Alá, se Jeová, se Buda, se até ex-faraó, mas só podia ser verdade. Toda a gente dizia que era Deus. E se toda a gente o diz...

São tantas as pessoas que lhe gritam o nome e o inscrevem em tudo o que rola... É Deus. Cristina tem tanta certeza que passou ao grupo de amigos a sua crença, apontando o dedo para Deus. De todos, Jorge era quem mais dúvidas levantara; achava aquilo um pouco disparatado, mas ela, normalmente, não mentia; conhecia-a bem, quando fugia à verdade espetava o dedo mindinho e nada disso acontecera na videoconversa. Se calhar encontrara-o... Ela apontava para um lugar vazio...

De início, ela telefonava-lhe e só lhe dizia, é Deus, estou-te a dizer! Por mais que lhe tentasse arrancar uma explicação, ela limitava-se a afirmar: Deus, mas Deus mesmo, aquele. Agora, o assunto tornara-se mais sério, ela queria levá-lo para a passagem de ano; e ele...

Jorge pondera que dizer, que fazer. Ele nem sequer é daquelas pessoas que acreditam numa só versão dos acontecimentos. Quem consegue contar uma história sem se desviar um milímetro da primeira versão escutada? É jornalista, por deformação profissional, procura factos sobre o ponto que habitualmente se acrescenta ao conto. O tipo chamava-se Deus, e depois? Há vários por aí.

Mas Cristina insistia:

— Não é só o nome. É ele, eu estive com ele. Estou com ele.

Jorge questionou, pesquisou, escarafunchou, só o facto de ser inverosímil o leva ainda a duvidar, e, claro, o facto de ser ateu. Pensou que Cristina exagerara, que as vibrações do amor lhe haviam estremecido o cérebro, distorcido as reações. Quando ela se apaixona, descontrola-se-lhe a química, estranhas verdades ocupam-lhe o espaço do raciocínio.

É óbvio que está a precisar de desanuviar a cabeça com outros pensamentos, esta pressão dos jornais, esta coisa stressante de esperar à secretária que caia a notícia, um toque de campainha, um rolar na rede, uma polemicazita…

Conforme foram trocando conversas, Jorge foi passando por diversos estágios de compreensão. O que teria acontecido à sua amiga, uma mulher experiente nas várias faces da vida?

É Deus, pronto, tem de o convidar para a festa, também não deve dar muita despesa, pensou, vencido pelo cansaço.

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