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O homem que não queria passar de ano

Até 30 de dezembro, o Expresso publica diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à passagem de ano. Este é o segundo dos Contos Portáteis de Ano Novo

Cristina Sampaio

O homem trazia uma faca na mão, ouviu-se dizer a uma voz de rapaz. Havia um grupo de pessoas, exaltação, dois carros da polícia… É ali, onde a rua se transforma em largo e há uma tasca de muita clientela. A vizinha da esquina, já cá fora, à cata do crime, repetiu, em bom som, falando para o prédio:

— O homem trazia uma faca na mão!

Joana escutara bem. A época é de festa, anda tudo doido, pensou.

Ouvem-se travões à entrada da única rua do bairro que se encontrava desimpedida. Um carro estanca, a porta abre-se para dar saída ao condutor de fraque. De mãos nos bolsos, em passo decidido, Etelvino dirige-se ao incidente; no veículo, no lugar do morto, alguém muito vivo e inquieto carrega na buzina. Mas o condutor não dá sinal, está a espreitar pela janela do veículo da polícia, quer saber o que sucedeu, observar de perto o homem da faca. Estava no seu direito, dizia. A polícia despachou-o, diplomaticamente, tendo em conta o fraque. Se não conhecia o homem da faca, então que fosse à sua vida.

— Oh, era um velho que andava aí a ameaçar toda a gente e gritava não querer mudar de ano — disse Etelvino metendo-se no automóvel, para agrado da companheira, cheia de pressa. Já estavam atrasados para a festa, que interessava um velho que andava com uma faca na mão? E não queria mudar de ano?? Que absurdo... não havia nada a fazer... Ganhara uma história para contar daí a nada, à ceia, pensou Etelvino.

De seguida, um dos veículos da polícia desceu a rua em contramão, deu duas sirenadas e seguiu com o velho lá dentro, já sem a faca na mão que ninguém vira.

Mas ainda se ouviam gritos.

À janela, Joana assiste a tudo. E segue com o olhar e os ouvidos uma outra vizinha que chegou atrasada à rua e tenta atualizar-se com a vizinha da esquina. Esta explica-lhe o sucedido: eu só ouvi dizer "o homem trazia uma faca na mão, o homem trazia uma faca na mão". Mas trazia? Sim, sim. Mas vira a faca? Mesmo? Não tivera medo? Não, estranhamente não tivera medo. O homem gritava que não queria passar de ano, que vinha aí tempestade, o mundo andava louco, o povo perdera o juízo. E dizem que tinha uma faca na mão, na verdade, ela nada vislumbrara, tão ocupada que estava com as palavras.

O que é que ele quereria dizer com aquilo?, interroga-se Joana colada à janela.

— Anda para dentro que é quase meia-noite — diz o cão a Joana, tocando-lhe com o focinho numa perna.

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