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Faltam cinco dias para

Até 30 de dezembro, o Expresso publica diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à passagem de ano. Este é o primeiro dos Contos Portáteis de Ano Novo

Cristina Sampaio

— Faltam cinco dias para a passagem de ano.

— Tu não estás bom, ainda estamos em julho.

— E então? Toda a gente está a dizer que faltam cinco dias. As redes já estão cobertas de ofertas para a passagem de ano a 31...

— A 31, claro.

— De julho!

João já tinha visto nas redes, obviamente, mas rira-se. Agora, o Justino transformava a coisa numa conversa séria. Como é que era possível? Já assistira a muita coisa, inclusive à vigência verdadeira de falsas notícias, mas mexer no calendário, numa data destas? É uma convenção, de acordo, mas é, digamos, uma convenção já muito... convencionada.

A propósito de cenas destas, cada vez mais multiplicadas pelo mundo fora, João já refletira inúmeras vezes. Se a realidade virtual veio transformar a nossa realidade, tornando-a muitas vezes irreal, então o mundo irreal em que vivemos é real... Uma verdade de vez em quando não tem mal, credo, já ficara baralhado... Uma mentirinha dava sal à vida e desde que todos, ou quase todos, dada a impossibilidade histórica de agradar a gregos e troianos, ficassem mais felizes...

Mente-se hoje, desmente-se amanhã, será uma verdade ou uma mentira?

A história do réveillon a meio do ano,... nem sequer era bem a meio do ano... surgira como tudo, repentinamente mas devagarinho. Começara logo pelo alerta dos cinco dias, de manhã, de mansinho, noutros lugares à noite, pela calada, como uso e costume.

Faltam cinco dias para a passagem de ano, foi a frase gatilho, aparentemente extemporânea. Rolou, rolou, entrou na euforia da partilha e, apesar de ter sido posta a circular muitos cinco dias antes do dia 31, as pessoas começaram a anunciar a passagem de ano para o final de julho, com convicção. É o mercado a funcionar, diziam uns. É a nova era, dizem outros, houve a idade antiga, a idade média, a moderna, a contemporânea... e entrámos, definitivamente, na da pós-verdade.

Qual é o mal? Jorge e todos os outros, pensava ele, sabem que aquilo que hoje é mentira amanhã é verdade, o que for verdade pode ser mentira, até porque há várias verdades, assim como mentiras diversas. Que monotonia, mente-se hoje, desmente-se amanhã. Neste caso, mantém-se. Haja festa! É o que interessa!

E desde essa data que se comemoram duas passagens de ano.

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