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Debaixo do sofá

O Expresso publicou diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à época natalícia. Este é o quinto - e último - dos Contos Portatéis de Natal

Cristina Sampaio

— Mas onde é que ele foi parar? onde foi parar?

— Oh pá, se calhar mudou de ano.

— Não, não pode ser. Ainda estamos no Natal.

Carlos estava apavorado, o Luís não era o primeiro amigo que desaparecia assim, sem mais nem menos, num ápice. E isso, essa coisa das pessoas se esfumarem, costumava acontecer apenas na passagem de ano, já se sabia, agora... fora dessa data...

— Não achas que ele pode ter ido dar uma volta? — pergunta-lhe Tiago, a quem o otimismo empresta tranquilidade, habitualmente.

— Nada disso. Então, não viste que ele estava agora mesmo aqui? — retorque Carlos, começando a revirar a sala.

A dada altura, Carlos resolve levantar o sofá, pede ajuda ao amigo. Tiago goza-o. Que disparate, então o Luís desaparecera para baixo do sofá? O dito era um grande objeto, de facto, mas daí até albergar alguém, já para não falar na intenção, por que raio havia o amigo de se meter debaixo do sítio onde todos se sentam?

— Porque há pessoas assim — sustenta Carlos.

— O Luís? Achas que o Luís...

E rebenta uma discussão entre os dois, amigos desde a escola, juntos para passarem o Natal, com as respetivas famílias, e com o Luís, claro, tudo em harmonia... até ali. Tinham convidado o Luís por ser solteiro, sem filhos, sem pai nem mãe, nem tios. Tanto um como o outro, lá no íntimo, sentia um temorzinho, um ciumezinho provocado pelo solteiro entre as suas mulheres. E elas pensavam o mesmo, embora no inverso, já tinham ambas comentado um tiquezinho... enfim, mas ele era amigo de infância de todos eles, caramba, não iam deixar que desaparecesse assim.

— Estamos a discutir por nada, antes de fazer o que quer que seja. Deixemo-nos disso, é Natal. É Natal — grita Carlos ao mesmo tempo que, para seu espanto, levanta o sofá com uma só mão.

E, de repente, veem uma pessoa sair dali debaixo, e outra, mais outra, umas dez, vinte... uma série de gente amiga, desconhecida, figuras públicas desaparecidas... Vem tudo de cara radiante, como se caminhasse pela primeira vez no mundo. E cada um com uma estatueta na mão, e não é só do menino, nem do burro, nem dos reis magos...

Carlos e Tiago estão pregados à parede, trocando olhares angustiados, pensando que não há comida nem bebida para tanta gente.

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