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Felicidade é coisa boa

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Cristina Sampaio

Vamos lá pôr alguma alegria nisto. Felicidade é coisa boa, diz Gigi a Gugu.

Gigi repete a frase, saboreia-a. Acabara de criar uma máxima para juntar às muitas outras que anda a fabricar a uma boa média, desde há um mês. Já tem uma coleção substanciosa para oferecer no Natal, mas talvez seja melhor ter mais umas duas ou três não apareça alguém de imprevisto.

— Felicidade é coisa boa. Grande frase, não achas?

Gigi está feliz. Já se imagina à ceia a citar-se a si próprio, de pé, de auxiliar na mão, que a memória não guarda tudo, em qualquer momento nos trai. Quando chegasse a hora de abrir os presentes, ele sacaria do lança-chamas, que transformara para lançar palavras em vez de fogo, faria um pequeno bombardeamento, deixando tudo e todos atordoados. Voltaria a ser o rei da festa. Gosta de ser o centro das atenções, bem, não é assim, diz ele, gosta de contribuir para o coletivo, mas ao fazê-lo quer ser ouvido. Quando era pequeno, chorava; na escola, pisava pés; na universidade, dava palmadas nas costas, assim como nos primeiros empregos; agora carregava nos mailes, porém, sentia que as suas palavras andavam a cair em saco roto.

Mas depois de amanhã, à ceia, a coisa piaria mais fino, quando começasse a desfiar o rosário das máximas. Não sabia se começar pela da Felicidade se acabar com ela. Logo se via. Logo se vê, não: ele gosta de programar as suas atividades e de as testar em cobaias irracionais, amigas e diplomatas; críticas sim, mas já não tem idade para escutar ofensas.

Talvez começasse pela primeira máxima que há um mês lhe ocorreu, como um fogacho. Na verdade, não lhe surgira assim de repente, apontara a frase há uns anos para a dizer numa ocasião especial. Mas não interessa, tem se de pôr balizas nas ações para ter sensação de golo. Ou seja, Gigi decidira começar a criar máximas há um mês, essa era a contabilidade que valia para as publicitar independentemente da data de origem.

Dizer num mês criei xis máximas, num mês criei máximas para um ano inteiro, é que dá sainete. Sainete, palavrinha jeitosa, exata, adequada à impressão pretendida.

Não! A da Felicidade é que é. É a mais adequada à situação, digamos, à época.

— Felicidade é coisa boa! andou Gigi a repetir até acabar com ela.

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