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O Gordo proibiu o Pai Natal

Até 23 de dezembro, o Expresso publica diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à época natalícia. Este é o terceiro dos Contos Portáteis de Natal

Cristina Sampaio

Isso acabou, essa coisa do Pai Natal. Homem gordo, vestido de vermelho, barba e cabelos compridos, boneco do refrigerante que se transformou em produto para combater a ferrugem.

Filipinho chorava baba e ranho de todo o tamanho — expressão recuperada ao contrário da figura das prendas, com aquela gargalhada alarve, felizmente proibida.

— Mas como é que pode ser? Então, agora a quem se pede os presentes?

— Ora, ora, menino Filipinho. Não me faça rir que o Estado não deixa — responde-lhe a governanta Amélia, senhora que nunca foi levada a acreditar no Pai Natal, mesmo quando menina, quando tivera essa oportunidade.

Amélia fora criança antes da chegada ao poder daquele senhor gordo, com ar de bonacheirão que se disse Pai Natal moderno, vestido de Dom Drovioli, independente, intransigente, omnipresente, dizendo que o Natal era quando um homem quisesse, e outras expressões e ditos populares que parecem ter apenas uma interpretação, contudo possuem diversas.

— Mas Melinha, eu ainda me lembro de ser uso e costume... — diz Filipinho, de lágrima no olho.

— Ó menino, deixe-se disso, encare a realidade, a vida é assim, sempre foi assim, integre-se. Já não tem idade para isto. Que exemplo é que quer dar aos seus filhos? O de trintão choramingas ou quê?

Amélia só tem o dobro da idade de Filipe, que todos insistem em chamar Filipinho, apenas lhe falta paciência. Tinha achado muito bem acabar com a figuraça. Ela viveu nessa época de crenças, não lhe serviu de nada, nunca teve uma prenda. Convenceu-se de que era má menina, muito embora os pais lhe dissessem que às vezes acontecia isso nas casas dos pobres. Não, o Gordo fizera muito bem. Se a época é principalmente comercial, que se acabe com a magia - que é coisa que faz pensar e não podemos perder tempo com isso quando é tempo de obedecer. E detetar contradições não é o seu ofício.

Sim, era necessário acabar-se com as manobras de diversão, se alguém precisa de alguma coisa tem de pedir ao Gordo e ele logo vê. Mas mesmo isso, Amélia desdenhava, o homem já tinha tanto que o preocupasse quanto mais aturar gerações que não crescem.

— Vou jogar um jogo para espairecer — disse Filipinho, virando costas.

E Amélia foi ligar o robô da cozinha.

Ela apoiava o Gordo, dava-lhe graças por não ter filhos.

  • O pintor caiu...

    Até 23 de dezembro, o Expresso publica diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à época natalícia. Este é o segundo dos Contos Portáteis de Natal