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O pintor caiu...

Até 23 de dezembro, o Expresso publica diariamente uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à época natalícia. Este é o segundo dos Contos Portáteis de Natal

Cristina Sampaio


Levantou o estore e o pintor caiu.

— Não fiz de propósito! Não fiz de propósito!

Foi a primeira coisa que a mulher gritou. O homem estatelou-se no chão ainda a velha não terminara o grito.

— Caiu do andaime! Caiu do andaime!

Alguém na rua gritou duas vezes. O velho marido da velha, de chapéu à marinheiro, mantinha-se na retaguarda, pronto a assumir a culpabilidade da parceira, pronto a fugir porta fora. Também gritaria duas vezes Caiu do andaime, Caiu do andaime, e outras duas Ela não fez de propósito, Não fez de propósito, porém correria a abrigar-se na esquina mais próxima, segurando no chapéu com a mão, ouvindo a confusão de longe, gozando um estranho prazer. Afinal, quem deitara a mão ao estore?

Talvez fosse boa altura para não regressar: sentia-se cansado, sem paciência para aturar velhas, netas e netos. Qualquer momento é bom para mudar, a maioria não gosta de mudanças, mas José já fora sujeito a tanta peripécia pela vida fora e nunca mexera uma palha, portanto, estava na altura. O Natal é uma época como qualquer outra. Hum...

Quando chegou a polícia, ele viu-os saltarem da carrinha, perguntarem se alguém já chamara uma ambulância e a mulher esbracejava preces, da varanda, maldizia a sorte do rapaz, simpático pintor, compositor exímio no que tocava às cores.

Mariazinha conhecia-o desde aquele Natal em que decidira pintar o interior da casa de vermelho. Todas as paredes, sem exceção. E o Manuel apareceu, indicado por uma vizinha, cuja prima tinha uma amiga que conhecia um sujeito cujo genro se dedicava à pintura. Era um rapaz franzino, metido consigo, mas muito simpático, ternurento. Apareceu duas semanas antes e deitou mãos à obra, conseguindo alindar-lhe as assoalhadas com vários tons de vermelho, quando ela só imaginara um. Mariazinha delirou, José nem tanto.

Mas é Natal, ninguém pode levar a mal. A ideia pertence a uma festa pagã, contudo adapta-se bem ao espírito católico. José é um homem prático, acredita no que tem de acreditar e teria aceitado as cores se não se desse o caso de se ter começado a enervar todos os dias. Mal dormia. Era da quentura das paredes, tinha a certeza.

Um ano inteiro de discussão passou-se. E logo agora que iam mudar a cor para a do champanhe, o pintor caiu...