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Ficção

A menina que queria acreditar no Pai Natal

Até 23 de dezembro, o Expresso publica uma curta história de ficção pouco tradicional alusiva à época natalícia. Este é o primeiro dos Contos Portáteis de Natal

Cristina Sampaio

A menina virou-se para o pai e perguntou-lhe:

— O que é que me vais dar no Natal?

— Eu? nada. Quem dá é o Pai Natal. Ele é que põe as prendas no sapatinho.

— Ora, deixa-te disso, papá. Eu sei que és tu e a mamã que compram os presentes...

— O melhor é acabares o email para o Pai Natal... Olha que se pensas assim, bem podes esperar sentada.

— Não vou enviar nada!

— Tu é que sabes, mas se eu fosse a ti...

Geninha resolveu que ia esperar. Não ia nada enviar o ridículo pedido de presentes que há cinco anos a induziam a fazer, com o pretexto de realizar desejos na época natalícia, sempre com aquela ameaça velada de que, se se portasse mal, receberia népia. Aliás, isso nem sequer era verdade, ela fizera uma maldade, num ano ou noutro, e nunca deixara de ter o sapatinho recheado. Batatas! Não estaria na altura de assumirem que a figura era uma invenção? O Pai Natal existia, existia.... está bem, está. Em carne e osso eram aqueles homens que andavam pela rua, pelos centros comerciais, de grandes barrigas, fatos e barrete vermelhos, e barbas de algodão... a brincar aos pais natal. O Marinho já lhe tinha dito, ponto final. E o Marinho era o seu grande amigo, primo mais velho dois anos, protetor na escola, enfim, um sabedor dos segredos que os adultos espalham com alegria primaveril.

No dia 24 de dezembro, avisou os pais que ia fazer uma espera ao homem do trenó que desceria, sem qualquer dificuldade, pela estreita chaminé. Pai e mãe disseram que lhe fariam companhia.

À meia-noite, apagaram as luzes, ficaram à cata, os três, quietinhos, espreitando pela greta da porta da cozinha. E presenciaram a chegada. Era verdade, a personagem da roupa vermelha e barba branca, comprida, existia mesmo. Nem os pais queriam acreditar... Geninha ficou gaga.

No dia seguinte, não descansou enquanto não falou com o primo. Era um segredo demasiado grande para conter dentro de si.

— Ó Marinho, eu vi-o — diz Geninha.

— Viste? Viste mesmo? — pergunta o primo.

— Sim, vi-o. E os meus pais também.

— Os teus pais?

— Trazia aquela roupinha que lhe inventaram, mas não era um homem...

— Não?

— Não!

— Mas era o quê, então? — pergunta-lhe Marinho, já com algum enfado.

— Era uma mulher!!! Uma mulher!!! Imagina tu... andaram a endrominar-nos estes anos todos.