15 de abril de 2014 às 21:37
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Fica bem

Num recanto de Benfica pratica-se boa cozinha portuguesa, das lulas de coentrada ao arroz de vitela barrosã.
José Quitério
Blogues - Fica bem Tiago Miranda

O objectivo está em Benfica, porém se se disser apenas que é na Travessa do Rio talvez não se saiba bem onde fica, até porque não se supõe qualquer rio para aquelas bandas. Acrescente-se então que, vindo pela Estrada de Benfica ou pela Avenida do Uruguai, se toma a Avenida Gomes Pereira (no primeiro caso virando à esquerda, no segundo seguindo em frente) e nesta volta-se na primeira à direita, que responde por Rua Nina Marques Pereira.

Os automobilizados deverão deixar os popós por aqui, pois ao fundo desta, do lado direito, é que bem fica a quase escondida Travessa do Rio, curta, com trajecto só pedestre até à Estrada de Benfica, debaixo dum prédio em cuja esquina finalmente se vê a tabuleta toponímica. Ora Travessa do Rio porquê? Segundo alguns, lembrança de um curso de água que outrora passava no local e que se manifestou pela última vez aquando das catastróficas cheias de 1967.

Alvo atingido no nº6. Ao lado dos degradados edifícios amarelos do antigo Laboratório de Medicina Veterinária, cá temos o restaurante A Travessa.

Inaugurado em 25 de Abril de 1992, os três sócios fundadores, profissionais de hotelaria, continuam a ser os mesmos e a desempenhar as respectivas funções: o cozinheiro Toni (nome de guerra de António Silva), Arménio Pinto no balcão e Vítor Pinto na sala. Esta como que dividida por dois arcos, chão ladrilhado, paredes com azulejos até dois terços e o resto branco guarnecido de gravuras, loiças, recortes e candeeirinhos, dois balcões laterais, mesas em que apenas o papel da toalha de cima destoa, num ambiente por assim dizer familiar.

A lista das comidas, de orientação esmagadoramente portuguesa, tem o sector variável e o fixo. Exemplo de Pratos do Dia: "arroz de tamboril com gambas" (€12,50), "safio à marinheira" (€10) e "espadarte à espanhola" (€10,50); "presa de pata negra com salada russa" (€11), "arroz de vitela barrosã com cogumelos frescos" (€11), "naco de vitela barrosã no forno" (€11), "plumas de porco preto no churrasco" (€11) e "língua de vitela guarnecida (€9).

Em outro dia, apareceram "bacalhau à Dr. Guimarães" (€13), "filetes de peixe-galo com açorda de ovas" (€16,50) e repetiu o discutível safio; surgiram "dobrada com feijão branco" (€9,50), "carne de porco preto com gambas" (€11), "bochechas de porco preto à Beira" (€11) e reapareceram arroz de vitela e naco de vitela. A única promessa de pratos em dia específico é a de cabrito assado e/ou pá de cordeiro assada, aos domingos. Quanto à parte fixa da lista, contam-se 13 Entradas, 2 Sopas, 6 Mariscos, 5 Peixes e 6 Carnes (bifalhada e parentela).

Nótulas de prova. Supranumerários, interessantes "rissóis" e "croquetes". Correctos em molho capaz os "carapaus de escabeche" (€3,50). Enchido atilado e ovos mexidos mimosos na "alheira com ovo". O "bacalhau à Dr. Guimarães" - homenagem a Manuel Guimarães (1938-1997), saudoso homem da cultura e do turismo, tomarense de adopção, historiador e crítico de gastronomia -, de ingredientes primeiro cozidos e depois submetidos ao forno, o gadídeo lascado sobre batata fininha e cebola e sob espinafres e broa migada, esteve muito apetitoso e ajustado de azeite.

Do melhor que podem dar as "lulas de coentrada com gambas" (€12). Caldoso e saborido o "arroz de vitela barrosã com cogumelos frescos". Consoladora a já tão rara "língua de vitela guarnecida", embora às batatas chips, aliás impecáveis, tivesse preferido o puré de batata. Bem acompanhadas e de execução competente as "bochechas de porco preto à Beira". Genuinidade e bom nível sápido no "naco de vitela barrosã no forno", acolitado por ameno esparregado em apresentação original.

Há 14 doces, com largo contributo tradicional e conventual. Carta de vinhos robusta, por regiões, sem datas, a preços não especulativos: 96 tintos, 30 brancos, 7 verdes brancos (4 Alvarinhos) e 4 espumantes. Serviço eficiente e amável. Como a oferta permite sempre fugir às trivialidades e aos modismos e a cozinha é digna e consistente, conclua-se que A Travessa fica bem neste recanto de Benfica.


A Travessa
Travessa do Rio, 6 e 6-A
Lisboa
Tel. 217 160 543 (fecha às segundas)
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