A 11ª edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines
fez um downsizing em tudo menos nos atributos da programação. Desta vez há menos dias de festa (quatro, de quarta-feira 28 a sábado 31), menos nomes no cartaz e atuações concentradas no Castelo de Sines e na Avenida Vasco da Gama.
As propostas de quarta 28 são um luxo. Em primeiro lugar por causa da estreia europeia do pouco classificável coletivo de Brooklyn Las Rubias del Norte, no qual as harmonias descarnadas de Emily Hurst e Allyssa Lamb se envolvem com instrumentos acústicos. As canções que daqui saem são cintilantes, misteriosas mas solares, aliando sonoridades latinas (boleros, cumbias, cha-cha-chas...) a uma ligeira patine exótica. O seu terceiro álbum, "Ziguala", saiu há poucos meses. Nesse dia ouvir-se-ão também as pontes entre a América do Sul e África através dos peruanos Novalima; a pop flutuante e dada a experiências da brasileira Céu; o autoexplicativo projeto Nat King Cole en Espagnol, do saxofonista David Murray, com um noneto de músicos cubanos, a Sinfonieta de Sines e o cantor argentino Daniel Melingo; o afrobeat dos luso-moçambicanos Cacique'97; e a estreia do espetáculo que junta Vitorino, Janita Salomé e o Grupo de Cantadores de Redondo, feito de modas alentejanas com versos escritos por António Lobo Antunes.
Grupo Fantasma na quinta-feira
A sessão de quinta 29 é encabeçada pelo Grupo Fantasma, miniorquestra torrada no Texas que faz dançar com uma mistura de salsa, soul-funk e dinâmicas africanas; o seu disco de 2010, "El Existencial", é bastante aconselhável. Antes há country-punk com os veteranos The Mekons (que no dia 31, às 23h, sobem ao palco do Maxime, em Lisboa); a confluência do Jacky Molard Quartet, da Bretanha, com o Founé Diarra Trio, do Mali, no coletivo N'Diale; a imponente voz da israelita Yasmin Levy, cujo som faz uma ponte convincente com música de Espanha, o flamenco à cabeça; os cânticos xamânicos dos finlandeses Wimme; e o tango romântico e sanguinolento dos argentinos 34 Puñaladas.
O destaque de sexta 30 no FMM Sines vai, de caras, para os Tinariwen, cuja grandiosa espécie de rock em estado de transe faz deles uma das bandas de topo da world music. E estão bem acompanhados no cartaz desta noite: depois deles ouvir-se-á a insólita proposta dos Forro in the Dark, quarteto brasileiro com Nova Iorque no sangue; antes disso vai dar para ouvir a pop ambiciosa da chinesa Sa Dingding, o pós-rock melancólico e erudito dos americanos Barbez, as cantigas para westerns românticos dos franceses The Rodeo, e as melodias tristes do guineense Kimi Djabaté. Esta noite encerra com a já clássica sessão de DJing do Bailarico Sofisticado.
Festival de Paredes de Coura
O FMM Sines decorre nos mesmos dias do Festival de Paredes de Coura
, mas a distância geográfica e estética deve anular qualquer concorrência. Coura 2010 continua a concentrar-se nas sonoridades mais ou menos, estudadamente amadoras e com base de apoio em blogues e sites como o Pitchfork, e ainda fascinadas pelas cores e sons dos anos 1980 - os grupos programados para quarta 28 são todos assim, e se a memória dessa década soar turva, sempre vai dar para ver o 'artigo original' The Cult (quinta 29), cujo mergulho de coração aberto no rock faz de êxitos como 'She Sells Sanctuary' ou 'Love Removal Machine' obras especialmente resistentes ao passar dos anos.
Nesta quinta também brilha a pop digital disposta em camadas de Caribou. Sexta-feira à tarde tem o jazz-rock furioso dos portuenses Zelig a espatifar o palco Jazz na Relva. Pela noite põe-se à vista a metamorfose de Plan B (do grime-folk para a soul), antes de Peter Hook recriar "Unknown Pleasures" dos Joy Division. O rock depressivo e oitentista dos White Lies e o indie vagamente psicadélico dos Klaxons estão no topo do cartaz.
CoolJazzFest em Cascais
Nesta semana de engarrafamento de festivais, o CoolJazzFest
em Cascais assume um papel quase familiar - literalmente. Amanhã (domingo, 25), Diana Krall canta e toca piano no Hipódromo Manuel Possolo (mas hoje, sábado 24, às 22h, já pode ser vista em Loulé), e na quarta-feira é a vez do marido, Elvis Costello, entrar pelo Parque Marechal Carmona (onde todos os restantes concertos decorrem) com um alinhamento que pesca em vários momentos da sua extensa carreira. Antes de Diana e Elvis, o CoolJazzFest acolhe hoje, sábado, a britânica Corinne Bailey Rae, intérprete e compositora de uma inspirada pop caleidoscópica, animada por bastante soul e R&B. Há sessão lounge na terça 27 com a Club des Belugas Orchestra, encerrando o festival na quinta 29, com o vozeirão clássico, soul e R&B, de Solomon Burke, que traz como convidada Joss Stone, outra intérprete de meter respeito. Pode ser que Burke lhe dê umas necessárias dicas sobre como gerir a carreira...
Texto publicado na edição impresa do caderno Atual de 24 de Julho