Avelino Ferreira Torres repetia a mesma frase desde a primeira sessão do julgamento: "Vocês vão ver que isto não dá em nada". Depois de ouvir a decisão do Tribunal, o ex-presidente da Câmara do Marco de Canavezes não conseguiu esconder um sorriso.
A juíza Teresa Silva, na leitura do acórdão, tentou explicar à população que acorreu em massa ao Tribunal, que a decisão era apenas sustentada nas provas apresentadas no julgamento. Declarações fora da sala de audiência não serviam de prova. Para a decisão final de ilibar Avelino, terá também contado muito a falta de sustentabilidade e de credibilidade das versões apresentadas por José Faria, a principal testemunha de acusação.
Fora da sala de audiência, Avelino aproveitou para, mais uma vez, atribuir aos jornalistas culpas sobre a visibilidade e relevância de todo este processo judicial. Recorde-se que Avelino já anunciou a sua recandidatura à Câmara do Marco, como independente, depois de ter perdido as eleições para a Câmara de Amarante, nas últimas autárquicas. Os seus adversários temem que esta decisão do tribunal seja uma importante arma de campanha para tentar reconquistar o lugar de presidente da Câmara de Amarante.
Avelino estava acusado de quatro crimes: corrupção, peculato de uso, abuso de poder e extorsão. O procurador já tinha retirado outros dois de abuso de poder, mas insistiu sempre na culpabilidade do ex-autarca. Em resposta, Avelino insultou o procurador Remízio Melhorado, dentro e fora da sala de audiências, ao longo do julgamento. Na última sessão, Avelino pediu desculpa à juíza Teresa Silva, por algum comportamento menos próprio. Mas logo a seguir disse: "Mas não peço desculpas ao procurador".
Hoje, a juíza ilibou Avelino de todos os crimes e considerou que as versões de José Faria não foram consistentes. Recorde-se que José Faria esteve ausente no Brasil, quando foi despoletada a polémica à volta deste caso judicial. Depois regressou disposto a contar tudo o que sabia. O Ministério Público tornou-o a principal testemunha de acusação, já que Faria conhecia todas as práticas do então presidente da Câmara do Marco, por ser o seu assessor mais próximo.
Em julgamento, José Faria apresentou muitas denúncias. Disse que, pelo menos desde 1997, Avelino Ferreira Torres comprou terrenos situados em áreas florestais e agrícolas, que, por via de alteração do PDM, passariam a integrar as zonas urbana e industrial, aumentando exponencialmente o seu valor. Segundo esta versão, o autarca beneficiava de informação privilegiada relativa à alteração na qualificação dos solos e terá usado o funcionário para esconder a verdadeira identidade do comprador.
O MP acusava ainda Avelino de ter exigido 12 mil contos (60 mil euros) a um munícipe para construir uma estrada de acesso à propriedade do então presidente da Câmara. O dinheiro destinava-se à autarquia e ao Futebol Clube do Marco. A empreitada teria sido realizada por iniciativa pessoal e exclusiva de Avelino, com a utilização de máquinas e trabalhadores do município.
O despacho de pronúncia dizia ainda que o autarca utilizara funcionários e máquinas da autarquia para construir uma estrada que facilitava os acessos à A4, valorizando muito os terrenos da "Quinta da Segóvia", propriedade de Ferreira Torres, onde estava em curso a construção de um hotel.
O colectivo de juízes não deu por provadas nenhuma destas acusações.