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Carolina

José Alberto Quaresma
9:32 Terça feira, 18 de fevereiro de 2014

 

 Carolina morreu aos vinte e dois anos. Era bela. Tinha uma vida cheia. Nasceu e estudou em Portimão. Estava a terminar o curso de veterinária na Universidade de Évora.

O tempo escasseava-lhe para ser excelente aluna, fazer dança contemporânea, envolver-se em projectos culturais. As suas cinzas foram lançadas ao mar da sua Praia da Rocha, como desejara.

No dia 14 de Fevereiro assim aconteceu ante as lágrimas sentidas de amigos e familiares. Neste dia Tiago Bettencourt sentava-se ao piano e escrevia-lhe a sua mais comovente homenagem.

Há jovens extraordinários que nos alimentam as esperanças que adultos impiedosos e desmemoriados lhes querem roubar.

Carolina não merecia vida tão breve: http://www.youtube.com/watch?v=gMPYyS0aVlc

Congratulations, dear teacher!

José Alberto Quaresma
18:03 Quarta feira, 18 de setembro de 2013

O ministro da Educação e Ciência só parece um autocrato porque se desloca, bem escoltado, em viatura oficial. Vai formoso e seguro.

 

Em tempos idos, ia de chaço privado às televisões, desancava no eduquês, pugnava pela excelência da escola, criticava o ministério, defendia professores, escolas, universidades, investigação, ciência.

 

Quem então o ouvisse falar, não o levava preso. Agora o seu prime minister, um brilhante académico, enjaulou-o na 5 de Outubro. Autocrato digeriu, sem azia e sem kompensan, o que kompensava sobre Educação antes de ser minister. Mantém a voz maviosa. Um homem tem de estar afinado com his master´s voice.

 

Purgou. Limpinho, agora vai fazendo o saneamento primário, básico, complementar e superior. Aumenta o número de alunos por turma, põe no desemprego dezenas de milhar de professores, descarna as universidades, emagrece as escolas públicas, engorda as privadas à custa... do dinheiro público. Apenas benfeitorias. So charming!

 

Agora, uma semana depois de ter tornado obrigatório o exame nacional de Inglês, no 9º ano, acaba com o ensino desta língua no 1º ciclo, obrigatório desde 2005. Como sabemos, para aprender línguas, quanto mais tarde melhor.

 

Cortou para metade os apoios às actividades de enriquecimento curricular. Mas, como generosos e afável neoliberal, o minister dá neoliberdade às escolas para... não terem Inglês.

 

As escolas privadas não deixarão de facultar aos seus alunos esta disciplina essencial na vida actual. As outras que se amanhem. A disparidade de situações vai ser so disturbing, mano, que já tive de encaminhar o meu neto, que está no 4º ano, para frequentar inglês de praia. The weather is pleasant e uma bifa simpática pode ensinar-lhe, na língua de Shakespeare, coisinhas que ele ignora.

 

Lovely minister que tanto estimula a paridade no acesso ao ensino e o turismo infanto-juvenil! Congratulations, dear teacher, perdão, dear minister!

Desilusão de uma professora

José Alberto Quaresma
10:09 Quarta feira, 1 de maio de 2013

Os agrupamentos de escolas estão a provocar uma enorme frustração naqueles que lá estudam e trabalham. A desilusão desta professora da Covilhã é reveladora de um estado de alma muito generalizado e do estado do sítio esconso para onde a Educação está a caminhar... as palavras são desta docente inconformada.

Desilusão" de uma Professora...

Desilusão essa, igual à de tantos outros Professores, Funcionários, Encarregados de Educação, Alunos das Escolas do Tortosendo, ao tomarem conhecimento da agregação do Agrupamento de Escolas do Tortosendo num Mega Agrupamento, decisão essa comunicada no passado dia 1 de abril de 2013 ao Órgão de Gestão.

Desilusão essa, igual à de tantos os que até acreditavam que este Governo ia ser bem diferente, pelo menos no que diz respeito às políticas educativas, do anterior. Tentando digerir esta informação fiz um pequeno exercício de memória que remonta ao tempo em que Isabel Alçada [ex-ministra da Educação do Governo socialista de José Sócrates] implementou os primeiros agrupamentos escolares. Nessa altura o PSD apresentou um projeto de resolução, em que dizia ao Governo de então, que não havia estudos nem evidências que comprovassem a eficácia dos Mega agrupamentos. Fiquei desde essa altura "iludida" de que este ministro não iria para a frente com este projeto, ao qual ele próprio foi sempre bastante crítico! Tenho que me render às evidências...Não há seriedade nenhuma da parte deste Governo, porque faz exatamente o mesmo que antes criticava!

Estes Mega agrupamentos são "instrumentos" fundamentais para despedir funcionários e trazem com eles graves consequências ao nível pedagógico e humano, mas a isto o Governo apelida de "racionalização da gestão dos recursos humanos".Com a constituição destes MEGAS, os professores, de uma escola passam a dar aulas também em outros estabelecimentos do agrupamento, obrigando-os frequentemente a percorrer várias dezenas de quilómetros por dia neste périplo que pode ir, no caso concreto deste Mega, no mínimo do Paul à Covilhã!

Desiludida, sem dúvida, mas pró-ativa... senti que no mínimo tínhamos que manifestar o nosso descontentamento e neste processo são muitos os têm razões para estar desiludidos e revoltados. O ME foi, contra tudo e contra todos, para a frente com um dos três Mega Agrupamentos inicialmente propostos e isto apesar do parecer negativo de todos os Órgãos Pedagógicos das Escolas, Conselho Municipal de Educação e Responsáveis Autárquicos.

Depois de reunidos em Assembleia Geral e vendo que nos meus colegas o sentimento da Desilusão era também geral e que tal como eu tinham o desejo de manifestar publicamente este descontentamento: "CONTRA O "MEGA" AGRUPAMENTO FREI HEITOR PINTO"! Apesar de ser mais fácil "baixar os braços" e desistir vamos, no dia 4 de maio, entre as 15 e as 17 horas, na Praça do Município da Covilhã, dizer NÃO a tanta prepotência! E porque " Não existe um só Profissional que não tenha tido um Professor!" ...Contamos com a Solidariedade de todos! 

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Ganguiões alcoólicos do governo

José Alberto Quaresma
17:33 Sexta feira, 22 de fevereiro de 2013

Os jovens com 16 anos podem continuar a comprar cerveja e vinho. Não podem emborcar bebidas espirituosas ou equiparadas, as chamadas bebidas brancas que espevitam as noites brancas.

O governo anunciara a proibição da venda de todas as bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. Já no princípio deste mês, o secretário de estado da Saúde, o garantia sem distinguir diferenças entre líquidos.

Só que algum pirolito espirituoso de António Pires de Lima, em convívio promovido pela Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja (APPC) de que é presidente, pôs o governo aos lóres, recuando na intenção.

A APPC foi a única entidade que apreciou a bebida, perdão, a medida. Considerou-a "adequada". O secretário-geral da APPC, Francisco Gírio - e acreditem que o homem com umas bejecas a bordo ficava mesmo Gírio - achou que o consumo entre os jovens de tenra idade deve "iniciar-se com bebidas de menor grau alcoólico". Se iniciar-se com bebidas não alcoólicas pode constituir um verdadeiro problema de saúde pública. Digo eu.

Pires de Lima, também presidente do Conselho Nacional do CDS-PP, considerara a proposta "completamente disparatada", opondo-se frontalmente ao "proibicionismo" fundamentalista do PSD. Nas intermináveis reuniões do CDS-PP os conselheiros são hidratados a águas Vitalis ou Pedras Salgadas. A cerveja Superbock nunca é ingerida nestes importantes conclaves. Pode provocar incomodativa eructação e fazer tremer a coligação.

Ninguém duvida de que houve muita pressão do CDS-PP para que a lei fosse publicada de acordo com a sua sede. Uma compreensível e legítima pressão. Então a Superbock não é uma bebida de pressão?

Quem não apreciou a medida, perdão, a bebida, foi o professor Fernando Ramalho, da Faculdade de Medicina de Lisboa, e especialista em doenças do fígado. Considerou este diploma o "mais ridículo" que já viu.

Lamentou que os interesses das "empresas que vendem álcool se sobreponham ao interesse da saúde dos portugueses". E não tem dúvidas de que o álcool é todo igual, "seja vinho, cerveja ou outra coisa".

Não concordo. Sem ter consultado Gaspar, o grande especialista em números deste governo e que não falha uma só previsão, tenho a certeza de que dez ou quinze imperiais têm muito menos álcool do que um só "shot".

E é por temer algum "shot" transviado, destilado em Grândola vila morena, que o ministro janta como quem lancha no hotel, para chegar mais cedo a uma conferência e abandonar o estabelecimento pela garagem. Inadvertidamente.

Nas garagens há níveis elevados de gases, nomeadamente monóxido de carbono. Pires de Lima, mais saudável, cuida-se com elevados níveis de dióxido de carbono, com caricas da nova geração dos milhões de taras perdidas que vende. Mas não se pense que o gestor conserva alguma tara perdida. Sabe mais que a Justiça. E muito mais que a Saúde.

O professor Ramalho não tem razões para se inquietar. O governo com esta inflexão etílica anda a tratar bem da saúde dos portugueses. E a estimular o desenvolvimento científico.

Muitas cirroses entre a população mais jovem podem contribuir para aprofundar a investigação da doença hepática, permitindo aperfeiçoar a técnica dos transplantes.

E um jovem servindo como cobaia num projecto médico sempre é mais interessante do que ser convidado a andar pela estranja ao Deus-dará. Aqui pelo menos sempre pode ficar em casa ou num hospital universitário, anestesiado e a apanhar cócegas de um bisturi.

Quarenta por cento de jovens desempregados. É gente que tem disponibilidade para abusar da bebida. Mas ainda bem que lhe falta o subsídio ou o pilim para o vício. O governo sabe muito. A lúpulo e a malte. E a malte que se amanhe...

 

Mulas da cooperativa

José Alberto Quaresma
11:30 Sexta feira, 25 de janeiro de 2013

Mulas é um dos coautores do estudo do FMI que prescreveu a receita para a reforma do Estado português e o corte de 4.000 milhões de euros na despesa pública.

Como sabemos estas medidas constituem brutais coices no já estonteado povo. E o governo prepara-se para ferrar bem os cascos da máquina de tortura fiscal para que sejam impiedosamente aplicadas.

Relvas, Gaspar e Passos, com o regresso aos mercados da Ribeira e do Bolhão, exultam. E, em parte, a Mulas devem a generosidade e a inspiração para a política financeira da paróquia de S. Bento. Nada vai mudar na austeridade. Mas o povo já parece embalado, pela carroça do poder aos solavancos, para os amanhãs que cantam.

Acusado de fraude, Carlos Mulas Granados, foi demitido do FMI por ter recebido, e muito, por trabalhos que não fez. Se os tivesse feito recebia na mesma. Ao menos não andou a toque de chicote.

Pensava-se que tinha plagiado, um processo criativo que Clara Pinto Correia utilizou há tempos para assinar umas crónicas, em tradução directa do original americano.

Sabendo a atracção de mulas por relvas, é natural que o Carlos espanhol se tivesse inspirado no Miguel português. Este nem precisou de plagiar para tirar o curso. Foi muito lesto em falta de estudo e de trabalhos académicos. Mas, como não podia deixar de ser, é um dos grandes apoiantes da receita para doentes terminais que o FMI prescreve.

À velocidade desta luz mediática que nos ofusca, ficámos já a saber que afinal o autor dos estudos não é Mulas mas a ex-mulher deste, Irene Zoe Alamedas. Alamedas apontava os caminhos tortuosos do Mulas e assinava por Amy Martin. Este pseudónimo aparece dada a grande admiração literária por Martin Amis, moço da minha idade, novelista inglês e filho do escritor Kingsley Amis.

Ex-mulheres como esta já não há. Iliba o ex-marido e assume a autoria da trafulhice. Alamedas deve ter ouvido cobras e lagartos de Mulas, Ou, no mínimo, um daqueles mimos com que um marido despeitado obsequia a esposa num arrufo doméstico: "Sua Mula!". Separados no matrimónio. E unidos, no fundo, monetário, que é o que conta. Até que a morte os separe. Ou Cristine Lagarde os ampare. Mas tudo se perdoa. Se fosse a minha ex, acusava-me de violência no estábulo.  Eu ainda andaria à nora nas cavalariças dos tribunais de família vinte anos depois.

Também perdoo tudo. Não tenho outro remédio. Mas faz-me confusão que seja gente desta, abaixo de qualquer suspeita, a governar a minha casa, através dos mordomos de serviço eleitos para um quadriénio de terror com a mentira da não subida de impostos.

No entretanto, é melhor mandar mulas às relvas antes que a chuva passe e o pasto seque.

E não ter saudades dos tempos de bafio autoritário, quando Maximiano de Sousa (Max) criou a sua mula da cooperativa que devia ter dado dois coices no telhado do palácio do presidente do conselho. Ó és tão linda!

O Zé da Adega, se fosse vivo, também não saberia cantar este triste fado...

Gás pimenta laranja

José Alberto Quaresma
18:44 Sexta feira, 18 de janeiro de 2013

A PSP face aos protestos pacíficos de estudantes contra a integração da escola Alberto Sampaio, em Braga, num "mega-agrupamento" com a escola de Nogueiró, resolveu utilizar um condimento de boa memória, o gás pimenta.

Os estudantes, como é costume, são uns bandidos, uns facínoras, uns fora-da-lei. Têm idades próprias, entre os 12 e os 15 anos, para se transformarem em delinquentes de elevada perigosidade.

Receberam o tratamento pedagógico adequado. Uma carga de porrada, perdão, uma carga policial gourmet à base de gás pimenta laranja.

Uns ficaram com os olhos inchados (coisa que também acontece quando passam muitas horas a jogar no computador), outros com a boca a arder (normal quando comem hamburguers com piri-piri em vez de pimenta preta), entre agressões e violência paga, sim porque a polícia não trabalha de borla.

Seis dos imberbes alunos receberam assistência médica, dois dos quais no hospital, o que significa que o Serviço Nacional de Saúde ainda não foi destruído, está bem, e recomenda-se.

Dois dos estudantes já tiveram alta. Portanto as notas não deviam ser baixas. Têm de ser acompanhados em casa, provavelmente porque viviam sozinhos. Ou então vão receber aulas de reforço, policial, entenda-se.

O ministro, que está cada vez mais autocrato, deve ter ordenado e elogiado a dinâmica do mega-agrupamento policial. É uma inovação pedagógica para escolas do ensino básico e que muito enobrece a sua acção educativa.

O comando nacional da PSP, que não sabemos se agora é tutelado pelo Ministério da Educação e Ciência, admitiu a utilização do gás pimenta laranja para evitar uma operação "mais musculada". Obviamente desnecessária porque a musculatura dos agentes não está flácida.

A polícia refina-se. Tem experiência e um passado impoluto e musculado sob o Estado Novo. Agora, no Estado novo a que isto chegou, outros corpos policiais se fossem reactivados talvez a violência fosse menos espampanante, mais discreta e silenciosa. A Legião Portuguesa, por exemplo, sabia dispersar com muita competência ajuntamentos inconvenientes da oposição com garrafinhas de mau-cheiro! 

E que tal obrigar estes putos reguilas a andarem fardados e a esticar o braço ao presidente do conselho. Já faltou mais. Mas parece haver muitas saudades desse tempo nesta governança autoritária e violenta...

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A deputada vaporosa e Alexandre Herculano

José Alberto Quaresma
11:22 Sexta feira, 11 de janeiro de 2013

Uma deputada foi instada pela polícia a parar o carro que conduzia na rua Alexandre Herculano, em Lisboa. Trazia 2,41 gramas de álcool por litro nas veias.

A polícia de trânsito, sempre com nula sensibilidade política, não entendeu como se movia a legítima representante do povo. Obviamente que não era a álcool. O habitáculo da viatura parecia odorar substância etílica. Mas o depósito fedia a gasolina.

Glória Araújo acabara de celebrar em glória os seus 37 anos de idade. Quiçá num arroubo romântico, e julgando ser da família do tio Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (tem o mesmo apelido), foi aconselhar-se com o velho liberal para dar notoriedade à sua acção parlamentar até agora muito discreta.

Alexandre Herculano, o poeta, romancista, historiador e também deputado, nascido em 1810, teria muito para ensinar a esta eleita saída do anonimato por líquidas razões extra-parlamentares. Herculano esteve exilado em Inglaterra por ter conspirado contra o regime miguelista, participou no desembarque no Mindelo e no cerco do Porto, foi deputado pelo partido cartista, foi um dos fundadores do partido progressista histórico.

E, o mais importante, Herculano foi um dos redactores do primeiro Código Civil português e pioneiro na defesa do casamento civil.

Glória tentou melhorar as suas competências nesta área do Direito em que o divórcio está sempre à espreita. E lá foi aos ziguezagues em busca dos sábios conselhos de Alexandre Herculano. A polícia, obcecada apenas com o Direito Penal e o Código da Estrada, não entendeu a sede (de conhecimento) de uma legisladora desidratada. Obrigou-a a soprar num bocal descartável, tentando que a deputada expelisse alguma norma inconstitucional, quando devia apenas dar-lhe água das pedras ou duas pastilhas de Guronsan.

Alexandre Herculano exerce um enorme fascínio sobre mulheres ligadas às leis. Parece atrair o bafo de condutoras com um grãozinho na asa legislativo. Há perto de dois anos uma distinta magistrada do Ministério Público foi apanhada com 3,08 gramas por litro no seu hálito doce de anis escarchado, precisamente na rua de Cascais com o nome do mesmo escritor e notável político do liberalismo.

Alexandre Herculano já a pensar nestas situações emitiu um juízo que se mantém válido para estudantes de Direito, deputados, vereadores, governantes, mesmo os que ainda não expiraram num alcoolímetro: "Eu não me envergonho de corrigir meus erros e mudar as opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender". Gaspar e Coelho ainda não mudaram as suas opiniões catastróficas porque ainda não expiraram. E o povo português está ansioso por que expirem rápido, politicamente falando.

É claro que Glória, naquela aziaga noite de sexta-feira, não estaria provavelmente nas melhores condições para "raciocinar e aprender". Mas vai ter tempo para corrigir os seus erros se ela e alguém, para além dos polícias, reparar neles. E recordar o tempo em estava ao volante da Comissão Interparlamentar da Segurança Rodoviária.

Quem ainda não emborcou o primeiro copo de três, a decorar o Código da Estrada, que atire a primeira pedra.

Tentar dar bons exemplos cívicos aos jovens, como os que Glória dá no parlamento, na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, pode esbarrar, com um pouco menos de sorte, numa barreira policial emboscada a caçar multas para encher os depauperados cofres do Estado.

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Universidades muito privadas

José Alberto Quaresma
16:43 Sexta feira, 4 de janeiro de 2013

São poucas as universidades privadas que cumprem a lei. No fundo seguem os bons exemplos. A lei não é uma coisa que também serve para transgredir?

A Inspecção-geral de Educação detectou irregularidades em 34 instituições de ensino superior privadas. E há de tudo. E para todos os gostos desde que ninguém repare e que a sua função científica e pedagógica não seja beliscada: como empresas que são, estas universidades é suposto que sejam lucrativas. O resto é secundário, perdão, superior.

E aqui temos especiosas singularidades. Professores que acumulam funções com instituições públicas o que só revela que para além de competentes são ubíquos.

Raras instituições cumprem o ratio obrigatório de um doutorado para 30 alunos. Então se o doutorado corresponder a 50 ou 100 alunos só demonstra que o docente tem corpinho para eles.

Muitas actas não aparecem assinadas. Mas para que serve um rabisco? Uma assinatura é coisa despicienda. Só serve para fazer tremelicar uma mão docente.

No Instituto Bissaya Barreto, em Coimbra, não há um projecto científico, pedagógico, cultural. Mas deve haver seguramente projecto de instalações electricas, de águas pluviais, de esgotos, de telecomunicações. Então já não são projectos a mais?

No Instituto Superior de Línguas e Administração, de Santarém, as contas não foram certificadas por um revisor oficial de contas. E ainda bem. Então a adminsitração não sabe fazer contas? E já bastam as revisões de provas de exame que muitas vezes mais não são de que um verdadeiro quebra-cabeças.

A Universidade Lusófona do Porto não tem os estatutos regulamentados, a composição do conselho pedagógico é irregular, o regulamento disciplinar não está aprovado pelo órgão competente, enfim, ninharias. A universidade tem estatuto, o conselho pedagógico deve estar muito bem composto com os docentes com gravatas da Valentino e as docentes com écharpes da Chanel e indisciplina é coisa que não deve existir, mas sim compostura.

Na Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos o conselho consultivo não estava a funcionar. Não é crível. Algum dos inspectores se lembrou de passar pela marisqueira de Matosinhos? Uma reunião consultiva à volta de uns camarões de Espinho e uns finos pode ser mais conveniente para conselheiros avisados.

Cumprir a lei para quê? O confisco dos subsídios e das pensões não foi declarado inconstitucional em 2012. E o governo devolveu o seu a seu dono?

Nós temos uma constituição robusta. Só serve para, a começar pelos deputados, governantes, magistrados, lhe faltarmos ao respeito.

Deixem as privadas muito privadas privarem com quem quiserem. O prestígio está lá impoluto. Mais do que não seja para consumo privado. E um diploma quando certifica habilitações poderosas já ninguém se lembra por onde foi emitido.

1

O professor deve ser um burocrata triste

José Alberto Quaresma
18:08 Quinta feira, 20 de dezembro de 2012

Os professores portugueses são no conjunto dos países da OCDE dos que mais horas de aulas dão por ano. Do estudo exaustivo da OCDE, "Education at a Glance 2012, OECD Indicators", o Expresso deu eco resumido. Poucos ligaram.

Os dados lá estão acessíveis neste documento de 570 páginas. Desalentam o brio luso. E desmentem o anátema que tem sido lançado sobre a situação de privilégio dos docentes portugueses. Ficam bastante acima da média europeia em excesso de trabalho. Ou, se quisermos ser mais precisos, estão bastante em baixo. Mais deprimidos ainda é possível.

Trabalham com turmas maiores e permanecem muito mais tempo na escola. A situação tem vindo a agravar-se desde 2000. Para além disto, que não é pouco, vêem a progressão na carreira interrompida há anos, assistem de fúria contida à extorsão dos subsídios, e vêem-se às dezenas de milhar no desemprego.

As escolas entretanto foram alindadas com os dinheiros públicos da Parque Escolar. Mas muitas viram as obras suspensas, por falência dos empreiteiros ou porque o orçamento foi ultrapassado ou cortaddo. Outras, bastante degradadas, nem puderam iniciar obras prometidas e orçamentadas. Foram expelidas para as calendas gregas.

E mesmo nas mais modernaças, onde entra luz a rodos, o ambiente no seu interior é soturno e de cortar à faca, dizem-me antigos colegas.

Os professores são submergidos com trabalho burocrático inglório. A sua opinião nada conta. São-lhes exigidos relatórios e mais relatórios que ninguém lê e cujo único fito parece ser o de arranjar papelada para uma futura inspecção do Ministério da Educação certificar que vai tudo maravilhoso.

Para as questões didácticas e pedagógicas, as verdadeiramente importantes, não há tempo. E cada vez menos vontade. A desmotivação é persistente. E só por excesso de auto-mutilação profissional, e sacrifício familiar, a esmagadora maioria dos professores não deixa de acorrer com afecto e zelo aos seus alunos.

O Ministério da Educação exige de um professor que seja um burocrata. Não um pedagogo. Que preencha formulários a eito, que planifique milimetricamente as aulas, que avalie com balança de precisão, como quem pesa a dose, o que é vago, impreciso e inquantificável. No fundo que se desenrasque e tente encher o olho a quem, entediado, passe os olhos por cima de umas linhas e de uns excelsos quadros em excel. Em última instância, que endromine através de uma grelha, de um escala de valores pseudo-científica, de um jargão administrativo, o "eduquês", que um homem sensato promovido a ministro de um governo medíocre agora não pode arrasar.

Com esta sanha administrativa as vítimas são as mesmas de sempre, os alunos oriundos de meios socio-culturais desfavorecidos que chegam mal à escola. E mal por ela passam, divertidos, a caminho de um lugar vazio. Mas muitos outros que investem o melhor do seu esforço para irem acabar a passar códigos de barras em grandes superfícies, tarefa para a qual se qualificaram em universidades de prestígio e outras nem por isso.

É este o futuro que nos vão vendendo, barato, baratinho. Uma marca branca para usar até à idade madura ou até cair de maduro. E quem lá chegar que se amanhe.

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Sacando do inferior para o superior

José Alberto Quaresma
18:01 Sexta feira, 7 de dezembro de 2012

Sacando directamente do inferior para o superior o Ministério da Educação resolveu fazer justiça orçamental.

Ágil e hábil na gestão financeira, tira do pequenino para dar ao grande. As instituições do ensino superior vêem reforçada a sua dotação em 42,8 milhões de euros.

A contestação legítima e em voz alta dos reitores, alertando para a degradação do ensino superior se os cortes fossem feitos, deu bons frutos.

As escolas básicas e secundárias, de voz baixa ou afónicas, têm dificuldade em bater o pé. E vêem sair dos seus já depauperados cofres 22,5 milhões de euros.

Ao mesmo tempo o Ministério da Educação transfere generosamente para os privados, colégios com "contratos de associação", escolas profissionais e associações de pais a verba de 206 milhões de euros, praticamente a mesma do ano transacto.

O Ministério bem tenta abrir guerras sem sentido entre graus de ensino. Ninguém duvida que a universidade precisa de dezenas de milhões de euros para cumprir a sua função imprescindível na formação e qualificação de quadros superiores e no desenvolvimento da investigação.

Agora que o governo o imponha à custa de uma vil extorsão aos estabelecimentos de ensino público que ministram a escolaridade obrigatória, que vai até ao 12º ano, é que me parece inaceitável.

O número de professores inscritos nos centros de emprego aumentou brutalmente. Em Outubro eram mais de vinte mil, contra treze mil no período homólogo do ano anterior. Assistem pávidos, irmanados no mesmo infortúnio, ao desmantelamento da escola pública. E irão praticamente de mãos vazias mendigar o subsídio de desemprego.

Mas há gente feliz sem lágrimas. Um só director de uma agremiação de colégios privados colecciona dezenas de automóveis pessoais. Uma frota impressionante certamente equipada com GPS e à custa dos dinheiros públicos.

Esta governação é um imenso, desnorteado e implacável GPS. Orienta amigos e deixa o país à nora exaurido. Estamos governados.

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