Cristina Araújo já perdeu a conta às vezes que foi apanhada a conduzir sem carta, mas lançar-se à vida como vendedora ambulante foi a forma que encontrou de sustentar três filhos.
Em Setembro, Cristina Araújo foi apanhada pela 38ª vez a conduzir sem estar habilitada e hoje volta a sentar-se no banco dos réus no Tribunal de Coimbra para responder por violação ao Código de Estrada. De 2005 a Julho de 2008, cumpriu pena de prisão pela reincidência na prática desse delito.
Cristina Araújo confessa à Lusa que esta situação se tem arrastado devido às condições de vida com que se tem confrontado. "A minha filha mais velha tem 25 anos e desde que tinha três anos e meio até agora tem sido complicado", explica.
Casa perdida à conta da prisão
Quando, há 20 anos, não conseguiu encontrar trabalho, Cristina tornou-se vendedora ambulante de fruta nos arredores de Coimbra. "Comecei logo por transgredir a lei, ao conduzir sem carta. Agarrava numa caixa de fruta, comprava aqui, vendia acolá. E assim comecei", recorda.
Em 1996, obteve da Câmara de Coimbra uma casa de habitação social no Bairro da Rosa, onde viveu até 2005, quando uma condenação pelas sucessivas intercepções por condução ilegal a levou à cadeia. Nessa altura já obtinha o sustento com as "bicas", refrigerantes e pastelaria que vendia numa rulote instalada na zona de residência.
"Até 1996 a minha vida era péssima. Sem casa, sem vida, sem trabalho e três filhos a cargo. Com a casa pude ter os meus filhos ao pé de mim e retirá-los de um colégio, pô-los a estudar, e dar-lhes, nas minhas condições, o que lhes pude arranjar", afirma.
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| Cristina Araújo diz que o seu carro, esse, ninguém lho tirará |
| Rui Duarte Silva |
A condenação fê-la perder a habitação social. Pouco depois do regresso à liberdade, em Julho de 2008, os serviços de fiscalização da autarquia proibiram-na de vender na rulote. Até hoje, não conseguiu vencer os canais burocráticos da Câmara Municipal para recuperar uma habitação social e conseguir uma banca de venda de fruta no mercado, nem recuperar o "rendimento mínimo" facultado pela Segurança Social e "suspenso passados dois meses sem justificação".
Sem dinheiro para pagar renda de €150
Arrendou entretanto uma casa por 150 euros mas não consegue pagar a renda. Perante o iminente despejo, já se prepar para limpar o mato numa terra herdada dos pais para os lados de Tentúgal, erguer umas chapas para abrigar os parcos haveres e pernoitar nos bancos do seu carro. Esse, diz com um sorriso, ninguém lho tirará.
Hoje, os filhos (duas mulheres de 25 e 20 anos, e um rapaz de 16) não precisam de si, pelo que o que mais anseia é uma casa e um trabalho. "O que eu precisava era que se chegassem a mim pessoas que me ajudassem a dar a volta por cima, e não que massacrassem no passado", lamenta, dizendo que para quem sai da prisão as dificuldade são acrescidas.
Cristina Araújo diz compreender os polícias que a apanham a conduzir sem carta, porque cumprem o seu dever, embora afirme que alguns lhe fizeram esperas porque conheciam os seus movimentos.
Pagar com trabalho comunitário
Agora, Cristina anseia por apanhar um juiz de "bom coração", que lhe permita "pagar à Justiça" em trabalho comunitário, porque voltar à prisão não resolve o seu problema. E entretanto "sonha" com um benemérito que a ajude a custear a parte que falta para um novo exame de condução, que vicissitudes da vida e o seu nervosismo já lhe provocaram o chumbo no exame uma dezena de vezes.
"Nunca desisti dos meus objectivos, nem desisto", confessa. Com humor, diz que ou o presidente da Câmara aceita recebê-la, para o sensibilizar para a atribuição de uma habitação social, ou "a vaca vai tossir" porque não tem nada a perder.