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Face oculta: só há uma mulher por mil a usar burca

Depois da Bélgica, a França aprova a proibição do véu integral. Holanda e Espanha podem seguir-se. Justifica-se esta onda proibicionista?
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Dois olhos num rosto oculto: o véu é um símbolo de aviltamento da mulher ou uma escolha pessoal?
Dois olhos num rosto oculto: o véu é um símbolo de aviltamento da mulher ou uma escolha pessoal? /  FOTO STEPHANE MAHE/REUTERS

A direita europeia parece querer fazer da proibição das burcas a prova de que não perdeu a iniciativa política e que continua fiel aos valores liberais. Intervém a pretexto da liberdade de escolha da mulher muçulmana, de forma a garantir que não é coagida a usar véus. O uso do véu não é um mandamento explícito do Corão, muito embora a maioria dos teólogos, espalhados pelo mundo muçulmano, defenda que, fora de casa, a mulher deve cobrir-se, tapando, também, o rosto.

No deserto de ideias que se vive nesta Europa em crise, os governos conservadores navegam entre vários escolhos: a pressão das minorias muçulmanas, uma opinião pública favorável à proibição dos véus integrais e o crescimento dos partidos xenófobos e populistas, abertamente anti-islâmicos.

Há quinze dias, a Assembleia Nacional francesa, onde a direita é maioritária, aprovou a proibição do véu integral (burcas e niqab) nos espaços públicos. A lei não contou com os votos de muitos deputados socialistas, que abandonaram a sala na altura da votação. Uma posição dúbia que espelha a realidade social francesa, com cinco milhões de muçulmanos mas também na linha da herança jacobina do PS francês. O Senado tem agora de se pronunciar sobre o texto aprovado na Assembleia. O número de mulheres que usam burca não deve ultrapassar as duas mil.

Em Espanha, o Partido Popular conseguiu em março passado que o Senado aprovasse uma moção a instar o Governo socialista a proibir o véu integral em espaços públicos. No entanto, na terça-feira, o Congresso rejeitou idêntica proposta dos populares. O Executivo de Zapatero tem em preparação uma proposta de lei da liberdade religiosa que vai estabelecer princípios gerais a regulamentar localmente. Serão as comunidade autónomas a decidir sobre os véus. Uma posição que não compromete os socialistas, mas o PP está à espreita e as fronteiras do Magrebe são perto. Em 1,5 milhões de muçulmanos as mulheres com burca podem ascender a duas mil.

Bélgica destaca-se


Em Abril, a Bélgica, governada pelos democratas-cristãos flamengos, adiantou-se à Franca e tornou-se o primeiro país europeu a proibir o véu integral em qualquer espaço público. Uma prioridade discutível, num país à beira da secessão. Devido à queda do Governo e à realização de eleições em junho, a lei ainda não entrou em vigor. Na Bélgica há 500 mil muçulmanos e estima-se que haja duas mil mulheres a usar burca.

Na Holanda, o véu ainda não é proibido. O Governo democrata-cristão cessante chegou a defender que a burca era um "elemento indesejado na vida pública", mas não legislou. Nas legislativas de junho, a vitória coube aos liberais de Mark Rutte, mas um partido anti-islâmico, o PVV, que quer regular as tradições muçulmanas, ficou em terceiro lugar com 15% dos votos.

Quem não se mete nesta cruzada é a civilizada direita inglesa. Muito menos a alemã, pragmática e conhecedora dos fantasmas do país. Inglaterra e Alemanha também enfrentam o problema da convivência de culturas. Em Berlim não é difícil ver muçulmanos assarem sardinhas nos belos jardins da cidade. Em Londres assiste-se à suprema ironia de motoristas muçulmanos não deixarem os cegos britânicos entrar com os cães-guias nos autocarros. Pela lei corânica a saliva dos cães é impura.

Em Portugal, a lei da liberdade religiosa não proíbe o uso de símbolos religiosos. O diploma nunca foi regulamentado. Apenas uma circular do Ministério da Educação prevê a retirada destes símbolos das escolas públicas, com reclamação prévia de pais e professores. Em declarações ao Expresso, o mentor da lei, Vera Jardim, considera que "a Europa está a criar um problema ao proibir o uso da burca". Em Portugal vivem 30 mil muçulmanos. Estima-se que só 50 mulheres usem burca, Uma discussão adiada para um problema inexistente.


Saiba as diferenças

Hiyab - Véu que cobre o cabelo e pescoço, deixando descoberto o rosto. É usado com frequência por milhões de mulheres muçulmanas, em diversos países, quer por razões religiosas quer de preservação da identidade cultural ou, até, por moda, no caso das jovens muçulmanas. As sociedades ocidentais toleram melhor esta indumentária. O termo, em árabe, significa "esconder" ou "cortina".


Niqab - Véu que cobre cabelo e rosto e só revela os olhos. É frequente nos países da península arábica, sendo considerado obrigatório pelos salafitas, corrente muçulmana dominante na Arábia Saudita. Também é muito usado no Egito, Afeganistão e Paquistão. À semelhança da burca, é provável que já existisse antes da era islâmica. A palavra, de origem árabe, significa "máscara".



Tchador - Véu com semelhanças com o Hiyab. É comum entre as mulheres xiitas do Irão e do Iraque. Costuma ser de cor negra e compõe-se de um manto que esconde a forma do corpo feminino e de um véu que cobre cabelos e pescoço.




Burca - Véu de corpo inteiro com uma rede diante dos olhos. É comum no Afeganistão e nalgumas zonas do Paquistão. É usado de modo a impedir os olhares dos homens, e retirado quando a mulher regressa ao santuário da família. As burcas foram usadas antes da era islâmica. O termo, em árabe, significa "consertar" ou "costurar". As mulheres com burca podem também usar luvas, para ocultar todo o corpo.


Texto publicado na edição do Expresso de 24 de julho de 2010


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Aqui está material de...
...informação de 1ª classe,rigoroso e objectivo.

Assim se mostra que a comunicação social,quando quer,assume um papel pedagógico capaz de contribuir para o conhecimento de base,sem o qual qualquer debate cairá na facilidade da banalização de preconceitos.
Re: Aqui está material de...
Re: Aqui está material de...
Onde paras, Clara Ferreira Alves


Este editorial (?) é lastimável em qualquer jornal, mas neste é indesculpável. Confunde liberdade religiosa com costumes medievais, tribais, que têm em relação à mulher uma atitude preconceituosa, machista e atrasada. Em países onde a «pureza» religiosa está mais presente, além de a enroupar da cabeça aos pés, ainda a matam à pedrada, tendo o cuidado de utilizar pedras pequenas para não morrer logo à primeira. Posso assistir a isto com uma profunda náusea e impotência, agora aqui na Europa não, ouviu? NÃO, aqui não as tapam pois aqui somos todos iguais e isso custou-nos muito pensamento livre, muitas humilhações e muitas vidas.

Hipocrisia Caviar
Ao olhar para as imagens de algumas destas mulheres fica-se a pensar...como é que uma certa esquerda, que se diz libertária, aceita complacentemente estas aberrações?

Com as touradas, que são uma tradição nossa, já não há complacências nenhumas, excepto dentro da campânula que rodeia o concelho de Salvaterra de Magos...onde a tradição é respeitada e está bem protegida.
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