Tenho para mim que todas as pessoas, por singela ou heroica que seja ou tenha sido a sua vida, têm algo a dar-nos que nos transforma como seres humanos e nos faz melhores.
Talvez por isso, tanto ou mais que um modo de estar me interessa o ser, talvez também por isso sou amante confessa do género biográfico. O interesse pela vida de pessoas que se tornaram únicas levou-me há dias ao Museu da Cidade, a procurar saber um pouco mais da mulher por detrás da artista Frida Kahlo.
Frida Kahlo, uma vida pautada pelo sofrimento
Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu a 6 de julho de 1907, em Coyoacán, nos arredores da Cidade do México.
Com apenas 6 anos, contraiu a poliomielite - que a deixou com uma lesão na perna e no pé direito e lhe valeu a cruel alcunha "Frida Perna de Pau" que a acompanharia por toda a infância -, a primeira de uma série de acontecimentos infelizes, lesões e acidentes que marcariam a sua vida.
Aos 18 anos, um grave acidente deixou Frida entre a vida e a morte - Alexandra Lucas Coelho conta-nos, num relato arrepiante, como na sequência do choque entre um elétrico e o autocarro em que seguia, "um varão de aço entrou-lhe pela anca e saiu pela vagina, partindo-lhe a coluna pelo caminho" ("Viva México", editora Tinta da China, 400 págs. - um livro que recomendo vivamente). Contra todas as probabilidades, sobreviveu, e a humanidade ganhou Frida Kahlo, a artista. Imobilizada por um período demasiado longo, Frida começa então a pintar fervorosamente, adaptado um cavalete à cama e à sua condição física.
O sofrimento é muitas vezes tema das suas telas. Na famosa "Coluna Partida", por exemplo, Frida aparece retratada de pé, com o rosto em lágrimas e o corpo coberto de espinhos, espartilhado pelo colete ortopédico. Da dor, tão óbvia, ressalta no entanto uma tal força de viver que é comovente e contagia.
Da morte à eternidade
Frida Kahlo morre a 13 de Julho de 1954. O atestado de óbito dá como causa de morte embolia pulmonar na sequência de uma pneumonia grave, mas nunca se descartou totalmente a possibilidade de suicídio.
A sua vida foi marcada em permanência pelo sofrimento, da doença e do casamento atribulado com o pintor Diego Rivera aos abortos devidos à debilidade física e à tentativa de suicídio, mas Frida Kahlo conseguiria ainda assim tornar-se uma das artistas mais fascinantes do século XX.
A Casa Azul, onde viveu a maior parte da vida, transformou-se no Museu Frida Kahlo, que abriga o espólio da artista, entre telas de exposição permanente e documentos vários, alguns deles inéditos. Entre esses inéditos, vieram recentemente a público cerca de 6000 fotografias, da sua autoria ou por ela coligidas ao longo da vida, das quais 257 podem agora ser vistas em Lisboa.
A exposição está patente no Pavilhão Preto do Museu da Cidade, em Lisboa, de 4 de novembro de 2011 a 29 de janeiro de 2012, de terça a domingo, das 10h às 13h e das 14h às 18h. O preço das entradas é de 2 euros.
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