20 de maio de 2013 às 8:57
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Europa: os "filhos de Cruyff"

Espanha e Holanda chegaram à final do Mundial. Nascidas e criadas em locais tão diferentes, ambas alcançam este ponto da história com a mesma inspiração (estilo) de respeito pela bola.
Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
Espanha e Holanda foram as melhores equipas do Mundial
Espanha e Holanda foram as melhores equipas do Mundial
Matt Dunham/AP e Mike Hutchings/Reuters
O onze do Mundial por Luís Freitas Lobo

Os Mundiais costumam ficar na história pelos grandes jogadores que os marcam. Pelé, Cruyff, Maradona... 2010 trouxe, porém, uma ideia diferente e consagrou outro elemento como protagonista: a bola. Se há duelo que, neste momento, melhor aroma de bom futebol deixa no ar, é aquele que junta Espanha e Holanda. Porque não existem equipas que hoje melhor se relacionem com a bola.

Nasceram e cresceram em pontos geográficos diferentes da Europa, fizeram trajetos estilísticos completamente distintos (a Holanda, anglo-saxónica, revolucionou taticamente o jogo desde os anos 70; a Espanha, latina, viveu longas décadas agarrada ao mito da 'fúria'), mas ambas chegam a este ponto da história com filosofias de vida futebolística idênticas. Uma ideologia de respeito com a bola que mudou a face do futebol. Driblou a arte sul-americana perdida na encruzilhada do tempo (desde a excessiva europeização brasileira à desequilibradamente atraente Argentina de Maradona), ultrapassou os dogmas europeus (desde a frieza italiana à força reciclada germânica) e deu um novo rosto ao velho continente. 2010 vai dar um campeão do mundo inédito ao planeta do futebol. Holanda ou Espanha.

A Espanha foi a equipa que mais se transformou para atingir este nível de influência ideológica. Criou um 'futebol de autor' a partir da renúncia a uma atitude de jogo que durou longos anos mas que, mais do que um estilo, era apenas um estado de espírito, a lendária 'fúria'. Hoje, a Espanha tem uma relação serena com o jogo que nasce da sua capacidade técnica e vontade de, em campo, apresentar a bola a todos os pedacinhos de relva. A sua idolatrada 'posse de bola' não é um mero desenho. É um estilo intencional que, nos pés de poetas (líricos ou épicos) como Xavi, Iniesta, Puyol, Xabi Alonso, Piqué, Villa, monta uma 'teia de aranha' construtiva ao avançar no terreno. Desmontou a teoria do poder físico com o império dos baixinhos, 'Xavi e Iniesta, S.A.', 'gigantes' de 1,70m que atam a bola com uma corda à bota e circulam com ela por todo o campo.

O mais irónico disto tudo, porém, é que o mentor deste estilo em terras castelhanas foi, a partir de finais dos anos 90, um símbolo vindo de outras paragens. Johan Cruyff, o tal profeta holandês do 'futebol-total' nos anos 70. O local do epicentro futebolístico foi Barcelona. A partir da escola catalã, Cruyff inspirou as novas gerações espanholas. Mostrou-lhes novos caminhos, o 'futebol do toque', solidificou essa impressão digital no jogo do Barça (hoje visível com Guardiola, seu discípulo) e deixou o exemplo que Aragonês e Del Bosque adaptaram sabiamente à seleção.

Ao mesmo tempo, a sua Holanda sentiu alguns hiatos de classe geracional, mas nunca perdeu a sua imagem de marca: bola no pé e a girar de flanco para flanco. Ganhar ou perder, mas sempre com as mesmas ideias. A mítica geração de Cruyff jogador, junto de Resenbrink, Krol, Rep, teve seguimento na de Van Basten, Rijkaard ou Gullit, até encontrar, agora, acolhimento nas botas de Robben, Sneijder, ou Van Persie. A ideia que dá é que, mesmo com 40 anos por entre eles, todos podiam jogar na mesma equipa, sem se notar a diferença de hábitos táticos ou ritmos de jogo. É esse o maior triunfo histórico do futebol holandês.

Profeta e missionário, Cruyff chega a 2010 como a alma mater do novo futebol da técnica e do respeito pela bola. Inventou a Holanda e mudou a Espanha. Esta final tem a sua 'impressão digital'. Um duelo para sonhar.

O Mundial em busca da sua história


Ozil, revelação alemã

Revelações
Ozil, o primeiro nome. O truculento alemão de origem turca que parece jogar sempre de olhos esbugalhados, perfil de E.T., mistura explosiva de médio ofensivo e avançado. Ele foi a maior revelação. Outras saíram demasiado cedo. Como 'El chicharito' Hernandez, uma fábrica de golos mexicana que, na próxima época, vai pisar Manchester, e, até ao fim, outro caça-golos com dentes de coelho, o uruguaio Luis Suarez, espécie de avançado móvel com pacto secreto com as balizas. A ver de longe, os consagrados Xavi, Forlan ou Sneijder, patriarcas do bom futebol.


Eduardo, guarda redes português

Guarda-redes
Não foi um Mundial entusiasmante para os 'eremitas das balizas'. Alguns deixaram 'penas' a esvoaçar na área. Com grandes defesas e sempre muito seguro, Eduardo acabou com as suspeições e abriu novos mercados, de Itália à Alemanha. Casillas conseguiu, com o passar dos jogos, ver o seu nome surgir mais por causa das grandes defesas do que pelo caso com a jornalista mais bonita do Mundial. Neuer cresceu na baliza da Alemanha e Villar defendeu (quase) tudo no Paraguai.


Vicente del Bosque, selecionador espanhol

Treinadores
Não tem hipótese de ganhar um concurso de beleza, raramente se levanta, não grita com os jogadores, anda com um casaco de carapuço e faz lembrar o René, aquela personagem hilariante da série televisiva "Alô, Alô". E, mesmo assim (ou será por causa dis\so?) comanda a melhor equipa do Mundial: Del Bosque, claro, o discreto chefe espanhol. Na Holanda, Van Marwick teve o mérito de disfarçar as lacunas técnicas dos defesas (o ponto fraco da Holanda) e, sem os deixar correr riscos, ensinou-os a defenderem-se dos seus defeitos. Foi decisivo para chegar à final.


Ronaldo, capitão português

Desilusões
Gourcuff, a maior desilusão entre os projetos de estrela que o Mundial prometia. Sempre demasiado triste, o 'D. Juan' gaulês partiu muito cedo. No nosso habitat, Ronaldo entusiasmou mais nos treinos as miúdas caçadoras de autógrafos do que nos jogos os analistas táticos. Kaká e Robinho não conseguiram contrariar a 'dungazização' do Brasil que amordaçou os artistas. Messi perdeu-se nas ilusões táticas de Maradona.

O "capitão perdido"


João Moutinho agora equipa de azul

O que significa no futebol atual um capitão de equipa? Na génese, ele devia personificar a alma e personalidade coletiva do onze. A velocidade a que hoje os jogadores mudam de equipa impede, porém, que essas personagens ganhem força capaz de assumir esse papel dentro de um clube. Mas existem exceções. Até há pouco, pensava-se que João Moutinho era um desses casos.

O que aconteceu dos dois lados), clube (direção) e jogador (homem), para esse cenário mudar tanto? Não se sabe. É difícil, porém, entender como isso pode suceder ao ponto de o 'capitão', que antes era exemplo de raça, passe agora a ser agora uma "maçã podre".

O Sporting necessita encontrar novas referências dentro do seu 'mundo'. Entre os produtos da Academia e as contratações de fora não se detecta uma política comum que os una (entenda-se projeto desportivo que cruze formação/equipa profissional). Parecem grupos distintos dentro da mesma casa.

Enquanto FC Porto e Benfica continuam a incluir na sua estrutura (em diferentes cargos) antigos jogadores da sua história que, assim, em locais diferentes, vão (re)inventando a mística clubística às novas gerações que chegam, o Sporting não tem uma única figura de grande destaque (só Lima, ex-adjunto) nesse edifício futebolístico. Não faz sentido. Não garante, claro, títulos mas dá mística ao clube e, no limite, até ajuda a começar a... ganhar.

Mais do que a rutura com o Sporting, impressiona ver Moutinho, o 'capitão perdido', ir para o FC Porto. É 'contranatura'. Não acredito que uma equipa possa crescer a partir de litígios com os seus principais símbolos. O resto são luzes e sombras de uma relação difícil entre clube e jogador.

Benfica: novo ciclo de poder?


Partiu Di Maria mas a ilusão permanece. Veremos quem mais sai (e entra) O "novo testamento" (parte II) de Jesus parte de dois novos argentinos (Gaitan e Jara), avançados móveis. Existirá, porém, muito tempo para analisar a reformulação benfiquista. Neste momento, a questão que se coloca é perceber o posicionamento histórico do clube perante o momento que vive. Porque, após longos anos na sombra do FC Porto, o Benfica, mais do que ganhar um campeonato, pode abrir (se mantiver a mesma qualidade na equipa) um novo "ciclo de poder" no futebol português. O treinador, pela forma como se colocou acima da "estrutura" no clube, é a base desse projeto global. Por isso, a importância de ele continuar de "corpo inteiro". A formação da equipa deve seguir a mesma lógica, movendo-se no "futebol dos empresários" com relações privilegiadas. A Europa é outra história.

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