Europa: a cegueira que mata
Wolfgang Münchau é um perigoso radical que escreve num jornal obscuro dirigido por anarquistas, socialistas e mais uns tantos irresponsáveis: o Financial Times. Para piorar a coisa, é alemão. Suspeito, portanto.
Ontem, Münchau juntou a sua voz à de mais uns tantos economistas sem mais credenciais do que umas medalhinhas suecas que têm lamentado a irresponsabilidade europeia na sua relação com a crise grega e portuguesa. Gente que não acompanha a profundidade teórica e a sofisticação política dos nossos Eduardo Catroga, Cantiga Esteves, Medina Carreira e tantos teleconomistas doutorados na arte de explicar a crise ao povo e às crianças com metáforas domésticas e aforismos em saldo.
Diz Wolfgang Münchau que a Grécia e Portugal deveriam entrar em default e continuar no euro. O louco contraria a nova tese em voga: correr os gregos do euro e, quem sabe, usar o dinheiro para salvar Portugal. Supõe-se que, para depois da graça, aplicar a mesma terapia que deixou a Grécia em coma. Percebe-se o raciocínio: como escrevi esta semana no "Expresso", nos últimos dois anos a banca francesa e alemã conseguiu livrar-se da dívida grega, a que estava muito exposta. E a Europa limitou os riscos de contágio grego para todo o sistema financeiro. Agora está disposta a abandonar a Grécia na beira da estrada. Ou a Grécia leva até às ultimas consequências mais um pacote de austeridade e morre no hospital ou sai do euro e morre em casa. Como disse o ministro da Economia alemão, Philipp Rösler, "o dia D mete cada vez menos medo". Não podia ser mais claro sobre a forma como a Alemanha olha para os problemas das suas "provícias".
Não faltará quem veja com bons olhos, em Portugal, esta saída: ficar com os despojos gregos. Triste ilusão. Ou se trava este caminho ou teremos, daqui a um ou dois anos, o mesmo tratamento. E como vamos com um bom avanço - somos o país em processo de "resgate" a afundar-se mais depressa - o colapso acontecerá num instante. Os fortes, quando julgam zelar pelos seus interesses, costumam ter igual compaixão pelos que lhes são subservientes e pelos que lhe fazem frente. Nenhuma.
A proposta de Wolfgang Münchau é outra: gregos e portugueses entram em default, pondo fim a estes resgates absurdos para impedir um incumprimento inevitável. Reforça-se o fundo de resgate do euro para reerguer as economias da Grécia e de Portugal e estanca-se, com coragem, a doença, impedindo que ela continue a alastrar. Será caro, diz ele. Mas muito mais barato do que continuar a enterrar país atrás de país.
Münchau, talvez tomado por um profundo chavinismo anti-germânico, acusa os líderes europeus de "arrogância e ignorância". De, sem qualquer experiência na gestão de crises financeiras, nunca se terem dado ao trabalho de consultar quem, em décadas anteriores e noutras partes do Mundo, tenha passado por crises destas. E explica o óbvio: não só o novo pacote de austeridade grego não vai resultar como é muito improvável que venha a ter condições políticas para ser aplicado.
Uma sondagem recente revelou que a maioria dos alemães quer a Grécia fora do euro. Não entendem que isso será o principio do fim do euro. Porque a Grécia é o sintoma, não é a doença. E que sem euro a economia alemã pode começar a despedir-se dos seus anos gloriosos (pouco sentidos pelos trabalhadores alemães, diga-se de passagem). A cegueira não é responsabilidade do alemão comum, que não tem obrigação de compreender as complexidades desta crise. É do populismo mediático, político e académico que está a estupidificar a Europa. E a matá-la.


