Quando muitos vaticinavam o declínio da energia atómica, eis que o nuclear ganha novo fôlego. Porquê? São várias as razões. Em Janeiro passado, um diferendo entre a Rússia e a Ucrânia provocou cortes no fornecimento de gás. Os termómetros desceram em muitos lares europeus e aumentaram os receios da dependência excessiva de uma única fonte de abastecimento energético. "Depender de países com regimes instáveis é um risco", diz ao Expresso Júlio Montalvão e Silva, presidente do Instituto (português) Tecnológico e Nuclear (ITN).
A oscilação do preço do petróleo nos mercados mundiais (o barril chegou aos 150 dólares no início do Verão de 2008) e a urgência ambiental imposta pelas alterações climáticas, somaram mais adeptos à causa do nuclear. Simpatizantes argumentam que os reactores nucleares são "amigos" do ambiente. Ambientalistas refutam esta ideia. Dizem que "a quadruplicação da capacidade nuclear significaria uma redução de apenas 6% nas emissões" para a atmosfera de gases com efeito de estufa. "Muito pouco para um investimento de 7,5 biliões de euros", opina Aslihan Tumer, da Greenpeace
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Os defensores da viabilidade económica do sector alegam que os investimentos avultados na manutenção, segurança e gestão de resíduos são amplamente compensados pela produção energética, dez milhões de vezes superior à de outros combustíveis fósseis.
A própria conjuntura económica actual é favorável - o custo de construção de centrais nucleares "caiu 50%, desde Agosto passado", esclarece Hans-Holger Rogner, director do departamento de planeamento e estudos económicos da Agência Internacional de Energia Atómica
(AIEA). Em declarações ao Expresso, o especialista assegura que o lóbi do nuclear tem vindo a perder força e que não se trata de considerar uma fonte energética em detrimento de outras. "Na AIEA só queremos que o nuclear seja uma opção, avaliada em função de outras alternativas possíveis".
Sobram motivos para justificar o recente anúncio da Suécia que, ao fim de 30 anos, decidiu levantar a interdição de construção de centrais. A Europa começou a mostrar sinais de abertura já no início do ano, quando o primeiro-ministro Berlusconi e o Presidente francês assinaram um acordo com vista à criação de centrais em Itália. O Governo britânico também pensa expandir essa indústria, ao mesmo tempo que a Alemanha recua nas intenções de abandonar gradualmente a energia atómica. Do lado leste, os polacos planeiam ter a sua primeira central antes de 2020 e a Hungria quer duplicar a sua capacidade nuclear.
A discussão em Espanha - que a par de Portugal, Irlanda, Grécia, Malta e Chipre, permanece entre os países mais relutantes da Europa - atraiu vozes favoráveis nos últimos anos. Mas a criação de uma associação de cientistas portuguesa, agendada para Maio (ver Expresso de dia 4
), é um exemplo de que também aqui a questão reaparece. Estaremos preparados para abraçar, a curto prazo, o nuclear?
O presidente do ITN diz que a aposta feita nesta área, nos anos 1950, "morreu" após o acidente de Chernobyl. "Temos um reactor experimental, mas pouco pessoal especializado". Mais: o Governo optou por suprimir o nuclear no plano energético da actual legislatura e os portugueses recusam-se a acolhê-lo dentro de portas.
A discussão sobre o futuro energético europeu continua, e suscita posições antagónicas, mesmo entre os eurodeputados portugueses. Contra ou a favor da energia atómica, todos admitem que a UE deve reformular as suas "estratégias energéticas". Maria Graça Carvalho, ex-ministra da Ciência e actual conselheira da Comissão Europeia
para as questões da energia, encara o nuclear como uma alternativa, mas sublinha que a decisão terá de ser tomada, individualmente, por cada um dos 27 Estados-membros. "À Comissão cabe zelar pela segurança e incentivar a investigação científica nesta área", disse numa entrevista divulgada pelo Parlamento Europeu.
Indiferente à celeuma, a indústria está em franca expansão. Aos 436 reactores activos no mundo vão juntar-se outros 44, já em construção. Goste-se ou não, o nuclear é um forte candidato a potência energética mundial.
Resíduos, nem pensar!
A opinião pública é unânime: enquanto não houver uma solução para o lixo nuclear, a implantação de centrais atómicas não é bem-vinda. Hans-Holger Rogner, da IAEA, diz que não há razões para ter medo. O especialista considera que os resíduos são a "maravilha desta energia". Os detritos produzidos em todas as centrais do mundo, durante um ano, "cabem em dois campos de basquetebol. Bem armazenados, não representam qualquer ameaça". Aslihan Tumer, da Greenpeace, contrapõe com argumentos mais alarmistas: "O lixo nuclear pode ser perigoso durante centenas de milhares de anos", enquanto a exposição a estes materiais, ainda que por breves minutos, pode ser fatal. "A Humanidade existe há 200 mil anos. São precisos 240 mil para que o plutónio seja considerado seguro", alerta o ambientalista.
Energia do futuro
Os reactores termonucleares, ou de fusão, não produzem resíduos radioactivos nocivos, libertando apenas hélio, um gás inofensivo. Bons para o ambiente e mais seguros, justificam os esforços que têm sido feitos pela comunidade científica para apresentar a fusão como a sucessora incontestada do actual processo de produção de energia nuclear - a cisão. "A fusão não chegará antes de 2050 ou 2075", afirma Hans-Holger Rogner, da AIEA, mas o primeiro projecto de cooperação internacional, o ITER, já arrancou. O reactor experimental de fusão nuclear está a ser construído em Cadarache, no sul da França, e deverá estar operacional em 2016. "Falta ainda formar pessoas especializadas em fusão nuclear, o que pode levar várias décadas", explica o especialista.
Acidentes em centrais
12 de Dezembro de 1952
Chalk River, Otava, Canadá: O reactor derreteu parcialmente, após a remoção acidental de um dispositivo de segurança. Não houve feridos
7 de Outubro de 1957
Windscale Pile, Liverpool, Inglaterra: Um incêndio no reactor que produzia plutónio lançou radioactividade, numa área de 200 metros quadrados. Terá provocado dezenas de mortes por cancro
3 de Janeiro de 1961
Idaho Falls, EUA: Três técnicos morreram num acidente
com um reactor experimental
5 de Outubro de 1966
Detroit, Michigan, EUA: Parte do núcleo de um reactor experimental derreteu, na sequência de uma falha no sistema de arrefecimento
21 de Janeiro de 1969
Lucens Vad, Suíça: Problemas no sistema de arrefecimento de um reactor experimental libertaram radiação para uma cave. O local foi selado
7 de Dezembro de 1975
Lubmin, Alemanha: Um incêndio provocado por um curto-circuito quase derreteu o núcleo do reactor
28 de Março de 1979
Three Mile Island, Pensilvânia, EUA: O acidente nuclear mais grave da História do país pôs em causa a segurança de todas as centrais do mundo. Não houve vítimas ou danos ambientais
11 de Fevereiro de 1981
Sequoyah, Tennessee, EUA: Cerca de 500 mil litros de substâncias radioactivas invadiram um dos edifícios da central. Oito trabalhadores foram contaminados
25 de Abril de 1981
Tsuruga, Japão: Quase 50 pessoas que reparavam a central foram contaminadas pela radioactividade
26 de Abril de 1986
Chernobyl, Ucrânia: O pior acidente nuclear de sempre espalhou radiações sobre a ex-URSS, Europa e Escandinávia. Morreram 31 pessoas, pelo menos
24 de Março de 1992
Sosnovy Bor, São Petersburgo, Rússia: Fuga radioactiva para a atmosfera devido a falhas de pressão num dos canais do reactor
8 de Dezembro de 1995
Monju, Fukui, Japão: Uma fissura no sistema de arrefecimento do reactor, lançou para o ar cerca de 700 quilos de sódio
Abril de 1997
Tokaimura, Japão: Uma explosão no reactor expôs, pelo menos, 35 trabalhadores a radiações
30 de Setembro de 1999
Tokaimura, Japão: 27 trabalhadores sujeitos a radiações. Mais de 300 mil habitantes foram forçados a permanecer em casa até ao dia seguinte. O incidente deveu-se a uma falha humana
Opinião pública favorável
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terços da população mundial aceita a energia nuclear no seu país, segundo um estudo publicado em Março pela Accenture
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em cada 10 europeus contra o nuclear mudariam de opinião caso se resolvesse o problema dos resíduos, concluiu o Eurobarómetro de Julho de 2008
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| Mapa dos reactores nucleares
(clique na imagem para ver o documento em formato PDF) |
Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2009