EUA: Standard & Poor's corta rating e deixa aviso
Pessimista com a política em Washington, a agência de notação tomou a decisão, sem precedentes, de baixar o rating da dívida americana para AA+. E avisa que a mantém em perspetiva negativa. Ou seja: pode baixá-la para AA nos próximos 12 a 18 meses.
Depois da agência de notação Egan-Jones ter sido a primeira nos Estados Unidos a cortar, em julho, o rating da dívida de longo prazo norte-americana de triplo A para AA+, foi, agora, a vez da Standard & Poor's (S&P) - uma das três grandes do sector - "copiar" a decisão da pequena agência.
A decisão foi divulgada a partir de Toronto, pelas 20 h locais (madrugada na Europa), já depois de terem fechado as bolsas e o mercado secundário de títulos do Tesouro.
Na sequência desta decisão sobre a dívida norte-americana, a S&P deverá proceder na 2ª feira ao provável corte de notação de entidades ligadas ao governo americano e ao sector financeiro.
FED acalmou investidores e Buffett diz que daria AAAA
Depois do anúncio da decisão, a Reserva Federal (FED, banco central) e o regulador Federal Deposit Insurance Corp (FDIC) apressaram-se a comunicar que não será necessário o reforço de capital nas instituições financeiras que detenham títulos dos Tesouro ou outras obrigações garantidas pelo governo federal no seu balanço.
A FED garantiu, também, que a sua "janela" de liquidez para os bancos não sofrerá alterações e que não mudará a sua política de compra e venda de títulos do Tesouro. Recorde-se que a FED é hoje o principal detentor de títulos do Tesouro, com 16% do total, a que se segue a China, com 12%.
Os meios financeiros discutem, agora, se a FED procederá ao lançamento de um 3º programa de "alívio quantitativo" (quantitative easing, na designação original), face aos números medíocres do crescimento económico e a esta baixa do rating.
A reação mais estridente dentro dos Estados Unidos veio de Warren Buffet (principal investidor na agência de notação rival, a Moody's) em declarações na cadeia televisiva Fox: "Não percebi. No Omaha, os Estados Unidos continuam a ser triplo A. De facto, se houvesse uma notação de AAAA, eu a atribuiria aos EUA".
Dívida pode agravar-se em $130 mil milhões
Os olhos e ouvidos vão estar virados para a abertura dos mercados asiáticos na 2ª feira (ainda madrugada na Europa e Estados Unidos) e o efeito de "contágio" nos mercados da dívida soberana.
Nem em abril e maio de 1979, quando os Estados Unidos entraram em default temporário e seletivo, as agências de notação existentes à data haviam quebrado o tabu de mexer no rating de triplo A.
Segundo estimativas da Comissão do Orçamento do Congresso norte-americano, divulgadas na semana passada, a dívida americana agravar-se-á em 130 mil milhões de dólares ao longo de uma década por efeito de uma decisão deste tipo. Antecipando este movimento da S&P, as yields dos títulos do Tesouro no mercado secundário dispararam ontem (5 de agosto) entre 5 e 15%, como noticiámos.
Pessimismo em relação aos políticos
A razão imediata da baixa de notação deriva do facto do corte nas despesas acordado pela Casa Branca e pelo Capitólio - de 2,5 biliões dólares (2500 mil milhões) - "ter ficado aquém do que, na nossa opinião, seria necessário para estabilizar a dinâmica da dívida de médio prazo". Na realidade, a S&P apontava para a necessidade de um corte de 4 biliões de dólares (4000 mil milhões).
Contudo, a razão "mais ampla" para esta baixa de notação prende-se com o facto da confiança nas instituições políticas americanas se "ter enfraquecido (...) mais do que prevíamos". Preto no branco, diz a S&P: "ficámos mais pessimistas sobre a capacidade do Congresso e da Administração ser capaz de alavancar o acordo que fizeram esta semana no sentido de um plano de consolidação orçamental mais amplo que estabilize nos tempos mais próximos a dinâmica de dívida governamental".
Mas a agência não tomou só essa decisão sem precedentes de quebrar o tabu entre as majors do rating - colocou, também, a notação em perspetiva negativa, ou seja, nas próprias palavras da S&P, "poderemos cortar a notação para AA nos próximos dois anos" se a trajetória de dívida for superior à que prevêm. Ou seja, o aviso abrange todo o ano de campanha eleitoral presidencial de 2012.
O que poderá acontecer por três razões: os políticos no Capitólio e na Casa Branca serem incapazes de cortar a despesa como se comprometeram; das taxas de juro aumentarem (e ontem observou-se uma primeira reação do mercado secundário provocando um disparo na variação diária das yields dos títulos do Tesouro em todas as maturidades, como noticiámos ); ou novas pressões orçamentais.
Endividamento público não vai abrandar
A S&P prevê que a dívida pública líquida subirá de 74% do Produto Interno Bruto (PIB) no final de 2011 para 79% em 2015 e 85% em 2021.
Um dos pontos que dificultarão a baixa desse nível será a permanência, alvitra a agência, dos cortes de impostos aos ricos decididos por George W. Bush em 2001 e 2003. "Os Republicanos no Congresso continuam a resistir a qualquer medida que aumente as receitas, posição que julgamos que o Congresso reforçou ao aprovar esta lei [resultante do compromisso entre a Casa Branca e o Capitólio]", afirma o comunicado da agência.
Comparando os Estados Unidos com outras dívidas soberanas com notação triplo A - Alemanha, Canadá, França e Reino Unido -,apesar de piores perspectivas no Reino Unido e França até 2015, a S&P considera que nesses países a situação se inverterá, ao contrário dos EUA.
As notações das outras
As atuais notações da dívida de longo prazo norte-americana por parte de outras agências relevantes são as seguintes:
- a Egan-Jones (norte-americana), considerada uma agência-boutique independente e certeira nas suas decisões, baixara em julho para o mesmo nível de notação que a S&P, ou seja AA+;
- a Dagong (ligada à administração chinesa) baixou, esta semana, a notação de A+ para A, o nível de conforto mais baixo, um degrau acima do patamar dos BBB, em que começa a haver "algum risco de default";
- a Fitch (controlada pelo grupo francês Fimalac) manteve o triplo A, logo a seguir à aprovação do acordo no Congresso, mas tomará uma posição mais detalhada no final do mês de agosto, pois continua o processo de análise;
- a Moody's (Warren Buffet como principal investidor) manteve o triplo A, mas com perspetiva negativa, o que significa que poderá rever a decisão em próxima análise.



