O presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Rui Reis, manifestou-se hoje contra a intenção da ministra da Saúde de convidar os alunos que estão no estrangeiro a acabarem o curso em Portugal.
"Não podíamos ter ficado mais espantados com as declarações da ministra da Saúde", afirmou Rui Reis, em declarações à Lusa, alertando para os "desequilíbrios sociais" que esta medida pode implicar.
"Quem não tem posses para ir estudar para o estrangeiro pode ver passar à frente quem tiver ido para fora e regressar, que, por regra, são pessoas com mais posses", salientou o dirigente estudantil.
O presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto comentava o anúncio feito pela ministra da Saúde, Ana Jorge, em entrevista à Lusa, de que pretende convidar os alunos portugueses de Medicina, que estudam no estrangeiro, a terminarem o curso nas universidades portuguesas.
Esta medida, segundo na ministra, pretende combater a falta de médicos que tem conduzido ao crescimento de "mercenários" no sector.
Rui Reis considerou ainda que esta iniciativa vai "reduzir ainda mais" a capacidade formativa das faculdades nacionais.
"O constante aumento do 'numerus clausus' tem feito diminuir a capacidade formativa das faculdades de Medicina em Portugal, situação que esta medida vai agravar, já que os recursos físicos e humanos disponíveis continuam os mesmos", frisou. A Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina do Porto
Entretanto, os estudantes portugueses de medicina na Galiza consideram que o convite da Ministra da Saúde, afirmando que "acaba por ser positivo" por "facilitar o regresso", mas continuam a querer o aumento das vagas em Portugal.
Para Vânia Henriques, aluna do penúltimo ano de medicina em Santiago de Compostela, a intenção do Ministério pode "facilitar muito para quem já sabe que quer voltar", uma vez que o regresso a Portugal é "muito complicado e burocrático".
O "principal problema", diz a estudante portuguesa na Galiza, é "a adequação da média". "Quem tirava o curso fora ficava com média de 10, agora já não, mas mesmo que assim perdemos alguns valores", explica Vânia Henriques.
Outro problema, aponta a aluna de medicina, é a repetição da especialidade.
"Em Espanha, desde o 4º ano que começamos a fazer estágio de especialidade e quando acabamos o curso temos o internato integrado. Em Portugal já não funciona assim: eu acabo o curso em Compostela e depois em Portugal tenho de fazer o tronco comum como toda a gente. Depois repito a especialidade", explica. Mas para Vânia Henriques, "a intenção da ministra acaba por ser positiva".
Ainda assim, a aluna admite que "a solução do problema [falta de médicos] acaba por ser aumentar vagas e esse é o eterno problema".
O presidente da Associação de Estudantes Independente da faculdade de Santiago de Compostela (GIME), Felipe Zúiga, "valoriza" a medida de "reorganização do sistema nacional de saúde português", mas diz que a maioria dos alunos portugueses não está "louca" por trabalhar em Portugal.
Os estudantes portugueses "reclamam mais e melhores acessos às infra-estruturas de ensino portuguesas", garante.
Segundo a ministra da Saúde cerca de 700 alunos portugueses estão a estudar medicina no estrangeiro, designadamente em Inglaterra, Espanha e República Checa. Duzentos destes alunos estão a acabar o curso.