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Estado de emergência

Para que há-de um homem separar-se, se pode ter e fazer tudo?
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Devia ser o bê-à-bá da educação, a primeira coisa a ensinar-se a uma criança no jardim infantil: o amor existe. Existe e manifesta-se, antes e depois de tudo, pelo respeito. Respeito pelas ideias do outro, pelo corpo do outro, pela liberdade do outro. O corpo de uma mulher vale tanto como o corpo de um homem. Esta ideia de igualdade efectiva é muito importante, porque a sacralização da mulher através da maternidade tem potenciado a violência sobre as mulheres: as que não são santas serão inevitavelmente galdérias, e basta uma mulher sorrir para o lado para se desequilibrar do pedestal de santidade. Este conceito atravessa praticamente todos os discursos, mesmo os dos pretensamente democráticos e esclarecidos: aqueles que defendem que deve haver mais mulheres na política para elevar o nível ético da sociedade (porque elas seriam mais "sensíveis", "humanas", "dedicadas" ou disparates semelhantes) admitem implicitamente que o "dever-ser" é diferente para homens e mulheres. Os que diziam que Margaret Thatcher era "um homem de saias" ou os que definem carinhosamente as suas filhas como "marias-rapazes" contribuem para a manutenção da violência sobre as mulheres: o paternalismo é o primeiro e o último degrau, infiltra-se na cabeça das pessoas diminuindo-as, classificando-as como agressores ou vítimas. A condescendência com estes princípios, a pretexto de que a mudança das mentalidades é lenta, é a principal responsável pela situação trágica que vivemos em Portugal: só este ano (e até 14 de Dezembro, o dia em que escrevo) foram assassinadas pelos homens a quem tinham entregue o seu amor quarenta mulheres.

Cada uma destas mulheres mortas representa pelo menos quatrocentas outras que ainda não morreram mas são espancadas, humilhadas, vigiadas, aterrorizadas diariamente. Muitas delas não têm ainda sequer vinte anos: segundo dados da UMAR ( União de Mulheres Alternativa e Resposta), revelados numa reportagem da "Visão" de 9 de Dezembro, 28% das raparigas entre os 11 e os 18 anos já sofreram algum tipo de violência. "Se não és minha, não és de mais ninguém", disse o namorado de Stephanie, antes de a matar à facada, em Albufeira. Por que aceitam as raparigas esta prepotência? Porque aprenderam a desvalorizar-se e extasiam-se de espanto quando um rapaz parece fazer delas o centro da sua vida. Porque foram ensinadas a perdoar e qualquer excerto de flor as comove. Porque foram educadas a contentar-se com pouco. Todas as mulheres são educadas assim, o duplo padrão continua com o mesmo vigor de há cem anos. As mulheres que tomam a decisão de se separar ouvem frequentemente aos maridos: "De que te queixas? Eu nunca sequer te bati". Que sejam as mulheres, em mais de 80% dos casos, a tomar a iniciativa do divórcio, diz muito do estado discriminatório em que ainda vivemos: para que há-de um homem separar-se, se pode ter e fazer tudo?

As campanhas de alerta, por mais inteligentes e bem-intencionadas, não resolvem, antes agravam o drama: são como sangue à vista num mar de tubarões. O que resolveria, antes de mais, seria a prevenção: Maria Olívia, de 31 anos e com dois filhos adolescentes, a quadragésima mulher, tinha apresentado três queixas à PSP - três queixas sucessivas - contra o ex-companheiro que a matou com quatro facadas no peito, no início deste mês, quando ela limpava uma cabina telefónica da estação de comboios da Reboleira, onde trabalhava como empregada da limpeza. O pai acompanhava-a diariamente ao trabalho, para a proteger, "porque ela tinha muito medo de morrer", como explicou ao "Correio da Manhã". Tinha boas razões para ter muito medo de morrer: assim não o entendeu a polícia, à qual ela recorreu insistentemente antes de ser morta. Por cada Maria Olívia que é morta depois de ter visto as suas queixas desprezadas, muitas outras desistem de se queixar. Quase todas as mulheres assassinadas tinham apresentado queixa à Justiça - e essa queixa apenas serviu para acelerar a sua morte, porque os agressores, mesmo quando chamados pela polícia, são imediatamente libertados pelos tribunais, com um sortido de ralhetes, bons conselhos e apresentações periódicas. Portugal ensina as mulheres a amar e a sofrer a fundo perdido. E abandona-as, pura e simplesmente, às mãos dos homens que as destroem como brinquedos gastos.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

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Texto publicado na edição da Única de 18 de dezembro de 2010


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Não é Portugal.
"Portugal ensina as mulheres a amar e a sofrer a fundo perdido."

Não é Portugal que ensina, porque Portugal, assim como muitos outros países, mais não é do que um herdeiro de certas concepções herdadas da Idade do Bronze.

As origens da misoginia perdem-se no tempo mas, por muito distantes que estejam, têm e tiveram, ao longo destes últimos 4 ou 5 milénios, discursos performativos destinados a legitimar e a justificar a superioridade do homem sobre a mulher, discursos esses que construíram todo um legado cultural misógino sustentado na tese de que a mulher é um objecto e o homem é o seu proprietário.

Nem vale a pena referir a origem dos ditos cujos discursos misóginos, porque os leitores sabem muito bem a que instituições me estou a referir. Mesmo aqueles que não gostam e desejariam não pensar sobre o assunto, sabem muito bem que instituições estiveram por detrás da consagração das lógicas misóginas.

Foram suficientes algumas escassas gerações para instituir toda essa cultura misógina. Serão necessários séculos para a eliminar.

A caca divina custa a limpar, mas lá se vai limpando aos poucos. Desgraçadas das mulheres que, pelo caminho, sofrem na pele, no corpo e na vida as consequências do lixo ideológico que ainda perdura, apesar da distância milenar da Idade do Bronze.
Uma terrível realidade
É infelizmente uma terrível realidade no nosso país.
Esse crime existe em todas as classes sociais,é difícil de prever estes acontecimentos se não houver denuncia da vítima.
Hoje melhorou-se muito o apoio a pessoas vítimas de violência doméstica,mas ainda estamos longe de atingir a educação que deverá começar nas escolas.
Eu própria tenho uma escola de vida desses tristes acontecimentos que deixaram marcas na minha alma para sempre...
Finalizei pedindo o divórcio depois de quinze anos de casada.
Hoje vivo só,mas nunca me arrependi da minha escolha.
Só lamento o facto dos meus filhos não entenderem isso.
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Edição Diária 17.Abr.2014

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