Há pouco ouvia uma mãe a queixar-se que o filho de seis anos não come fruta nem legumes porque não gosta e não adianta insistir porque faz logo uma birra. Esta atitude leviana é confortável de forma a obter uma convivência serena com a pequena peste, mas não vai ser bom para o seu futuro.
Isto fez-me lembrar alguns conflitos atuais entre partidos, que de alguma maneira tentam eriçar ainda mais as pessoas já insatisfeitas e desmotivadas com a situação atual do país, apelando de alguma forma a manifestações de rua. Parece-me que manifestações de rua e democracia não combinam. Explico-me.
Antes de mais é verdade e legítimo que em democracia temos o direito de liberdade de expressão e a manifestação de rua é uma forma de o fazer. Por outro lado, foi-nos dada a oportunidade de nos manifestarmos através do voto, como determina a nossa Constituição.
O Governo que toma decisões, quer sejam do nosso agrado ou não, foi legitimamente eleito pela maioria e não é obrigado a seguir as vontades de quem o elegeu, porque governar implica ter a perspetiva de um futuro a longo prazo. Caso contrário parece a mãe que referi em cima. O Governo tem de ter a coragem de fazer escolhas difíceis quando é o melhor para o país e não desejar a popularidade fácil e imediata.
Os governos não podem ceder às manifestações de rua. Somos civilizados, refletimos e temos ideias. Um grupo de manifestantes de rua - quase sempre em número reduzido - com cartazes e frases feitas não é construtivo. Além disso, há quase sempre desacatos e confrontos o que tira automaticamente credibilidade e respeito a quem participa.
Uma manifestação de ideias em papel, bem estruturada e transmitida já parece ser produtivo, ordeiro e útil para o Governo. Qualquer governo precisa de tempo para semear para depois chegar a altura de colher. Temos de nos unir, confiar e contribuir para a estabilidade do país.
Henrique Granadeiro, chairman da PT, em entrevista ao Jornal de Negócios, disse que aquilo que define o sistema político português é a "instabilidade, a conflitualidade e a ineficácia". Para o gestor "há uma correlação direta entre a duração dos ciclos políticos e a capacidade de organizar o desenvolvimento". Observa que quanto mais duram os governos, maior é o crescimento real do PIB.
Cavaco Silva quando Primeiro-Ministro entre 1985 e 1995 conseguiu uma taxa de crescimento média anual do PIB de 4,5%, enquanto Mário Soares como Primeiro-Ministro entre 1983 e 1985 obteve um crescimento negativo do PIB de -1,5%, o que demonstra que, de facto, há uma correlação positiva entre a estabilidade do Governo e o crescimento económico do país.