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Esquerda e Direita

João Galamba
17:45 Quarta feira, 29 de julho de 2009

Quando estávamos a fazer o vídeo para a apresentação do Aparelho de Estado, pediram-me para descrever, numa palavra, o que era ser de esquerda. Respondi: optimismo. Não gosto da resposta, mas foi o que espontaneamente me saiu. Dito assim, parece que a esquerda (a minha esquerda, pelo menos) precisa de ser temperada com realismo - e o realismo é a direita, claro. O optimismo, ingenuidade, idealismo são tipicamente associados a um certo tipo de carácter individual, um temperamento caracterizado por voluntarismo excessivo e irresponsável, que não reconhece os condicionalismos do real e a verdade da natureza humana.

Quando as pensamos as pertenças ideológicas deste modo, isto é, através de atitudes subjectivas, é inevitável que a análise política se transforme num derivado da psicanálise. Curar o esquerdismo - ou o direitismo - passaria, assim, por compreender as causas (traumáticas, claro) de tal fixação. O Paulo Tunhas , por exemplo, fez uma análise deste tipo quando procurou "compreender" aquilo que ele pensa ser a Posição da Esquerda Face ao Terrorismo (assim, em maiúsculas). A sua conclusão é óbvia, pois já estava implicitamente contida no modo como decidiu abordar o tema: quem é de esquerda ainda não conseguiu ultrapassar os traumas da infância, e recusa-se a reconhecer a realidade dos factos. E assim se reduz uma opção política a uma deficiência cognitiva, a uma espécie de patologia.

Reparem como se pode fazer um exercício semelhante para a direita. Todas as putativas virtudes da direita - responsabilidade, realismo, sobriedade, cepticismo, prudência - podem ser reduzidas a traumas, recalcamentos e fobias. Mas será que interessa ir por aí no debate esquerda-direita? Não será um caminho estéril? Penso que sim. Para além da inevitável desqualificação do adversário, o problema principal da "psicologização" do debate político é que este tende a esquecer uma coisa fundamental: a realidade que uns e outros usam para atirar à cara do adversário é ela própria um objecto de interminável debate político.

Aquilo que realmente distingue a esquerda e a direita não é uma atitude emocional subjectiva perante um universo objectivo de factos. O que nos distingue são as narrativas contraditórias sobre o nosso passado, presente e futuro. Ou seja, interpretações contraditórias sobre a nossa condição ou realidade histórica. Para que um debate entre esquerda e direita não se transforme numa gritaria estéril entre claques, torna-se absolutamente necessário que exista uma permanente tarefa de mediação e, eu sei que isto é piroso, reconhecimento do Outro. Por outras palavras, sem mediação a política reduz-se a uma luta pelo poder, onde só se contam espingardas.

Achar que as coisas podem ser diferentes do que são é, perdoem-me o auto-elogio, um favor que a esquerda faz à direita. Sem querer desqualificar ninguém, a direita tende a concordar com Hobbes, que tem uma visão sombria e pessimista da existência humana e que desvaloriza a dimensão criativa do debate democrático. Em política, diz-nos Hobbes, só conta o poder e o combate pela preservação da vida. Isto é pouco animador e impõe certas opções políticas como sendo necessidades. A esquerda discorda, pois não aceita qualquer tipo de visão fatalista da realidade social. A esquerda tende a olhar para a realidade e a ver também possibilidade: o futuro não é nem tem de ser uma interminável repetição do presente. Mas é preciso acrescentar o seguinte: eu acho que a direita não tem razão, não porque estejam errados, mas porque a responsabilidade e a liberdade humana não são compatíveis com qualquer tipo de resignação fatalista. A esquerda deve dizer à direita que a realidade e a natureza humana, que eles tanto sacralizam, não está inscrita no cosmos nem existe independentemente de nós. Era bom que a direita fosse capaz de aceitar isto, e que reconhecesse, de uma vez por todas, a irredutível responsabilidade humana pela sua condição e pelo seu destino colectivo. (cont.)

Palavras-chave  Blogues, Política, Portugal 2009
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está cá tudo dito
james10 (seguir utilizador), 1 ponto , 0:24 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
Excelente post.

Aguardo o resto.
 
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O fatalista
Sofiavrocha (seguir utilizador), 1 ponto , 9:27 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
João, se o teu artigo vai continuar, eu vou esperar pela continuação e criticar só no final.
Vou dar-te corda para te enforcares, basicamente.
Continua.
 
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    direita versus esquerda    Ver comentário
lalande (seguir utilizador), 1 ponto , 10:11 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
Mas é tudo ao contrário
Calmeirão Esteves (seguir utilizador), 1 ponto , 10:17 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
A direita é construtiva, empreendedora, assertiva e optimista. Tem uma ética de premiar o trabalho e a iniciativa, por isso valoriza a liberdade e o mercado. A direita moderna é hoje inclusivamente uma gestora mais eficiente do estado social europeu.
A esquerda é negativa, subsidio-dependente, burocrática. A esquerda é centralista porque é desconfiada. É curioso verificar o caricato caso português, em que os partidos que dizem ser da "esquerda verdadeira", têm todos líderes com antecedentes anti-democráticos: pessoas que acreditavam em soluções ditatoriais. E tenho ainda muitas reservas sobre aquilo que pensam hoje sobre a democracia.
 
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Esquerda e direita são classificações datadas
heteron (seguir utilizador), 1 ponto , 11:19 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
Esquerda e direita são classificações datadas, insistir nelas é apostar em esquemas obsoletos. O paradigma mudou, actualmente lutamos pela sobrevivência do planeta e de valores humanos mais cooperativos, do que competitivos. Somos cada vez mais planetários e isso tem consequências nas sínteses cognitivas deliberativas, para o melhor ou para o pior..., permanecer no passado, para além da eficácia ligada às aprendizagens é imprudente. Importa o futuro, importa o "tempo agora" (utilizando um termo de Peter Beamish), é neste "tempo agora" com as autoreferências enactivas de agora que é preciso pensar e trabalhar..., estes posts são uma treta, são mais do mesmo, só servem para empastelar são um atrito que contribui para não se sair da ontologia bifurcante, em que nos encontramos...

 
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re: heteron
JoãoGalamba (seguir utilizador), 1 ponto , 17:25 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
"Esquerda e direita são classificações datadas, insistir nelas é apostar em esquemas obsoletos"

Acho que os membros do Aparelho de Estado vão tentar provar que o Heteron não tem razão.
 
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    Re: re: heteron    Ver comentário
heteron (seguir utilizador), 1 ponto , 18:18 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
    Re: re: heteron    Ver comentário
nunomguedes (seguir utilizador), 1 ponto , 20:38 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
    Re: re: heteron    Ver comentário
Maria Odete (seguir utilizador), 1 ponto , 21:55 | Quinta feira, 30 de julho de 2009
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