Expresso 40 Anos
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Espreite dez das muitas fotos que fazem a segunda Revista especial dos 40 anos do Expresso

A segunda Revista que marca os 40 anos do Expresso já está nas bancas. A escolha das fotografias é de Alberto Frias, o segundo editor fotográfico do Expresso, que recorda o período entre 1983 e 1992.
www.expresso.pt

 


Foto 1: UM PAÍS DE EXTREMOS

No início da década de 80, Portugal sofreu uma seca generalizada, que no verão de 1983 deixa as barragens vazias - como mostra esta imagem, na barragem de Belver, no distrito de Portalegre. O terreno ressequido é imagem de uma dura beleza, mas nas brechas abertas esvaem-se também as esperanças e as colheitas de agricultores. Secam as forragens e falta água para o gado, num país muito dependente do sector primário. Mas, como diz o povo, não há fome que não dê em fartura. A tão desejada chuva cai a potes meses depois. Na região de Lisboa, a 19 de novembro de 1983, ocorrem as piores enxurradas desde 1967 (nas quais morreram centenas de pessoas). Agora há 10 mortos confirmados. Na catástrofe ficam à tona tremendos erros de ordenamento urbanístico, como a construção em leito de cheia e a impermeabilização indevida de solos - na fotografia, a várzea de Loures. Erros humanos a potenciar os riscos num país, apesar da pequena dimensão, onde a Natureza é de extremos. Reza o provérbio: "Há sol que rega e água que seca". Por vezes a sabedoria popular engana-se.

 



Foto 2: EMIGRANTES PORTUGUESES EM PARIS

Foi na década de 60 do século XX que se atingiu o pico da emigração lusitana, principalmente para França. Os portugueses encontravam na ida para o estrangeiro uma escapatória para melhorar a vida. Em 1983, o eldorado tarda em chegar à família Campos, da Beira Alta. Vivem em Saint-Denis, nos arredores de Paris, numa "cité de transit" (bairros criados para instalar os habitantes dos antigos "bidonvilles", por um período temporário que se foi tornando definitivo). No "La Pampa" acantonam-se sobretudo portugueses, mas também espanhóis. A família Campos passa por sérias dificuldades. O pai está doente e desempregado, a mãe fica em casa a tratar da lida e dos filhos, ainda menores.

 



Foto 3: NOSOTROS CON LA EUROPA

Após a sessão nos Jerónimos, o estado-maior da política europeia desloca-se no mesmo dia para Madrid, onde a Espanha também se engalanava para entrar na CEE. À noite, depois das cerimónias oficiais, vive-se a fiesta. Como sempre, Soares sente-se como peixe na água. O sonho europeu é então uma realidade para os vizinhos ibéricos e coisas como um resgate nem se imaginam no pior dos pesadelos.

 



Foto 4: SOARES: UMA AGRESSÃO QUE DEU VOTOS

Soares parecia um perdedor antecipado. Apeado do Governo, vira o PS esmagado nas legislativas de outubro de 1985, tinha contra si um líder do PSD em ascensão, um Presidente em fim de mandato a manobrar na sombra e, sobretudo, uma parte da família socialista ao lado de Salgado Zenha. No começo da corrida, Soares tinha só 8% nas sondagens. Depois, foi sempre a subir. O grande empurrão foi dado a 15 de janeiro de 1986 na Marinha Grande, tradicional feudo do PCP, quando o candidato oficial do PS é alvo de agressão (que não chegou a ser consumada, todavia). Soares ganha o mano a mano com Zenha (25% contra 21%) e passa à segunda volta. Nela teria o apoio do PCP, quando Cunhal convenceu os militantes a "engolir o sapo". Na reta final da disputa com Freitas, o homem que obrigara duas vezes os portugueses a "apertar o cinto" apelou ao "povo de esquerda". Mas a chave suplementar do triunfo encontrou-a na capacidade de se mostrar como um combatente pela liberdade e, ao mesmo tempo, digamos... um tipo afável, bonacheirão, até. "Soares é fixe!"

 



Foto 5: ESPÍRITO DE WINDSOR

Entre 11 e 14 de fevereiro de 1987, os príncipes de Gales visitam Portugal. Na imagem, Diana e Carlos de Inglaterra ao lado de Cavaco Silva e Maria Cavaco Silva. Dois anos após uma visita de Estado da Rainha Isabel II, a primeira da chefe de Estado britânica depois da instauração da democracia em Portugal, é agora a vez do herdeiro do trono. Por essa altura, Lady Di já era uma das personalidades mais procurada pelos fotógrafos, mas os problemas na vida matrimonial dos príncipes de Gales não faziam ainda as primeiras páginas dos tabloides. Carlos e Diana voltariam a Portugal no ano seguinte, por ocasião das celebrações do 6º centenário do Tratado de Windsor, a mais antiga aliança diplomática do mundo em vigor.

 



Foto 6: CHIADO EM CHAMAS

Na madrugada de 25 de agosto de 1988, o coração de Lisboa acorda em sobressalto, devorado pelas chamas. Um incêndio deflagra na Rua do Carmo e alastra rapidamente: os carros dos bombeiros não conseguem entrar, pois aquela via está obstruída. O obstáculo são umas floreiras plantadas no eixo da rua - uma polémica obra do presidente Krus Abecasis. Propaga-se depois noutras direções, entre as quais à Rua Nova do Almada (na fotografia do plano anterior). A partir do castelo de São Jorge (imagem ao lado) vê-se bem a força destruidora das chamas, que engolem lojas e escritórios, alguns deles em edifícios do século XVIII. O Chiado nunca mais foi o mesmo e Lisboa também não. A zona tinha então ainda uma forte centralidade, para lazer e compras - o centro comercial das Amoreiras era recente, sendo então a única grande superfície do género na capital.

 



Foto 7: TIANANMEN: UM TOTEM DA LIBERDADE

Em maio de 1989, encorajados pela visita a Pequim do Presidente soviético, Mikhail Gorbatchov, centenas de milhares de estudantes chineses manifestam-se na Praça Tiananmen, exigindo democracia no país. A repressão do regime é brutal, com tanques na rua e tropa a disparar sobre civis. Nunca se soube ao certo o saldo da matança: talvez um milhar de mortos, talvez vários. Muitas foram também as detenções. Na manhã seguinte ao massacre, os tanques continuam a ditar as leis. Na imensidão da praça, um homem faz frente à coluna. Durante um quarto de hora tenta barrar o avanço dos militares. Nunca se soube a sua identidade, nem o que lhe aconteceu a seguir. Se há imagens que permanecem vivas na retina coletiva esta é uma delas, e o chinês desconhecido é um símbolo da liberdade para todo o mundo. Vinte e três anos depois, a democracia ainda não chegou ao Império do Meio e o respeito pelos direitos humanos é conceito intraduzível para chinês. Curiosamente, o facto de o manifestante não ter sido esmagado pelos tanques fez que o regime de Pequim tenha usado esta mesma imagem para dizer que nunca houve qualquer tipo de chacina em Tiananmen.

 



Foto: 8 SECOS & MOLHADOS

A 21 de abril de 1989, manifestantes que exigem mais direitos sindicais - folga semanal, direito de defesa na justiça disciplinar, melhoria nas remunerações e nas condições laborais - são reprimidos no Terreiro do Paço, em Lisboa. Tudo normal, não fossem polícias a ser metidos na ordem por polícias - com canhões de água e à bastonada. O confronto entrou na história, e no anedotário lusitano, como Secos & Molhados. Em boa verdade, os contendores distinguiam-se sobretudo pelo aspeto da farda - com os sindicalistas encharcados. Cavaco Silva declarou que o movimento estava instrumentalizado por forças "extremistas", de que faziam parte "comunistas e alguns socialistas". Quando a PSP iniciava uma renovação geracional (efetivos mais jovens e com escolaridade superior), o incidente permitiu perceber que, afinal, havia "polícias de rosto humano", gente como nós.

 



Foto 9: E UM DIA O MURO FOI MESMO ABAIXO

No outono de 1989, os graffiti coloridos são já um prenúncio dos tons da festa que se adivinha. Polícias da Alemanha Federal vigiam o muro, junto à Porta de Brandenburgo, sem que se veja vivalma, mas a calma é apenas aparente. Símbolo de duas visões do mundo, o muro de Berlim cai a 9 de novembro de 1989. Três dias depois (imagem da direita), continua a euforia popular, junto à Potsdamer Platz. No verão surgira a primeira brecha na Cortina de Ferro, quando a Hungria cortou o arame farpado que a separava da Áustria. Encorajados por Gorbatchov, os alemães de Leste intensificaram os esforços para chegar ao Ocidente, levando o Governo da RDA a ceder. Rasgado o muro, a sucessão de acontecimentos é vertiginosa, com a queda de outros regimes no Leste da Europa. Um ano mais tarde a Alemanha estará reunificada e faltará pouco para a desintegração da União Soviética. O sonho comunista chega ao fim.

 



Foto 10: MANDELA EM LIBERDADE

A 11 de fevereiro de 1990, chega simbolicamente ao fim o regime de apartheid na África do Sul, com a libertação de Nelson Mandela, o líder histórico do ANC (na imagem, ao lado da então mulher, Winnie). Mandela foi o preso 46664 (o nº 466 do ano de 64) da prisão da Ilha de Robben, onde passou 27 anos. No processo exemplar de transição vivido na África do Sul, que haveria de consagrar Mandela como Presidente num escrutínio livre e universal, cada voto contando o mesmo independentemente da cor da pele do eleitor, foi decisivo outro político: Frederik de Klerk, o último Presidente do regime de segregação racial, iniciado em 1948. Na altura em que Mandela voltava a respirar o ar da liberdade, um líder de um movimento político de sul-africanos negros, Oscar Mpetha, afirmava ao Expresso: "A tampa da caixa foi aberta. Não há hipóteses de voltarem a fechá-la".

 



Foto 11: A GUERRA À DISTÂNCIA

No esforço de países ocidentais durante a Guerra do Golfo, militares portugueses participaram em missões de patrulhamento no Mediterrâneo Oriental. Embora tivessem como destino uma zona relativamente afastada do verdadeiro palco do conflito, a despedida entre familiares antes da partida para a guerra é sempre um momento duro. Como esta mulher e o filho, abraçados em Lisboa, que não se querem separar.



Comentários 2 Comentar
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Foi há pouco
Mas já sente e muito a falta de Miguel Martins nesta direcção do Expresso.
Há Homens e homens?
Bom trabalho do Expresso
Profissional e a não perder.
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