Espiões: Portugal acorda colombiano
Estamos tão metidos no bailarico das contas e da dívida, que acabámos por não dar a devida atenção ao caso das secretas. O interesse público económico abafou o interesse público institucional. Um hábito muito português, diga-se. Mas vamos lá olhar para os factos que estão em cima da mesa: na semana passada, este jornal mostrou que um figurão da Ongoing conseguiu transformar os serviços de informação da República numa agência de detectives privados. Ora, isto é uma coisa sul-americana. O México aterrou nos nossos serviços de informação e nas instituições que deviam fiscalizar esses serviços.
Esta sucessão de casos não pode ficar em águas de bacalhau. Portugal é uma república da UE, não é um bocado da Colômbia que por acaso deu à costa no Atlântico Norte. De forma urgente, nós precisamos de repensar os modelos de fiscalização dos serviços, seguindo a deixa do PCP, por exemplo. Depois, as elites políticas e mediáticas têm de repensar a forma como os directores dos serviços são nomeados. Existe uma ligação demasiado próxima entre o cargo de primeiro-ministro e os chefões das secretas. E esta ligação umbilical não é própria da democracia . Além disto, esta questão leva-nos para uma possível partidarização das secretas. Se x foi nomeado pelo governo PS e se y foi nomeado por um governo PSD, é óbvio que x e y podem ficar presos nas tais clientelas partidárias. Pior ainda: em períodos de transição de poder, estas questiúnculas do bloco central podem dar cabo dos serviços de informação.
Moral da "estória": é fundamental tirar a nomeação dos directores das secretas da alçada dos governos. No nosso sistema político, a nomeação e fiscalização destes serviços podia perfeitamente cair sobre a alçada de Belém. O semipresidencialismo não é só para aparecer no Facebook.
PS: eu também gostava de ter um espião a servir de detective privado. Como é que isso se faz?


