19 de junho de 2013 às 2:55
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Espanha: uma economia, dois sistemas

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

No que é fundamental, não há nada de diferente entre o que sucedeu com Irlanda e com Espanha. Também o Estado irlandês não tinha qualquer necessidade de financiamento, já que, quando aceitou o resgate, não estava obrigado a ir aos mercados. Aceitou o resgate à banca - e não ao país - porque a Europa a isso o obrigou. O País ficou falido para salvar os bancos dos efeitos das suas próprias loucuras.

Só que a Espanha é 4ª economia da Europa. Foi por isso dispensada do castigo que a Europa oferece àqueles que "resgata", Irlanda incluída. E esta é a primeira evidência que o resgate da banca espanhola revela sobre a política europeia: trata os Estados membros de forma diferente, conforme o seu poder. Assim como já tratara a Alemanha e a França de forma diferente de outros países quando foram os primeiros Estados a violar os limites do défice.

Depois de anos a alimentar a bolha imobiliária, a irresponsabilidade dos banqueiros espanhóis será paga, com juros, pelos contribuintes espanhóis. Infelizmente, não tiveram direito à redistribuição dos lucros, quando eles existiam. É a segunda evidência das regras dos interesses da finança que governam a Europa: uma economia, dois sistemas. Para o lucro vivemos no capitalismo da livre iniciativa, onde as empresas fazem o que querem sem qualquer limite de regulação. Para o prejuízo vivemos numa economia socializada, onde os Estados, as instituições europeias e os contribuintes são chamados a pagar a fatura.

Poderão dizer que são as novas regras de recapitalização da banca que obrigam a estas intervenções. Apesar do socorro público à banca ser-lhe anterior, aceitemos que as regras são fundamentais para a saúde do sistema financeiro e que ela é fundamental para o futuro das nossas economias. Das duas uma: ou a banca está em condições de, sozinha, garantir a sustentabilidade do sistema que a alimenta ou o Estado intervém de forma consequente. E a única forma consequente de intervir é esta: onde o Estado põe o dinheiro dos contribuintes o Estado, representando esses mesmos contribuintes, manda. Ou temos uma banca privada, no lucro e no risco, nos bons e nos maus momentos, ou nacionalizamos - a propriedade ou a capacidade de decisão - os bancos.

Quando falo da nacionalização da banca, logo que me caem em cima com postulados ideológicos. A resposta é clara: a nacionalização já se fez. A da fatura, claro está. A desregulação financeira deixou os contribuintes debaixo de uma chantagem: ou pagam, ou afundam-se com os bancos. Não valerá a pena chorar sobre o leite derramado. O problema é que nada mudou. O resgate pago pelos contribuintes não tem qualquer contrapartida. Nem os Estados cuidam de impor condições em relação ao crédito à produção, pondo o dinheiro que gastam a ajudar a economia, nem os governos garantem um controlo do que se passa na banca. Aquilo a que assistimos é a um saque. Um saque que foi naturalizado. E em que os Estados parecem sofrer o "síndrome do Estocolmo": afeiçoaram-se aos seus próprios sequestradores.

Quando ouvimos o ministro da Economia espanhol anunciar o resgate à banca, não podemos deixar de nos recordar quem é Luis Guindos: conselheiro assessor da Lehman Brothers para a Europa e diretor da filial ibérica daquela instituição financeira, de 2006 até 2008, ano da falência de uma das instituições com maiores responsabilidades na crise económica mundial. O advogado do interminável banquete para a banca tem sido um dos principais defensores da austeridade para os cidadãos, que Rajoy vende como razão para a não existência de uma intervenção externa que apenas ele não reconhece estar a acontecer.

A chegada de Guindos a um governo europeu representa o assalto ao poder político por parte dos criminosos. Como podemos nós corrigir os erros do passado quando os que o deviam fazer são avençados dos responsáveis por este desastre?

Comentários 36 Comentar
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Como é que é mesmo DO?
Pergunto-me até quando é que um jornal de referência vai continuar a ter croniquetas semelhantes a esta?

DO mais não faz do que tecer críticas a torto e a direito contra tudo o que lhe dá jeito, a si e à sua agenda política.

É graças a essa desonestidade intelectual e política que o povo português não o vê, nem ao Anacleto como verdadeiras alternativas.

Para DO, deixar cair tudo é que era bom.

Até quando é que quanto pior é melhor para DO?

As críticas de DO são mesmo de DÓ.
Re: Como é que é mesmo DO? Ver comentário
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Não será isso cassete sua' Ver comentário
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Ok, agora liste lá as mentiras Ver comentário
Re: Ok, agora liste lá as mentiras Ver comentário
Os fantasmas de DO
Os bloquistas vêem fantasmas por todo o lado,mas basta olhar os factos e não ter mêdo : o imobiliário entrou no vermelho,ã banca espanhola não tem dinheiro e é preciso resolver o buraco.
E é disso que se trata: a Europa empresta o dinheiro, a Espanha tem um Governo sério e o assunto ficará resolvido.
O resto é a especulação do costume e a hipocrisia da esquerda socialista e comunista que tendo estado na governação não é capaz de fazer autocrítica dos seus erros e reconhecer que falhou.
Em Espanha como em Portugal, no tempo desgraçado do palanque da mentira e demagogia de Sócrates.
Re: Os fantasmas de DO Ver comentário
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A CULPA? É DO SISTEMA!
Traumatizado vc NÃO quer jamais perder o comboio… as sequelas das sucessivas derrotas impõem q toda e qualquer possibilidade seja aproveitada. Hoje brinda-nos com uma novela dos maus e muito maus e sobre o q interessa e as suas consequências, nada. O resgate da Espanha, ou melhor o resgate da banca espanhola deu-lhe argumentos d arremesso contra o sistema em q todos vivemos e queremos continuar a viver. Efectivamente nenhum crise é igual a outra e, a haver parecenças elas fazem-se notar na Irlanda e Espanha pois em ambos o problema está no seu sistema bancário. Deixar cair os bancos era mergulhar a Europa numa crise d recuperação impossível e d consequências muito perigosas. Quer uma? A mais q provável derrota d Obama. Essa dicotomia contribuintes/ banca só existe na sua cabeça pois sem uma a outra não existe e vice-versa; tudo é e está interdependente. Não invoque a Islândia pois não se trata d um país relevante no q quer que seja; a sua população não enche os estádios do RM, Barcelona e Atlético de Madrid. Acresce q o peso d ambos os países não é igual pelo q não se pode comparar uma borbulha com um tumor. Espanha é a 4ª economia da zona € e este facto não pode ser ignorado em qualquer análise sobre os últimos acontecimentos. O problema espanhol, herdado d uma irresponsável governação também socialista, está nas autonomias. Catalunha, Comunidad d Valencia y País Basco são autonomias em estado de pré falência. O voluntarismo reformista do actual governo tem sido d uma ...
Re: A CULPA? É DO SISTEMA! 2 Ver comentário
Até poderia concordar...
Eu até poderia concordar com a opinião do Sr. DO. Aliás, concordo na sua essência: interessa o Estado quando é necessário ir socorrer os bancos.
Só não concordo com o artigo em 2 ou 3 pontos que fazem toda a diferença.
Primeiro: não se pode forçar uma raposa a ser vegetariana. Logo, não se mistura a raposa com as galinhas. Ou seja, a essência dos bancos (e de qualquer empresa) é a remuneração dos seus accionistas. pensar que pode ser de outra forma é estar-se a enganar-se a si próprio. O Estado é que deve regular a banca, não o contrário.
2) A economia tem crescido ao longo dos tempos devido a uma liberalização do sistema financeiro. Da mesma forma, problemas no sistema financeiro emperram a economia. Nem 8 nem 80. Nem o Estado deve desregular totalmente o sistema financeiro, nem o deve controlar e gerir. Deve sim, supervisionar, corrigir abusos e prever problemas. Manifestamente, não o foi feito. Por incompetência ou pressão da banca, a culpa é dos políticos.
3) Sem ajuda ao sistema financeiro, a economia NÃO vai recuperar. Mas, os estados têm de saber ajudar para mais tarde cobrar. Da mesma forma que superávits das contas públicas quando a economia vai bem têm de se suceder a déficits quando a economia precisa de ajuda. Também não tem sucedido. por incompetência ou por subjugação à banca, a culpa só pode ser dos políticos.
Como se vê, a culpa é do(s) Estado(s) que não sabem ser Estado(s). Entre a tendência de deixar andar e o controle aboluto, não existe meio termo.
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Re: Até poderia concordar... Ver comentário
Re: Até poderia concordar... Ver comentário
Concordância
Concordo com DO na diferença de tratamento. Acredito que não seja só a dimensão económica, mas também o receio de conflito, que tenham parido esta versão soft. Salva-se a face ao orgulho espanhol e evitam-se males maiores. Se os famosos mercados forem na conversa, porque se o estado tiver que pagar juros altos, lá voltamos à estaca zero.

As suas notas sobre a banca parecem razoáveis, mas, como já aqui foi referido, quem tem obrigação de regular o sector é o estado. Como é que só agora estão a acordar para a necessidade dos capitais próprios ??

Aliás, pelo que se tem lido, toda esta crise é originada na banca desde os USA até à Europa, que fizeram empréstimos a torto e a direito, ganharam dinheiro que nem perdidos e , agora que a bolha rebentou, serão os contribuintes a pagar.

Entretanto os montes de milhões que accionistas e administradores puseram a bom recato em paraísos fiscais, estão de pedra e cal.

Ou esse sector da banca é regulamentado e fiscalizado com rédea curta, ou broncas destas podem repetir-se.
Accionistas com benefícios pagos pelo contribuinte
Estas intervenções na banca em nome do interesse comum têm a particularidade de favorecerem os interesses particulares dos detentores dos capitais das entidades bancárias intervencionadas que vêm as suas acções valorizadas quando estas tenderiam para valor zero, caso se verificasse a quase inevitável insolvência, das instituições em causa. Não discordando destas injecções de capitais públicos, entendo que quem, por tabela, obtêm estes ganhos devia-os devolver ao estado, nem que fosse sobre a forma de imposto.
Caro DO: dizia ontem o professor "Martelo" que ..
... o Estado Português emprestava aos Bancos a 8% e paga à Troika a 4%. Assim sendo até é um bom negócio para o contribuinte! Por outro lado parece-me que o Estado irá ter dois Administradores nos Bancos intervencionados.

No caso de Espanha ainda não se conhecem bem as condições específicas, mas eu não acredito que "nuestros hermanos contribuintes" não vão ganhar tambérm com a ajuda que vão dar aos bancos Espanhois (ajuda dada com dinheiro emprestado hehe).

Mas concordo que, no limite, é o Zé-Paga-Tudo que paga uma boa parte das "favas" pelos desmandos da alta finança. De alguma forma poderiamos até generalizar dizendo que é sempre o mesmo burro de carga (o contribuinte...) a "alangar" com as consequências dos desmandos das várias elites: políticas, financeiras, económicas, ...

Os problemas do costume
Infelizmente e mais uma vez não se está a dizer a verdade. Generalidades e não a verdadeira radiografia do que levou bancos que antes distrobuiam lucros fabulosos a precisarem aqgora de quantias fabulosas para se recapitalizarem.
É evidente que a banca não se enterrou a emprestar dinheiro à economia real. O problema é que em vez disso procuraram e julgaram terem encontrado o segredo dos alquimistas e de instrumentos estranhos que mais pareciam compostos quimicos misteriosos quiseram fazer o ouro para alimentar uma sociedade que está doente há muito tempo.
O paradigma tem de mudar. Uma mudança que eu esperava no "Day-after" à crise de 2007. Mas nada e com os últimos desenvolvimentos também não me parece que seja agora. Tavez a vitória da esquerda renovada na Grécia possa por em marcha essa mudança que muitos reconhecem como necessária mas que poucos tem coragem para empreende-la.
Burros ou muito estúpidos!
Qual é a parte do texto do DO que está errada? Quais os factos dos últimos meses ou mesmo dos últimos 3/4 anos? Há aqui alguma mentira? Isto não demagogia ou mesmo qualquer presunção ideológica. Isto são factos! E confundir o que está escrito aqui com ilusões ideológicas e fantasmas dos comunistas e bloquistas é de uma pobreza intelectual que até dá pena. Como um amigo meu dos EUA dizia; "vocês portugueses não são pobres, são estúpidos"!
Re: esse teu amigo deve ser Sioux Ver comentário
Re: esse teu amigo deve ser Sioux Ver comentário
Re: volta prá casota Ver comentário
E tu recolhe-te ao estábulo Ver comentário
Re: esse teu amigo deve ser Sioux Ver comentário
Re: esse teu amigo deve ser Sioux Ver comentário
Que baixaria de carácter Ver comentário
Re: Burros ou muito estúpidos! Ver comentário
Onde está a virtude
Se emprestam muito, os banqueiros são irresponsáveis, se cortam no crédito são irresponsáveis, se praticam juros altos são irresponsáveis, se praticam juros baixos são irresponsáveis, vá lá a gente saber onde está a virtude.
Re: Onde está a virtude Ver comentário
Censura e mais censura.

Este jornal está a tornar-se cada vez mais um balde do lixo on-line.

A censura entrevê continuamente.
Tu podes dizer tudo a não ser a verdade.

Há acerca duma hora, escrevi um comentário no artigo titulado "Os custos 'escondidos' do megarresgate a Espanha" convidando os espanhóis a não serem seduzidos porque este mega endividamento (a palavra resgate é apenas um silogismo sem sentido).
Que este dinheiro serve para os bancos e serão os contribuintes a pagar os erros e a fome de massa de outrem. E eles dizem o destino deste resgate sem vergonha alguma.
Bravos!

Penso que o artigo de hoje por Daniele pode ser reassumido tomando esta frase dele:
"O problema é que nada mudou". E o resultado está a vista....

Eu gostava de adiantar que com o andar do tempo as coisas vão pejorando.

O que DO não equaciona
Concordo em geral com as afirmações de DO mas acho que ao comparar situações está a ignorar aspectos muito importantes como a situação política dos países no momento do resgate, as reformas que possam ter sido implementadas antes de cada resgate e a conjuntura em que ocorre o resgate.
Sobre a situação política é sabido que um resgate durante uma crise política, como aconteceu na Irlanda, em Portugal e no 2º resgate à Grecia, aumenta o custo e as exigências do empréstimo implicando o compromisso da parte mais significativa do espectro partidário.
Sobre as reformas feitas antes do resgate, há que reconhecer que Espanha (devido à sua estabilidade política e ao tempo de crise que leva) fez mais que qualquer outro estado resgatado. Quem só faz reformas com a troika a governar paga, evidentemente, mais caro.
Sobre o contexto, a liderança europeia por parte da Alemanha vai dando mostras de maior sensibilidade para confinar o caso grego a uma situação isolada de um país ingovernável e incorrigível, ou seja, um poço sem fundo.
Se o governo Português for capaz de combater os muitos lobbies que mandam em Portugal tal como a troika exige, pode ser que tenhamos possibilidade de renegociar algo. Caso se fique apenas pelo mais fácil que é aumentar impostos e taxas e roubar subsídios aos FPs então pouco poderá negociar na medida em que Portugal dificilmente deixará de ser um poço sem fundo sem a troika a governar.
   
Re: O que DO não equaciona Ver comentário
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