Espanha: uma economia, dois sistemas
No que é fundamental, não há nada de diferente entre o que sucedeu com Irlanda e com Espanha. Também o Estado irlandês não tinha qualquer necessidade de financiamento, já que, quando aceitou o resgate, não estava obrigado a ir aos mercados. Aceitou o resgate à banca - e não ao país - porque a Europa a isso o obrigou. O País ficou falido para salvar os bancos dos efeitos das suas próprias loucuras.
Só que a Espanha é 4ª economia da Europa. Foi por isso dispensada do castigo que a Europa oferece àqueles que "resgata", Irlanda incluída. E esta é a primeira evidência que o resgate da banca espanhola revela sobre a política europeia: trata os Estados membros de forma diferente, conforme o seu poder. Assim como já tratara a Alemanha e a França de forma diferente de outros países quando foram os primeiros Estados a violar os limites do défice.
Depois de anos a alimentar a bolha imobiliária, a irresponsabilidade dos banqueiros espanhóis será paga, com juros, pelos contribuintes espanhóis. Infelizmente, não tiveram direito à redistribuição dos lucros, quando eles existiam. É a segunda evidência das regras dos interesses da finança que governam a Europa: uma economia, dois sistemas. Para o lucro vivemos no capitalismo da livre iniciativa, onde as empresas fazem o que querem sem qualquer limite de regulação. Para o prejuízo vivemos numa economia socializada, onde os Estados, as instituições europeias e os contribuintes são chamados a pagar a fatura.
Poderão dizer que são as novas regras de recapitalização da banca que obrigam a estas intervenções. Apesar do socorro público à banca ser-lhe anterior, aceitemos que as regras são fundamentais para a saúde do sistema financeiro e que ela é fundamental para o futuro das nossas economias. Das duas uma: ou a banca está em condições de, sozinha, garantir a sustentabilidade do sistema que a alimenta ou o Estado intervém de forma consequente. E a única forma consequente de intervir é esta: onde o Estado põe o dinheiro dos contribuintes o Estado, representando esses mesmos contribuintes, manda. Ou temos uma banca privada, no lucro e no risco, nos bons e nos maus momentos, ou nacionalizamos - a propriedade ou a capacidade de decisão - os bancos.
Quando falo da nacionalização da banca, logo que me caem em cima com postulados ideológicos. A resposta é clara: a nacionalização já se fez. A da fatura, claro está. A desregulação financeira deixou os contribuintes debaixo de uma chantagem: ou pagam, ou afundam-se com os bancos. Não valerá a pena chorar sobre o leite derramado. O problema é que nada mudou. O resgate pago pelos contribuintes não tem qualquer contrapartida. Nem os Estados cuidam de impor condições em relação ao crédito à produção, pondo o dinheiro que gastam a ajudar a economia, nem os governos garantem um controlo do que se passa na banca. Aquilo a que assistimos é a um saque. Um saque que foi naturalizado. E em que os Estados parecem sofrer o "síndrome do Estocolmo": afeiçoaram-se aos seus próprios sequestradores.
Quando ouvimos o ministro da Economia espanhol anunciar o resgate à banca, não podemos deixar de nos recordar quem é Luis Guindos: conselheiro assessor da Lehman Brothers para a Europa e diretor da filial ibérica daquela instituição financeira, de 2006 até 2008, ano da falência de uma das instituições com maiores responsabilidades na crise económica mundial. O advogado do interminável banquete para a banca tem sido um dos principais defensores da austeridade para os cidadãos, que Rajoy vende como razão para a não existência de uma intervenção externa que apenas ele não reconhece estar a acontecer.
A chegada de Guindos a um governo europeu representa o assalto ao poder político por parte dos criminosos. Como podemos nós corrigir os erros do passado quando os que o deviam fazer são avençados dos responsáveis por este desastre?


