A divulgação de uma conversa privada entre o ministro português das Finanças, Vítor Gaspar, e o seu homólogo alemão, Wolfgang Schäuble, transformou-se no facto político da semana: a tradicional recolha de imagens antes dos conselhos de ministros à porta fechada permitiu a um repórter da TVI captar um diálogo onde o ministro alemão admitia, num tom sussurrado, a possibilidade de se avançar para uma suavização ao plano de austeridade em Portugal.
Além do natural impacto no plano político e económico, a captação e divulgação destas imagens levantou também questões deontológicas: podem os meios de comunicação social divulgar conversas privadas dos lideres políticos?
A TVI justificou a emissão da peça com a informação relevante que a mesma continha, mesmo não tendo as palavras de Gaspar e Schauble sido gravadas com a permissão de ambos. Mas as fronteiras da legalidade não são claras e a Alemanha está já a ponderar a possibilidade de impedir recolhas de imagens em futuros conselhos de ministros.
O Expresso está a recolher depoimentos de jornalistas, críticos e comentadores e para saber quais as suas opiniões sobre o tema.
Jornalismo precisa de coerência
A conversa entre o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, e o seu homólogo português, Vitor Gaspar, tem um óbvio interesse público: ajuda a diferenciar a situação portuguesa da grega; a compreender como a dureza da posição alemã se relaciona com as suas próprias dificuldades políticas internas; a posicionar o problema gravíssimo dos países endividados no contexto de uma união europeia profundamente enfraquecida, dividida e, no entanto, totalmente interdependente.
Seria um bom ponto de partida para um jornalismo sério, que procurasse ajudar as pessoas a compreender o absurdo da atual crise e confrontar os governantes com o impacto que as suas decisões têm em milhões de pessoas. Mas para isso era preciso mais do que apontar uma câmara e um microfone para uma interação que, embora decorrendo num espaço semi-público, ou pelo menos, fortemente mediatizado, era privada.
A sua transmissão pela TVI e, depois, a reprodução viral pelos outros meios de comunicação social e pelas redes sociais, provocou uma avalanche de comentários e opiniões, aproveitamentos políticos e pedidos de esclarecimento, que vão fazer exatamente o contrário do que contribuir para o esclarecimento público. O jornalismo precisa de coerência, conhecimento e lealdade nos métodos. Só dessa forma pode ser um pilar da democracia.
Carla Baptista, docente no departamento de ciências da comunicação da FCSH-UNL
Efetivo interesse público
"O diálogo foi recolhido num local aberto aos jornalistas. Geralmente, o som não faz parte do "acordo tácito" entre TVs e políticos, sendo a recolha permitida apenas para imagens de background das notícias sobre as reuniões.
Houve, assim, um efetivo rompimento do "acordo tácito" "imagens sim, som não". Mas... as câmaras têm microfones e os políticos sabem-se alvos de câmaras com microfones.
Se os políticos querem ter conversas bilaterais da máxima seriedade, devem fazê-lo sem jornalistas presentes. Acresce que o diálogo teve um efetivo interesse público, de grande impacto para a vida coletiva dos portugueses."
Eduardo Cintra Torres, crítico de TV
Mais papista que o Papa
"Ora, o local estava aberto à imagem e os conversantes não são cidadãos comuns nem estavam em espaço privado. Mas mais importante é o facto de o ministro alemão ter dito coisas muito relevantes. Desde logo ficamos a saber que se não houver flexibilização do "nosso programa de assistência" é porque o governo teima em manter uma cruel austeridade, sacrificando os portugueses por motivos puramente ideológicos.
Veremos qual a reação do ministro à divulgação desta conversa e se o primeiro ministro continuará a dizer que "nem mais tempo nem mais dinheiro". Agora é um dos nossos "patrões" que oferece
...mais tempo...
Vítor Gaspar foi "apanhado" numa conversa que o vai comprometer perante os portugueses.
Será que vai continuar a ser mais papista que o Papa?"
Estrela Serrano, no seu blogue "Vai e Vem"
Controlar politicamente os danos
"Estou de acordo com a divulgação da informação, dado o interesse público de que se reveste. É uma situação idêntica à do WikiLeaks. Os envolvidos bem podem protestar, mas uma vez a informação divulgada já nada há a fazer, a não ser controlar politicamente os danos"
Joaquim Vieira, presidente do Observatório de Imprensa
Utilização das imagens é legítima
"A conversa entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schauble foi efetivamente "informal", como tantos órgãos de comunicação criteriosamente escreveram, na obsessão de desculpar-se pela utilização das imagens. Mas não foi privada: foi feita no exercício de cargos públicos. Note-se que não estamos a falar de Sousa Franco conversando alto com amigos num restaurante de Lisboa: estamos a falar de dois dirigentes europeus conversando sobre matérias oficiais à margem de uma reunião oficial.
A utilização das imagens não precisa, pois, de ser justificada: é legítima. A sua obtenção talvez possa ser alvo de discussão, mas por outro lado também o será a obtenção de metade das informações de que nos socorremos para escrever a história mundial.
Talvez nos inquietasse menos ver esta conversa inscrita, um dia, num livro de memórias. Eu prefiro conhecê-la já, nos jornais. Ajuda-me a perceber o momento que vivemos - e ajuda-me, já agora, a solidarizar-me com Vítor Gaspar e com as humilhações a que ele tem de submeter-se em defesa dos interesses nacionais. O meu respeito pelo ministro das Finanças cresceu exponencialmente esta semana."
Joel Neto, escritor e cronista
Aplaudo a TVI
"Concordo com a decisão da TVI de divulgar as imagens e o diálogo, e aplaudo o facto de o ter feito com as necessárias explicações e contextualização.
As exceções à regra de não utilizar gravações de conversas feitas sem conhecimento ou autorização prévia dos intervenientes não devem ser banalizadas.
Neste caso, porém - em que som e imagem foram captados num espaço aberto à comunicação social e em circunstâncias em que as figuras públicas intervenientes poderiam prever a hipótese de serem escutadas -, julgo que prevaleceram, corretamente, o interesse público da divulgação e o direito dos cidadãos à informação - não só pela muito relevante substância da conversa, como pelo facto de os dois ministros terem feito afirmações contraditórias com as que, sobre o mesmo tema, tem vindo a fazer oficialmente."
José Queirós, Provedor do Leitor do "Público"
Legítima a divulgação
"Não sei exatamente as condições em que a captação da imagem e do som foi feita. Deduzo que o episódio terá ocorrido dentro do período restrito em que as portas da reunião ministerial estão abertas aos jornalistas para tomada de imagens e sons.
A ser assim, os governantes sabem que não se encontram em espaço e momento de secretismo nem de intimidade. Na verdade, o diálogo captado é de indubitável relevância e o público fica servido com um elemento informativo que o pode ajudar a compreender os mecanismos da diplomacia.
Podia, porém, dar-se o caso de os dois ministros, sem se aperceberem de que estavam a ser filmados, travarem um diálogo mais íntimo. Se isso ocorresse, já o jornalista não estaria legitimado a divulgá-lo, pelo caráter intrusivo e ausência de relevância séria para conhecimento público. Isto é, o lugar e o momento são um requisito necessário, mas não suficiente. No caso em apreço, parece-me legítima a divulgação."
Oscar Mascarenhas, Provedor do Leitor do "Diário de Notícias"
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