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A nossa crise mental: entrevista

Adelina Barradas de Oliveira
1:07 Segunda feira, 13 de fevereiro de 2012
Ré em causa própria - A nossa crise mental: entrevista

A Nossa Crise Mental 


Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos - político, moral e intelectual?

A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma.

Eu explico. Todo o povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente.

A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.

O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo.

Ora ser tudo em um indivíduo é ser tudo; ser tudo em uma colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia.

Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita - como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova - o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar.

(Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima).

Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada.

É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si-próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise. As nossas crises particulares procedem desta crise geral.

A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 - fim da Renascença em nós e de nós na Renascença - deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses.

Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião.

Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses.

A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto. Respondi, creio, à sua pergunta.

Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.

Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'

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Pessoa também gostava de dinheiro
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 12:22 | Segunda feira, 13 de fevereiro
E de o guardar nas suas arcas.
Só falta saber-ou talvez não-quem ficou com a chave do "cofre".
 
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...
marluz (seguir utilizador), 1 ponto , 14:07 | Terça feira, 14 de fevereiro
Adorei ler este artigo que é de facto nos instiga a uma reflexão profunda... Quem somos ? nos meandros do pensamento... este que leva um desdém de quem o tem o procura ter ... o Vão é o mais importante hoje ...
Ah! faltando a mais intrínseca do Individual/colectivo a Educação esta tem de ser tratada como especial...

"Cumpriu-se o mar, e o império se desfez, falta cumprir-se Portugal!"
"Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem o saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.

Vivemos numa ligeireza que fulmina ...o carácter fundamental anda des(fixado) e como tal o colectivo em si traça e determina um pouco o seu destino de estar ... a parte cultural de uma revolução que foi há mais de 30... Para apreciar um livro mais profundo, atulhado de boas novas ideias ... Folheamos e tudo passa de uma forma superficial ... não existe o trabalho de aprofundar, investigar para a Verdade chegar...

Investir na Educação/investigação é conquistar a liberdade e progresso de um País e Cultura também age como antídoto de uma crise que atinge o topo da hierarquia social ... do topo à base... Não tenho dúvida nisso...
 
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Arghhh
3AA (seguir utilizador), 1 ponto , 10:30 | Quarta feira, 15 de fevereiro
Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'

Prosa intragável.
 
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