José Sócrates apresentou, ontem, o seu programa eleitoral. Primeira sensação: o país político continua a viver num mundo de ilusão. E os políticos, em detrimento de se esforçarem para se mostrarem à altura das exigências das circunstâncias, continuam a brincar. A gozar com o pagode. O nosso país está bem servido de artistas políticos - mas carece de estadistas. O programa eleitoral do PS só confirma esta tese.
Com efeito, ontem, ouvindo José Sócrates, tive um déjá vu. É sempre o mesmo tom. É sempre o mesmo estilo. É sempre a mesma conversa. Note-se: José Sócrates é o político português mais hábil. Com mais faro político. Apresenta uma enorme facilidade para adaptar o seu discurso ao politicamente mais conveniente em cada momento. Mas há limites para tudo: então, não é que o candidato do PS, primeiro-ministro demissionário, perante o pântano em que o país se tornou, só se lembra de repetir a cassete das eleições anteriores? Senão, vejamos:
Aposta na educação. Ora, em 2005, a bandeira de José Sócrates chamava-se Plano Tecnológico: informatizar as escolas, alargar as competências dos alunos em matérias relacionadas com a sociedade de informação, alargar o ensino do inglês nos níveis primários de ensino, entre outras. Em 2009, José Sócrates apresentou como grande trunfo os progressos (reais ou fictícios) na educação e prometeu a reforçar a aposta. Dois anos volvidos, o país está pior, com o FMI a evitar a bancarrota. Mas José Sócrates não muda: promete a reforçar a aposta na educação! Vira o disco, toca o mesmo.
Aposta na tecnologia e na investigação. Ora, José Sócrates prometeu o mesmo em 2005. Repetiu a promessa em 2009. Como estamos? O ensino superior - essencial para o progresso do país, dado que são as universidades que formam as elites e profissionais qualificados que a economia aberta exige - enfrenta, talvez, a maior ameaça de sempre. A Universidade de Lisboa corre o risco de não dispor de verbas para assegurar o seu regular funcionamento (coloca-se, inclusive, a hipótese de não ter dinheiro para pagar aos funcionários). Reação do Governo: determinar o congelamento das verbas geradas pelo pagamento das propinas pelos alunos (solução que, de resto, consideramos inconstitucional, por violação da autonomia financeira das universidades). Então, o governo que promete a aposta na inovação e no conhecimento é o mesmo que estrangula o ensino superior? Como acreditar? É vira o disco e toca o mesmo;
Reabilitação urbana. Esta é a mesma a pérola da vida de José Sócrates, desde os tempos em que exercia as funções de ministro do ambiente. É uma constante nos programas eleitorais do PS. Ora, este primeiro-ministro está há seis anos no poder - que obra deixa no ambiente, na qualificação das cidades, na revalorização do espaço urbano? Nada. Claro: José Sócrates lá se lembrou de cantar a mesma música. É vira o disco e toca o mesmo;
A inserção dos jovens na vida ativa. Ora, se houve setor da nossa sociedade partiuarmente afetada pela governação socrática foi a juventude. Que vai pagar os desvarios, o tempo perdido por este governo incompetente. No entanto, José Sócrates tem o topete de prometer aquilo que destruiu em seis anos: a esperança e a confiança no futuro da juventude portuguesa. Faz lembrar os 500 mil postos de trabalho em 2005. É vira o disco e toca o mesmo. Só que, desta feita, é um verdadeiro melodrama - é uma geração que vê o seu futuro altamente comprometido pela falta de visão e sentido patriótico dos governantes atuais.
Ainda resta alguma dúvida de que José Sócrates nunca - jamais! - poderá ser um grande estadista? Porque não consegue pensar o país. Não consegue antever o futuro. Não consegue encarar a política para além da espuma dos dias. Só assim se explica que o ainda primeiro-ministro fala de creches, de casinhas, de rede digital - com o FMI aqui a elaborar um programa de austeridade brutal para os portugueses! A competência de Sócrates resume-se à sua capacidade para construir uma imagem de falsa determinação e atacar os seus opositores políticos. Nisto ele é catedrático. Analisaremos, amanhã, a crítica do secretário-geral do PS ao PSD e a reacção deste partido.
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