25/05/2012 atualizado às 0:46
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Encalhados no silêncio

Este texto é sobre um filme: "O segredo dos seus olhos". É sobre memórias, amores e injustiça. Mas pode ser sobre a necessidade dos povos revisitarem os crimes do seu passado.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
9:00 Sexta feira, 25 de junho de 2010

Queria falar-vos de um filme. Chama-se "O segredo dos seus olhos" (Juan Jose Campanella), é argentino e ganhou o Oscar para melhor filme estrangeiro. A sua suavidade pode ser confundida com facilidade. Um erro.

Um funcionário judicial e uma magistrada vivem durante anos uma paixão platónica nunca consumada. Habituam-se a viver assim, com palavras por dizer, apenas denunciando-se pelos olhares. Sendo uma paixão que não se confronta consigo mesma nunca chega a consumir-se. Está ali parada, encalhada. Parece-me que nem chega a perturbá-los. Acompanha-os apenas.

Um colega do protagonista, Pablo Sandoval (Gullermo Francella), é alcoólico. Vive, também ele, uma paixão que o degrada. Não a enfrenta. Está apenas encalhado nela. Vive-a e pronto.

Um dia, Bejamin Espósito (Ricardo Darín) tropeça num crime. Violação seguida de homicídio. Talvez pela brutalidade do que vê, talvez pela beleza da vítima, talvez pela paixão que ela vivia com o seu marido recente, aquele caso torna-se numa obsessão. Acabará por encontrar o culpado - mais uma vez é o olhar que denuncia - e por conseguir a sua condenação. Graças a uma paixão do criminoso, que o leva a ser imprudente: o futebol. Aliás, essa imprudência oferecerá ao filme uma sequência para a antologia do cinema.

Só que o violador homicida será solto para trabalhar para a "tripla A", a Aliança Anticomunista Argentina, grupo paramilitar que recuperava criminosos para os usar na repressão a activistas de esquerda. Isto passa-se durante a Presidência da Isabelita Perón, última mulher de Juan Domingo Perón e sua sucessora no poder entre 1974 e 1976. O governo de Isabel tinha forte presença da extrema-direita. A mesma que viria a apoiar o golpe da Junta Militar de Videla. Voltando ao filme: Espósito e a magistrada terão de fugir para não sofrerem as consequências de investigarem um operacional da "Triplo A". O amigo alcoólico será quem se sacrifica por eles.

Revoltados mas resignados, magistrada e funcionário refazem as suas vidas durante aquela que foi uma das mais violentas das ditaduras latino-americanas. Cada um a sua. Durante 25 anos passam por ela, numa "vida cheia de nada". O viúvo da mulher assassinada também parece conformado. Mas não esquecem nem o crime, nem as suas paixões por resolver. Não esquecem a injustiça.

Até que, 25 anos depois, já em democracia e no começo do ocaso das suas vidas, tudo regressa: a injustiça do crime por punir e o seu amor sereno. O oficial de justiça revista o passado para escrever um livro. E acaba por descobrir que houve quem tivesse tratando de fazer, pelas suas próprias mãos, a justiça que o Estado não fez. E descobre que ele próprio não se conformou.

Não vos conto o fim do filme que ainda está em exibição. Para além da sua simplicidade comovente, para além das interpretações magníficas de Ricardo Darín e Soledad Villamil, vale a pena prestar atenção a esta história sobre a memória e o silêncio. Para responder à pergunta: e se tivéssemos feito alguma coisa para ser diferente? E o que podemos fazer agora para seguir em frente?

O filme não é sobre política. Não é sequer sobre o amor (talvez mais sobre paixões), apesar de ser por aí que é promovido. É sobre a memória, o esquecimento e o silêncio. Mas também pode ser visto, se quisermos (os bons filmes têm a capacidade de nos deixar espaço para o que queremos), como uma metáfora da história da Argentina. Não por acaso, começa nas vésperas da ditadura militar e acaba no período democrático em que os argentinos tentam reparar os crimes do seu passado.

Espósito representa uma geração marcada pelo medo e pela repressão. E desse ponto de vista, podia ser em Portugal, em Espanha, na América Latina ou na Europa de Leste. Como nos relacionamos com os nossos silêncios, com a justiça por fazer, com as suas vítimas esquecidas?

Há dez anos que muitos espanhóis fazem o mesmo que Espósito: revistam o seu passado para o poder ultrapassar. Graças à lei da memória histórica de Zapatero ou a homens como Baltazar Garzón, confrontam o silêncios e a indiferença. Já aqui escrevi sobre isso .

O assunto é pouco popular. Porque a maioria prefere sempre o consenso do esquecimento. Mas quando esquecemos só o fazemos na aparência. "Quem vive fixado na sua memória vive com muitos passados e nenhum futuro", diz (cito de cor), sem acreditar, uma das personagens. É falso. Quem não leva a sério a memória vive apenas a ilusão de ter futuro. Porque os confrontos sobre o passado são sempre confrontos de hoje. São sobre nós em qualquer tempo.

A Argentina fez o seu, e com que dor. O Chile deixou-o por fazer e continua encalhado em muitos equívocos. A Espanha está a tentar fazê-lo. Portugal nunca o fez. E por isso confundem-se com tanta facilidade vítimas e carrascos, como se fossem todos feitos da mesma massa.

Parece que meio século de ditadura é coisa do passado. Não é. É constitutivo do que somos enquanto povo. Parece que a democracia e a liberdade são irreversíveis? Parece. Mas ainda estamos encalhados nessas memórias nunca resolvidas. Meio século de ditadura ainda se sente em muitos cantos da nossa identidade. Porque não o revisitamos para o resolver.

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Onze milhões de milionários na Terra
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 9:57 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Cada vez mais os Povos se têm de libertar das amarras do silêncio na construção de um caminho livre da escravidão e da exploração do Homem pelo homem.E é essa condição de escravo, de explorado que a memória Histórica não pode ignorar,deitar fora ,omitir.Como no cinema- onde se elogia a capacidade do realizador em transpôr para a tela a vida,o quotidiano, o sofrimento- e nos faz reflectir sobre a Justiça, a Dignidade e a Paz- também hoje se exige-num mundo cada vez mais liberto de fronteiras- que os valores da Humanidade circulem, o desenvolvimento aconteça e cada um possa voar, nesta Terra onde há um Céu que a todos pode acolher.
 
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Isto é uma questão de Química
Fernando Torres (seguir utilizador), 2 pontos , 12:00 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Qual a diferença entre SOLUÇÃO e DISSOLUÇÃO ?..

Colocar UM dos POLÍTICOS PORTUGUESES num TANQUE DE ÁCIDO para que se DISSOLVA..isso é uma dissolução..
 
Colocar TODOS os POLITICOS PORTUGUESES num TANQUE DE Ácido..isso é uma SOLUÇÃO!..
 
Se a experiência se Liofilizar..obteremos o mais puro Extrato de Pó de Merda do mundo..dá pra resolver o défice com a venda de estrume em pó...
 
 
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Muito bem
4Xexpulso (seguir utilizador), 1 ponto , 10:08 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Muito bem. Portugal optou por 'deitar para trás das costas', ou 'varrer para debaixo do tapete' esse período deixando que os mitos criados pelo regime e os criados pelas oposições vingassem, na leitura que hoje temos desse período.
Paixões e interesses à parte acho que sim, que se devia revisitar o passado.
Mas duvido que o povo português esteja interessado nisso ou tenha o perfil para o fazer. O português é revanchista e não perderia a oportunidade para ajustes de contas. Nesse aspecto o português é mal formado.

Mas acho que também deveria ser revisitado o PREC, amigo Daniel...

Devia ser claro para os interessados o que fizemos aos PIDES, o que fizemos aos JUIZES que suportaram o regime, nomeadamente os dos Tribunais Plenários, os que atentaram contra Portugal, antes e depois da queda da Ditadura, os que nos colocaram á beira da Guerra Civil, o que se passou com a descolonização, etc, etc.

Mas isso não se vai fazer...
Nós gostamos de ter os nossos mitos e preferimo-los à realidade!
 
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    Re: Muito bem    Ver comentário
THUNDER III (seguir utilizador), 1 ponto , 10:35 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
    Re: Muito bem    Ver comentário
Durruti Blak (seguir utilizador), 1 ponto , 17:51 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
    Re: Muito bem    Ver comentário
4Xexpulso (seguir utilizador), 1 ponto , 18:01 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Problemas mal resolvidos
vera borges (seguir utilizador), 1 ponto , 11:18 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Sejam quais forem os problemas do passado, e de índole forem, se não forrem encerrados na nossa memória eles voltarão sempre, sem pedir licença, a bater-nos à porta... por essa mesma razão: assuntos não resolvidos. Ou pessoas que são incapazes de se desligar do passado, dos fantasmas que os assolam...

Mas o passado é isso mesmo, memórias, que devem ser guardadas e não mexidas... Sem isso nunca conseguiremos ir para a frente, não haverá progresso...

Revisitar o passado... é muitas vezes mexer em feridas que já estão cicatrizadas e teimamos em abri-las de novo.

Do passado devemos colher as lições, boas ou más, que nos impulsionem a viver o presente e olhar o futuro com confiança.
 
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Desenterrar desgraças para quê?
JJFF (seguir utilizador), 1 ponto , 11:40 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Desenterrar os crimes do passado é matéria que proporciona lindos e cativantes filmes. Contudo em Portugal não há um mínimo interesse social em levantar-se a poeira de muitos anos que caiu sobres alguns factos muito amargos do nosso passado recente, como seja a repressão salazarista, a guerra colonial e, embora em menor escala, também as ocupações selvagens do período pós 25 de Abril, até porque de todas as vítimas, as mais atingidas foram as dos países africanos que estavam ocupados por Portugal.
 
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    Re: Desenterrar desgraças para quê?    Ver comentário
4Xexpulso (seguir utilizador), 1 ponto , 11:50 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Encalhados no silêncio...
jvlv (seguir utilizador), 1 ponto , 12:08 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Este artigo de D.O. é extremamente oportuno e inspirador de um debate a fundo, já que nos reconduz ao cerne de questões essenciais como:
a) Quem somos nós, individualmente e o que representamos, em concreto, para o nosso país?
b) O que é colectivamente, Portugal? Que "imagem colectiva" passa, hoje, na opinião pública, entre o povo? A de um "país aos bochechos", com um presente incerto e desagregador, social, económica e politicamente" ou a de um país com uma memória histórica relevante e única, inspiradora e mobilizadora de uma unidade e coesão social e politica capaz, tanto de relançar economicamente o país, a médio/longo prazo, como de contribuir, decisivamente, para a preservação daquela memória de que todos nos orgulhamos, se bem que, sobre ela, as acepções variem e, não poucas vezes, sejam contrastantes, dado o "papel" menor ou irrelevante" desempenhado pelo povo, segundo alguns cronistas e historiadores oficiais...
 
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felicidade (seguir utilizador), 1 ponto , 20:54 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Portugal ainda por inventar
Rogneto (seguir utilizador), 1 ponto , 17:45 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
Para quem viveu o antes e o depois do 25 de Abril 74, constacta um percurso distanciado da história portuguesa.
Aos políticos caberia encontrar soluções políticas contextualizadas no curso global da história da humaninade de modo a garantir um rumo de progresso e de bem estar à comunidade que representam, os portugueses.
Constactamos todavia, que quaisquer que sejam os acontecimentos de notícia e a observar pelos comentários inseridos, felizmente com alguma privacidade acautelada, pois os temas parecem eternamente fracturantes.
Não faltam acusações insultuosas de todos os lados, consoante o perfil do comentador,
e do lado em que toma posição. Basta verificar as polémicas levantadas em redor
dos recentes desaparecimentos do Alm. Rosa Coutinho, do Nobel da Literatura
Saramago, ou noutro quadrante a visita de Bento XVI.
  Das gerações nascidas pós 70, mais confusas ficam e por norma desinteressam-se destas questões históricas e/ou políticas. A meu ver a História tem de ser assumida, avaliada e condenada no que deve ser condenado. Os protagonistas dos factos não serão património de interesses sectários e/o corporativos quando estes envolveram todo um povo e a sua história.
Portugal, inventou o Fado, quiça também Fátima, vive o Futebol e Facebook, mas
é incapaz de se inventar a sí próprio como gente de bém , de boa formação a transmitir dignidade e orgulho.
 
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jazão (seguir utilizador), 1 ponto , 22:10 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
DO, cresça!
jazão (seguir utilizador), 1 ponto , 21:58 | Sexta feira, 25 de junho de 2010
«A Argentina fez o seu, e com que dor. O Chile deixou-o por fazer e continua encalhado em muitos equívocos.»
Deve ser por isso que o Chile é destacadamente o país mais próspero da América Latina, com um índice de desenvolvimento só comparável à Europa…
«Portugal nunca o fez. Parece que meio século de ditadura é coisa do passado. Não é. É constitutivo do que somos enquanto povo. Meio século de ditadura ainda se sente em muitos cantos da nossa identidade. Porque não o revisitamos para o resolver»
Portugal não tem feito outra coisa desde o 25 de Abril. Continua tudo na mesma, a culpa é sempre do passado, nunca é nossa… E já agora, sim, meio século de regime autoritário é coisa do passado. Deus queira que não seja também do futuro, mas se continuamos a revisitar em vez de trabalhar e progredir, não sei, não…
Se eu já me esqueci do 11 de Março, das «nacionalizações», da «reforma agrária» (entre aspas, porque foi apenas uma gigantesca vigarice dos comunas), das prisões com mandato de captura em branco, da quebra total do estado de direito, das Oteladas e das Vascógonçalvadas, sem falar da catástrofe humana que foi a deserção africana, e foi há 35 anos, porque é que havia de perder tempo a lembrar-me do que se passou há 60, 70, ou 80 anos? Isso já não é memória, é história.
Percebo as frustrações existenciais da esquerda, que adorava ter tido um Videla para carpir «desaparecidos», mas não teve e agora não tem nada a que se agarre.
 
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