Empresas precisam mais de gestores do que de engenheiros
Quais são as principais preocupações das empresas na próxima década?
Fatma Abdullah, Dubai, Emirados Árabes Unidos
A maioria dos e-mails que recebemos são relativos às manchetes actuais - da retracção do crédito à escassez dos alimentos - por isso foi com grande satisfação que recebemos a sua pergunta sobre o longo prazo. Na verdade, nos negócios, jamais podemos deixar de planear o futuro, mesmo quando o presente parece merecer toda a nossa atenção. Imagine, por exemplo, que os americanos tivessem planeado tornar-se auto-suficientes em energia. Hoje, talvez as centrais nucleares fossem responsáveis por uma percentagem significativa das necessidades energéticas dos Estados Unidos, como acontece com a França, Japão e a Suécia.
Mas vamos ao ponto certo. De uma forma geral, nos próximos dez anos, o mercado global será ainda mais competitivo, obrigando os executivos a tornar suas empresas mais ágeis, produtivas, inovadoras e tecnologicamente avançadas. Nada de novo, não é? A maioria das empresas passou os últimos anos a tentar adaptar-se ao impacto da globalização .Então, o que poderemos acrescentar de novidades à lista das "principais preocupações" no futuro? Com o devido respeito por todos os visionários profissionais, coisa que não somos, acrescentaríamos três itens com base nas conclusões de reuniões recentes que tivemos com executivos nos Estados Unidos, no Leste Europeu, no Médio Oriente e na Índia.
O primeiro ponto e o mais importante, tem que ver com as empresas familiares, que constituem uma percentagem significativa de muitas economias. Essas empresas conseguem transmitir aos seus empregados um sentimento de humanidade e de pertença, acabando por envolvê-los com a organização. Em tempos difíceis de crise, a cultura dessas companhias destaca-se pela resiliência, tolerância e flexibilidade.
Contudo, há um aspecto que cada vez mais ameaça as empresas familiares: o seu enfoque tem passado a estar assente na preservação da riqueza, e não na acumulação. Talvez a "protecção dos activos" fosse mais eficaz em conjunturas menos adversas, mas, actualmente, poderá ter efeitos arrasadores num ambiente global em que crescer e ultrapassar os riscos são condições vitais à sua sobrevivência.
Por outro lado, há a questão da sucessão, que nunca é um processo fácil nas firmas familiares. Hoje em dia, a maior longevidade permite aos patriarcas continuar a liderar as suas empresas por mais tempo, o que leva as gerações mais novas a tentarem a sua sorte de outras formas. Na verdade, as "crianças" hoje não querem esperar até os 50 anos para segurar as rédeas da empresa. É uma situação complicada e desincentivadora.
Além disso, os patriarcas continuam a passar o testemunho apenas aos seus filhos, não tendo em conta o facto de terem perfil ou talento para isso. A velha tradição até funcionava antes da globalização, mas agora não.
O segundo aspecto que gostaríamos de acrescentar à lista das principais preocupações das empresas na próxima década - é a falta de recursos humanos - não de engenheiros e cientistas, mas de executivos competentes . Na viagem recente que fizemos aos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, ouvimos CEOs de diversas empresas locais e também ocidentais dizerem que a principal dificuldade das empresas era contratar pessoas para o sector de finanças. Curiosamente, esse obstáculo constitui uma excelente oportunidade para qualquer executivo experiente e que tenha ambição para trabalhar no estrangeiro durante vários anos.
E por último, há que realçar um ponto que sempre fez parte da vida das empresas, mas que deverá ganhar relevância nos próximos anos - a corrupção - que como é óbvio leva as pessoas tornarem-se menos produtivas. Não estamos a falar aqui de subornos em grande escala nas empresas - por mais terríveis que sejam - mas à "cultura do suborno" que é regra em várias regiões do mundo em desenvolvimento. Normalmente, essa cultura existe nos locais onde os salários são baixos, obrigando as pessoas a procurar outros rendimentos.
Veja-se o exemplo: para passar no aeroporto de Nova Deli, é necessário dar uma "gorjeta"aos inspectores de bagagem. Para se conseguir uma licença de táxi em São Paulo, no Brasil, é preciso "agradecer muito" aos responsáveis pela regulamentação do sector. A existência destas economias ensombradas mina a vida da economia global, desviando dinheiro, energia e esperança.
Mas, não sejamos pessimistas. Sim, a situação actual das empresas familiares é preocupante, tal como a escassez de talentos na gestão e a corrupção. Contudo, as empresas sempre se mostraram capazes de ultrapassar desafios, aparentemente, invencíveis. E no futuro, não será diferente.
© 2009. By Jack and Suzy Welch. Distributed by The New York Times Syndicate. Traduzido e adaptado por Liliana Coelho.
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