No dia 4 de Novembro Israel violou as tréguas em Gaza, assassinando seis membros do Hamas. Até lá, não fez cumprir a sua parte de um acordo que nunca reconheceu publicamente: garantir a abertura, pelo cúmplice egípcio, da passagem em Rafah. Se faltasse mais alguma prova da má-fé dos argumentos para a actual ofensiva, a confissão de que este ataque está a ser preparado há seis meses chegaria para deixar tudo muito claro.
Além de objectivos circunstanciais (tentar ganhar as eleições ao Likud e aproveitar o vazio de poder nos EUA), o governo israelita espera poder entregar as ruínas de Gaza ao presidente Abbas. Na realidade, Israel está a dar força política aos fanáticos do Hamas e a enfraquecer os moderados na Cisjordânia, que assistem, atónitos, à barbárie em Gaza e ao silêncio do seu Pétain. É evidente que nunca se conseguirá uma paz duradoura com uma liderança palestiniana fraca. Mas a paz com duas nações viáveis não é o objectivo de Israel.
O muro que cerca Gaza e que retalha a Cisjordânia, os checkpoints que impedem a circulação de civis dentro do seu próprio território e o boicote sistemático a qualquer normalidade no quotidiano e na economia da Palestina têm um único objectivo: fazer com que os palestinianos fujam do Inferno. Na realidade, Israel quer o mesmo que Ahmadinejad e o Hamas: riscar o vizinho do mapa. Apenas uma diferença: o seu propósito está cada vez mais próximo. E perante isto, o mundo exige aos palestinianos reiteradas provas de estoicismo e subserviência enquanto aceita com bonomia cada atropelo às mais elementares regras do direito internacional por parte de Israel.
As visões salomónicas deste conflito são apenas a versão cínica da lógica do agressor. É evidente que em nenhum conflito há 'bons' e 'maus'. É sempre mais complicado. Mas se ainda existem alguns critérios de justiça, o mundo não pode continuar a assistir em silêncio à destruição lenta, sistemática e com requintes de sadismo de todo um povo. Seja quem for o seu carrasco.
A escolha do Presidente
Cavaco Silva nunca pediu a fiscalização da constitucionalidade das normas que o incomodam no Estatuto Administrativo dos Açores. Tem esse direito. Mas, não sendo o nosso regime presidencialista, a sua legitimidade eleitoral não é superior à do Parlamento. O argumento de que a actual maioria do PS é circunstancial é antidemocrático. É tão circunstancial como o seu mandato. Se a questão é constitucional caberia ao Presidente dar a palavra ao Tribunal Constitucional. Se é política, é ao órgão legislativo que cabe a última palavra. Não estamos num impasse institucional. O Presidente escolheu fazer o confronto num terreno em que a Constituição garante a sua derrota. E foi derrotado. A vida continua.
Tendo em conta que estamos perante uma questão meramente simbólica (os poderes reais do Presidente não foram beliscados) é absurdo que Cavaco, mesmo que indignado, faça duas comunicações ao país. Ainda mais depois de se manter em silêncio quando o regular funcionamento das instituições foi posto em causa, de forma bem real, na Madeira. E ainda mais quando o país se prepara para entrar numa recessão económica. Um político mede-se pelas batalhas que escolhe. Divorciado das angústias dos portugueses, Cavaco colocou o peso simbólico do seu estatuto no centro do debate. Cavaco tem, então, a dimensão de Cavaco. É pouco para um Presidente.
Daniel Oliveira