25/05/2012 atualizado às 0:46
Página Inicial » Opinião » Daniel Oliveira » Em silêncio

Em silêncio

8:00 Segunda feira, 5 de janeiro de 2009

No dia 4 de Novembro Israel violou as tréguas em Gaza, assassinando seis membros do Hamas. Até lá, não fez cumprir a sua parte de um acordo que nunca reconheceu publicamente: garantir a abertura, pelo cúmplice egípcio, da passagem em Rafah. Se faltasse mais alguma prova da má-fé dos argumentos para a actual ofensiva, a confissão de que este ataque está a ser preparado há seis meses chegaria para deixar tudo muito claro.

Além de objectivos circunstanciais (tentar ganhar as eleições ao Likud e aproveitar o vazio de poder nos EUA), o governo israelita espera poder entregar as ruínas de Gaza ao presidente Abbas. Na realidade, Israel está a dar força política aos fanáticos do Hamas e a enfraquecer os moderados na Cisjordânia, que assistem, atónitos, à barbárie em Gaza e ao silêncio do seu Pétain. É evidente que nunca se conseguirá uma paz duradoura com uma liderança palestiniana fraca. Mas a paz com duas nações viáveis não é o objectivo de Israel.

O muro que cerca Gaza e que retalha a Cisjordânia, os checkpoints que impedem a circulação de civis dentro do seu próprio território e o boicote sistemático a qualquer normalidade no quotidiano e na economia da Palestina têm um único objectivo: fazer com que os palestinianos fujam do Inferno. Na realidade, Israel quer o mesmo que Ahmadinejad e o Hamas: riscar o vizinho do mapa. Apenas uma diferença: o seu propósito está cada vez mais próximo. E perante isto, o mundo exige aos palestinianos reiteradas provas de estoicismo e subserviência enquanto aceita com bonomia cada atropelo às mais elementares regras do direito internacional por parte de Israel.

As visões salomónicas deste conflito são apenas a versão cínica da lógica do agressor. É evidente que em nenhum conflito há 'bons' e 'maus'. É sempre mais complicado. Mas se ainda existem alguns critérios de justiça, o mundo não pode continuar a assistir em silêncio à destruição lenta, sistemática e com requintes de sadismo de todo um povo. Seja quem for o seu carrasco.

A escolha do Presidente

Cavaco Silva nunca pediu a fiscalização da constitucionalidade das normas que o incomodam no Estatuto Administrativo dos Açores. Tem esse direito. Mas, não sendo o nosso regime presidencialista, a sua legitimidade eleitoral não é superior à do Parlamento. O argumento de que a actual maioria do PS é circunstancial é antidemocrático. É tão circunstancial como o seu mandato. Se a questão é constitucional caberia ao Presidente dar a palavra ao Tribunal Constitucional. Se é política, é ao órgão legislativo que cabe a última palavra. Não estamos num impasse institucional. O Presidente escolheu fazer o confronto num terreno em que a Constituição garante a sua derrota. E foi derrotado. A vida continua.

Tendo em conta que estamos perante uma questão meramente simbólica (os poderes reais do Presidente não foram beliscados) é absurdo que Cavaco, mesmo que indignado, faça duas comunicações ao país. Ainda mais depois de se manter em silêncio quando o regular funcionamento das instituições foi posto em causa, de forma bem real, na Madeira. E ainda mais quando o país se prepara para entrar numa recessão económica. Um político mede-se pelas batalhas que escolhe. Divorciado das angústias dos portugueses, Cavaco colocou o peso simbólico do seu estatuto no centro do debate. Cavaco tem, então, a dimensão de Cavaco. É pouco para um Presidente.

Daniel Oliveira

Relacionados
02 janeiro 2009

Fogo de artifício a sério em Gaza

5
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Contradições
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 11:02 | Segunda feira, 5 de janeiro de 2009
O melhor da crónica são as contradições porque exemplificam como as pessoas se contradizem e enganam umas às outras e a si mesmas.
Por exemplo, o cronista não esconde que «em nenhum conflito há “bons” e “maus” e até lembra que «É sempre mais complicado» ao mesmo tempo que aponta de dedo espetado quem são os bons e os maus do conflito em questão.
Começa por dizer que Israel assassinou 6 membros do Hamas esquecendo que o que está por detrás é muito complicado. Porquê 6 e não 2 ou 12? Porquê aqueles e não outros? De forma desviada, quem financia e conduz as operações do Hamas? Dizer que Israel assassinou é o mesmo que dizer que no tempo da pide Portugal prendia adversários políticos da Ditadura. Portugal prendia? Quem prendia eram agentes da pide, quem ordenava as prisões eram os dirigentes daquela polícia, e quem mandava prender era a verdade instituída que foi habilidosamente confundida com a figura de Salazar à sombra da qual ainda hoje continuam escondidos os verdadeiros responsáveis.
A parte má do artigo é esconder a verdade e infantilizar o rebanho, mas essa é também a parte que tem a bondade de demonstrar como é fácil fazer a opinião das ovelhas e esconder a realidade no terreiro, em céu aberto, bem à vista de todos.
 
 Regras da comunidade
    Re: Contradições    Ver comentário
toniosp (seguir utilizador), 1 ponto , 23:39 | Segunda feira, 5 de janeiro de 2009
    Re: Contradições    Ver comentário
taralhouco (seguir utilizador), 1 ponto , 11:28 | Terça feira, 6 de janeiro de 2009
O Saber que Ocupa Lugar.
Alfredino Cunha (seguir utilizador), 1 ponto , 23:59 | Segunda feira, 5 de janeiro de 2009
Este senhor cronista é um militante ou dirigente ou coisa assim do Bloco de Esquerda.

Na segunda parte do seu artigo, explica muito bem porque não se deve votar Bloco de Esquerda. Porque não se pode esperar que o BE seja coisa melhor ou diferente do PS.

Percebe-se que o BE está feliz e satisfeito por ter demonstrado, a propósito do estatuto dos Açores, não ter princípios nem isso lhe interessar.

Só tem interesses eleitorais e nisso é igual aos demais partidos da AR.

Muito gosto, prazer em conhecer.
 
 Regras da comunidade
Qundo se tem a pouca sorte de ser zarolho
Vistodaqui (seguir utilizador), 1 ponto , 20:12 | Quarta feira, 7 de janeiro de 2009
Este senhor jornalista Daniel Oliveira, que eu leio e vejo (na SIC) sempre com muita atenção, é o mais completo e acabado exemplo do ódio descontrolado contra Israel. É verdade que neste assunto, infelizmente, parece não haver meio termo. Ou se está com Israel ou se está com os terroristas islâmicos. No entanto a um bom jornalista, porque tem acesso a meios de comunicação que o comum dos mortais não tem, recomenda-se que não seja tão sectário e sobre tudo que não veja o Mundo só com o olho esquerdo, porque isso turva-lhe a visão. No artigo em apreço, o jornalista não conseguiu ver a chuva de mísseis que o Hamas lançavam todos os dias sobre Israel, nem se apercebeu de quem quebrou as tréguas existentes. Recomendo-lhe um bom par de óculos que lhe permita ver também com o olho direito.
 
 Regras da comunidade
A proposito de ser zarolho...
Pedro Lemos (seguir utilizador), 1 ponto , 14:43 | Quinta feira, 8 de janeiro de 2009
Como se vê deste comentário do Sr Daniel Oliveira a nossa imprensa traz pouca informação. Muita intriga, provocação, boato, emoção...mas pouca informação. Este senhor pertence a uma casta de jornalistas, infelizmente muito em voga neste país, que ao jornalismo sério e objectivo prefere o entretenimento da má lingua e uma presunção sem limites assente numa certo tique de pensamento único de encomenda...
 
 Regras da comunidade
Meu caro Daniel
odisseia na terra (seguir utilizador), 1 ponto , 18:20 | Sábado, 10 de janeiro de 2009
O Amigo insiste em defender causas que já só lhe ficam mal.
O seu processo de reciclagem ainda Naõ está terminado e prova disso é este seu trabalho jornalístico.
O mundo tem mudado e o amigo insiste em posições bacocas, ultrapassadas.
Essa sua solidariedade com os manos da Palestina só pode ser entendida como um resquício da sua militância esquerdista radical. A esquerda a que o amigo pertenceu e pelo visto ainda pertence foi sempre solidária com tudo o que fosse contra o Estado de Direito e que representasse os valores Ocidentais, a tal sociedade livre e de consumo. (Tenho a certeza que o Daniel foi contra o nuclear, marchou contra a Nato, foi contra a adesão a CEE, etc.) Nos idos anos 50 e 60 a sua saudosa URSS promoveu regimes laicos de cariz socializante vendendo-lhes todo o tipo armas para que poderem atacar, destruir Israel.
O melhor exemplo disto que estou a afirmar foram os partidos Baas da Síria e do Iraque e a Revolução Verde da Líbia. Estes regimes só momentaneamente comungaram desses ideais estéreis e, ainda no auge da Guerra-fria limparam as suas fileiras de todos os elementos que cheirassem a comunismo. ( a sua verborreia lá tinha acabado como adubo).
Isto é o facto, como também é um facto que o Hamas é um movimento terrorista que já matou centenas de pessoas inocentes não só israelitas como palestinianos.
Sempre que se fala de Israel a sua análise é tendenciosa e desonesta. Ignora detalhes fundamentais não só do passado como desvirtua os acontecimentos do presente.
Já é hora de se livrar do pin do Che e do lenço do Arafat. Estes dois kromos nunca lhe teriam deixado comprar a sua bela Vespa.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Pedro nas nuvens
0:00 Sábado, 19 de maio de 2012,
Dawes ou Marshall
0:00 Sábado, 12 de maio de 2012,
Ensaio sobre a cegueira
0:00 Sábado, 5 de maio de 2012,
Miguel
0:00 Sábado, 28 de abril de 2012,
Os restos da dignidade
0:00 Sábado, 21 de abril de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
IAB