Hoje em dia, os padrões de beleza estabelecidos pela publicidade e pela televisão fazem com que milhares de mulheres em todo o mundo recorram à cirurgia estética para alterar o peito. As reconstruções mamárias são também uma das dádivas atuais para as mulheres que tiveram de recorrer à mastectomia.
Numa época em que a imagem é cada vez mais valorizada, recorrer à cirurgia estética para aumentar o peito pode significar, para muitas mulheres, uma forma de aumentar também a autoestima e a autoconfiança. Com a evolução da técnica da mamoplastia, o risco é cada vez menor mas, mesmo assim, podem ocorrer problemas.
Foi o que aconteceu em França, recentemente, de onde foi lançado um alerta para o perigo de cancro associado aos implantes mamários da marca Poly Implants Prothèses (PIP). Mais de mil registos de ruturas e vinte casos de cancro associados a estes implantes levaram as autoridades de saúde nacionais a aconselhar 30 mil mulheres no país com próteses da marca PIP a retirá-las como medida de precaução.
Em consequência deste alerta, os alarmes intensificaram-se em todo o mundo, já que a PIP exportou até hoje mais de 300 mil implantes. Em Portugal, no entanto, a importação e venda dos mesmos estava suspensa pelo Infarmed desde março de 2010, depois de nessa altura terem surgido as primeiras suspeitas a respeito da qualidade do material com que os implantes eram fabricados, bem como registos de complicações associadas à sua utilização.
Segundo um comunicado da Direção-Geral da Saúde, estima-se que 1500 a 2000 portuguesas tenham próteses mamárias da marca PIP, o que equivale a cerca de 3%. Tal como já haviam sugerido em março de 2010, a DGS e o Infarmed voltam a aconselhar estas portuguesas a consultarem o médico que as operou e a realizarem exames de vigilância.
França e Venezuela financiam remoção dos implantes PIP
A autoridade francesa do medicamento, AFSSAPS, suspendeu também em março de 2010 a comercialização dos implantes PIP em França, depois de ter constatado uma taxa de rutura superior à dos outros implantes e a utilização de um gel de silicone que, em análises posteriores, se constatou não ser indicado para o uso humano, provocando irritação e reações inflamatórias ao entrar em contacto com os tecidos.
Em Portugal, a última informação por parte do Infarmed a respeito deste assunto, a 9 de maio de 2011, refere que não foram registados incidentes com estes implantes a nível nacional.
No seguimento deste caso, e tendo em conta a possível associação entre os implantes PIP e vários casos de cancro em mulheres francesas, o ministro da Saúde de França, Xavier Bertrand, anunciou em final de dezembro último que o Estado francês iria financiar as operações de remoção destas próteses mamárias às mulheres que estivessem interessadas.
Também na Venezuela todas as portadoras de implantes PIP poderão retirá-los gratuitamente, sendo as despesas suportadas pelo Estado. "Os hospitais estarão disponíveis para retirar os implantes, não para mudá-los" referiu a ministra da Saúde venezuelana, Eugénia Sader.
Implantes de silicone industrial
No total, a Poly Implant Prothèse vendeu mais de 300 mil implantes de silicone em todo o mundo. Países como Espanha, Reino Unido, Argentina, Brasil, Colômbia e Venezuela, além de Portugal, estão entre os compradores.
No Reino Unido, ao contrário de França, a autoridade responsável pelo medicamento não indicou às 40 mil britânicas com implantes PIP que os removessem como medida de precaução, afirmando não estar ainda provada uma relação de causalidade entre essas próteses mamárias e a ocorrência de casos de cancro. De qualquer forma, foi iniciado um inquérito para apurar os dados relativos à questão.
Do mesmo modo, na Austrália, onde nove mil mulheres têm implantes PIP, também não foi sugerida e remoção dos implantes PIP.
Ainda em 2010, descobriu-se que as propriedades descritas na documentação técnica dos implantes PIP não correspondiam às características do gel, no qual era utilizado silicone industrial. Este facto foi confirmado em outubro à polícia francesa pelo próprio fundador da marca, Jean-Claude Mas, tal como noticiou recentemente a agência France Press. Jean-Claude Mas, procurado pela Interpol, sempre afirmou que apesar de tudo o material não era nocivo.