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Sobrinho assume responsabilidades mas diz que não sabia de tudo

António Cotrim/ Lusa

Ao longo de quase sete horas o ex-presidente do BES Angola respondeu a algumas questões dos deputados e escudou-se em outras tantas alegando sigilo bancário, em mais uma audição na comissão de inquérito sobre o caso BES. Com algumas setas enviadas a Ricardo Salgado e a Ricardo Abecassis.

Anabela Campos, Isabel Vicente e Mafalda Ganhão

"Assumo toda a responsabilidade das minhas decisões", começou por declarar esta quinta-feira no Parlamento Álvaro Sobrinho, o ex-presidente do BES Angola (BESA). Depois, ao longo de quase sete horas, foi respondendo às questões dos deputados, distribuídas por várias rondas, muitas vezes aludindo ao dever de sigilo bancário em Angola como justificação para não esclarecer algumas das matérias.

Durante a audição, Sobrinho disse que Ricardo Salgado, líder histórico do BES, sabia do problema ao nível da carteira de crédito no BESA, que originou imparidades superiores a três mil milhões de euros.

Quanto às suas funções, o gestor explicou que em relação às concessões de crédito não tomava decisões sozinho. Ou seja, o crédito concedido no BESA era dado de forma colegial, como normalmente acontece na banca.  Apesar disso, o gestor admitiu que Angola "não seguia os procedimentos de risco seguidos pelos países mais desenvolvidos".

Da linha de crédito de 3,6 mil milhões de dólares (cerca de 3 mil milhões de euros) do BES ao BESA no final de 2012, 1,5 mil milhões de dólares foi para investir em dívida soberana angolana e o restante para apoiar empresas portuguesas, precisou também Álvaro Sobrinho.

"O dinheiro não saiu para o BESA", sublinhou. E insistiu: "Os 3 mil milhões nunca saíram do BES". Até porque, explicou. "O BES era o único banco correspondente que o BESA tinha".

 

Património é questão do "foro pessoal"

Questionado por mais de uma vez sobre a quem reportava, Álvaro Sobrinho assegurou que era a Ricardo Abecassis Espírito Santo, presidente do conselho de administração do BESA e presidente do BES Brasil, e não a Ricardo Salgado (ao contrário do que já foi dito na Comissão Parlamentar de Inquérito, nomeadamente por José Maria Ricciardi).

Afastado do BESA em dezembro de 2012, Sobrinho repetiu a resposta dada Ricardo Salgado também no Parlamento, dizendo que a decisão partiu de acionistas angolanos do BESA.

"Fui afastado por pessoas de Angola. E também outros clientes que se queixaram de ter grande dificuldade em falar comigo", disse Sobrinho, acrescentando que os clientes eram empresas portuguesas.

Numa audição em que o próprio património de Sobrinho foi invocado, pela deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, ao perguntar ao gestor quanto ganhava no BESA e como conseguiu reunir tão vasta fortuna - algo que o Sobrinho alegou ser uma questão do seu foro pessoal, referindo, no entanto, provir de "uma família com posses" . Foi ainda assegurado pelo ex-presidente do BESA que não tem contas congeladas na Caixa Geral de Depósitos, conforme foi noticiado.

Já a audição prosseguia há horas quando Álvaro Sobrinho insistiu: "Ricardo Salgado  e Ricardo Abecassis não sabiam de tudo, nem eu sabia. Sabiam o que era essencial em termos de governance e estratégia do banco". E acrescentou, se Abecassis tivesses dúvidas enquanto presidente do conselho de administração podia perguntar.

A propósito das declarações de Ricardo Abecassis mencionadas na comissão de inquérito sobre o seu poder em Angola, Álvaro Sobrinho considerou estarem "no campo da psicanálise".

"Se pudesse voltar atrás em alguns actos de gestão voltava", disse Sobrinho, reconhecendo que identificou problemas no BESA. "Havia coisas que tinha de corrigir, mas isso não significa um buraco, eram desiquílbrios de liquidez, não de rácios", sublinhou.