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Soam os alarmes. Exportações para Angola caem 30%

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Este ano, as vendas de janeiro e fevereiro para Angola somam 340 milhões de euros, um valor que compara com os 482 milhões registados nos meses homólogos de 2014. A perda é transversal a todos os sectores

António Pedro Ferreira

Fevereiro acentuou a queda das exportações para Angola. Se a evolução se mantiver, a indústria exportadora perde 900 milhões de euros em 2015.

Nos dois primeiros meses de 2015, as exportações de bens para Angola reduziu-se em 30%. Em valor, foi uma perda acumulada de 142 milhões de euros.

Este ano, as vendas de janeiro e fevereiro somam 340 milhões de euros, um valor que compara com os 482 milhões registados nos meses homólogos de 2014. O desempenho de fevereiro acelera a queda, que no final de janeiro estava nos 26%.

Se esta evolução se mantiver ao longo de 2015, a indústria portuguesa perde 900 milhões de euros.

Se até aqui Angola era o quarto maior cliente a nível mundial e o primeiro fora do espaço europeu, o cenário vai mudar este ano. O Reino Unido já é mais relevante. O peso de Angola nas exportações extracomunitários caiu de 23% para 17%, ao nível dos Estados Unidos.

Soam os alarmes nos exportadores

A perda é transversal a todos os sectores. Aníbal Campos, presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos e Metalomecânicos, não esconde "a profunda preocupação que marca o sector".

A queda acentuada em Angola "contrasta com um desempenho positivo (16%) nos restantes mercados de exportação", refere Aníbal Campos. Os alarmes já soaram "nas empresas mais expostas ao mercado angolano", acrescenta o industrial da Silampos.

A cervejeira Unicer é uma das empresas mais expostas a Angola, mas o seu presidente João Abecasis comenta apenas  "que não se revê" nos números indicados pelo Instituto Nacional de Estatística.

Em vez de comentar  a evolução de 2015, Abecasis enfatiza que estas oscilações "fazem parte da vida das empresas", lembrando que no biénio 2011/12 o mercado português sofreu uma redução superior a 20%.

A cerveja é um dos produtos sujeitos desde fevereiro a um novo sistema de quotas de importação. As vendas em janeiro caíram 20%, ficando nos 6,9 milhões de euros. Em 2014, as cervejeiras portuguesas faturaram 143 milhões de euros em Angola.

Vinho não escapa

No sector dos vinhos, a Bacalhôa é uma das empresas mais afetadas. O seu administrador comercial Eduardo Medeiro aterra na próxima segunda-feira em Luanda para avaliar a "nova realidade" e estudar, com as duas distribuidoras locais com que lida, medidas para suavizar os efeitos da crise e estimular a procura.

A Bacalhôa admite que em 2015 as vendas em Angola possam cair para metade, apesar do país "não ter produção local", ao contrário da cerveja. É um "rude golpe com que que temos de conviver", refere Eduardo Medeiro.

A empresa de Joe Berardo faz em Angola oito milhões de euros de vendas, um quarto da faturação, e a sua marca JP é um dos líderes do mercado. Em 2015, as exportações de vinho português para Angola valeram 95 milhões. As associações sectoriais admitem que a queda em volume e a preferência por vinhos mais baratos conduzam a uma perda entre 30 e 50%, em 2015.

Transferências congeladas

A  austeridade em Angola reduz as encomendas e a crise cambial atrasa os pagamentos aos exportadores devido à escassez de divisas. A tesouraria de muitas empresas portuguesas sofrem com o atraso de transferências.

A situação levou o governo do país a anunciar uma linha de crédito para antecipar o pagamento em euros de dívidas já pagas em kwanzas, que deverá estar operacionalizada em maio.

A escassez de dívisas nos bancos leva à prosperidade do mercado negro. Se no mercado oficial são precisos, em teoria, 106 kwanzas para comprar um dólar, no paralelo a relação é de um para 165.