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Singapura depois do "milagre"

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Mais do mesmo não é possível, e há alternativas económicas diz ao Expresso Linda Lim, economista singapurense professora de estratégia nos EUA.

A morte na semana passada do fundador de Singapura Lee Kuan Yew voltou a colocar na ribalta o "milagre" da pequena cidade-Estado que, numa geração, saltou do clube do Terceiro Mundo para a elite do Primeiro Mundo, com um PIB per capita que é hoje 120% do norte-americano e muito mais alto do que o do Japão ou dos outros "tigres" asiáticos. Mas alguns economistas singapurenses acham que o "modelo" já deu o que tinha a dar e que inclusive tem estado em mudança, sobretudo depois do choque político das eleições de 2011 quando o Partido do poder pela primeira vez viu a Oposição recolher 40% dos votos.



A República de Singapura encerrou um capítulo da sua história com os funerais de Estado no domingo do seu fundador Lee Kuan Yew. Aos 91 anos, o advogado formado em Cambridge, no Reino Unido, deixou para trás 31 anos de primeiro-ministro desde que o seu partido, o Partido de Ação Popular (PAP), ganhou as primeiras eleições legislativas no âmbito da autodeterminação da colónia britânica em 1959 e mais uma década de influência política enquanto "ministro sénior" e depois "ministro mentor".



O PAP acabaria por moldar um regime de um único partido com representação parlamentar até 1981, altura em que entrou, pela primeira vez, um deputado da oposição. Em 1990, Lee abandonou o cargo de primeiro-ministro e saiu da cena política no primeiro momento de viragem política em 2011, quando a Oposição registou 40% de votos em eleições, ainda que só tivesse eleito seis deputados em 87 lugares no Parlamento.



A cidade-Estado estrategicamente situada nos estreitos de Malaca realizou um feito histórico, passou de uma economia do Terceiro Mundo, ainda que com uma posição no comércio marítimo criada pelos britânicos durante o período colonial, para o Primeiro Mundo em apenas uma geração. Hoje lidera em produto por habitante os outros "tigres" asiáticos, como Coreia do Sul, Hong Kong e Taiwan. Este "milagre" económico impressionou muitos dirigentes políticos nas economias emergentes e mesmo no mundo desenvolvido. Uma das economias que mais sentiu a influência foi a China, desde que Deng Xiaoping visitou Singapura em 1978.



O seu modelo de planeamento estratégico de Estado alavancado em empresas ligadas ao governo em setores estratégicos ao longo de várias décadas, sem alternância política, transformou o país num nó global das cadeias de fornecimento mundiais das multinacionais e mais recentemente em polo financeiro. Mas o "modelo" parece ter engripado. A taxa de crescimento caiu para 2,1% em 2014 e o Fundo Monetário Internacional prevê que não suba do patamar dos 3% em 2015 e 2016, um ritmo de crescimento inferior ao que se vai verificar nos outros três "tigres" asiáticos. A produtividade registou um decrescimento em 2014. O exército de mão-de-obra com baixas qualificações, de imigrantes sem direito de residência permanente, subiu de 311 mil em 1990 para 1,6 milhões no final do ano passado. A criação de uma cidade global, sede de muitas multinacionais, atraiu o que a administração chama de PMET (profissionais, managers, executivos e tecnólogos), de uma elite de expatriados, com residência permanente, vindos de todo o mundo (inclusive portugueses) que passou de 112 mil em 1990 para 530 mil no final de 2014. Numa população de cidadãos de pouco mais de 3 milhões, esse adicional de mais de 2 milhões de imigrantes tem colocado problemas, para mais tendo em conta que a desigualdade se acentuou.



Vários economistas asiáticos falam de "calcanhares de Aquiles", dizem que a política económica da cidade-Estado não pode continuar a insistir em "mais do mesmo". Linda Lim, nascida em Singapura em 1950, é professora de estratégia na Ross School of Business da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, onde se doutorou em 1978. Continua a ser cidadã de Singapura e a investigar a evolução do modelo económico nos últimos 40 anos. A sua chamada de atenção para o esgotamento do modelo surgiu na sua contribuição para a obra coletiva "Management of Success: Singapore Revisited", publicado em 2010, e vai publicar em breve uma atualização da sua análise em "Singapore 2065", a sair em breve.

Com o falecimento de Lee Kuan Yew muitos analistas estrangeiros falaram do fim de um ciclo e que Singapura tem de se repensar. O "modelo" de Lee chegou ao fim?

É preciso começar por ter em conta que o modelo económico implementado não era exatamente de Lee. O arquiteto das reformas económicas foi Goh Keng Swee, um doutorado em Economia, que foi vice-primeiro-ministro entre 1973 e 1984, e que acabou por ser, também, um dos conselheiros da estratégia económica chinesa, e Albert Winsemius, um conselheiro holandês das Nações Unidas. A própria influência política de Lee no gabinete de ministros reduziu-se significativamente desde que saiu de primeiro-ministro em 1990 e ao longo do tempo, e definitivamente desde 2011. Repensar a economia tem ocorrido, como por exemplo no âmbito da Comissão de Análise Económica de 2003 e mais tarde na Comissão de Estratégias Económicas em 2010. A questão central é que Singapura tem de fazer um ajustamento.



Em que sentido?

Tem de ter em conta que agora é uma economia madura, uma das mais ricas do mundo. O modelo que funcionou quando era uma economia em desenvolvimento de rendimento baixo já não tem qualquer relevância, nem é hoje mais possível.



Mas não foi esse modelo miraculoso que atraiu a China e outras economias emergentes?

A China e alguns outros países olham para o modelo de Singapura como um capitalismo de mercado com um regime de partido único que permitiu ao governo impor mudanças que eram indispensáveis sem ter de lidar com a oposição. Contudo, este modelo - tanto no plano económico como político - já mudou. Poderia ser adequado para um país em desenvolvimento, mas não para uma economia rica.



Uma das suas críticas mais constantes é que "mais do mesmo" já não funciona mais em Singapura. O "milagre" precisa de uma alternativa?


Muitos economistas e homens de negócio de Singapura concordam com três ideias que são uma alternativa a mais do mesmo. Primeiro: reduzir a intervenção governamental na economia, sobretudo subsídios às empresas que distorcem a concorrência e incentivos ao investimento. O governo tem de deixar o mercado alocar os recursos cuja mudança vai ocorrer sobretudo no sector de serviços como está a acontecer noutras cidades de altos níveis de rendimento. Segundo: desenvolver um sector empreendedor local vibrante, algo que Singapura não criou se a compararmos com outras economias asiáticas. Terceiro: encorajar a maior investimento no estrangeiro, sobretudo na Ásia do Sul. Nestes dois últimos pontos há naturalmente divergências entre os economistas. Alguns continuam a achar que isso deve ser feito com incentivos estatais. Outros acham que não, que o Estado deve sair do mercado.



O próprio Fundo Monetário Internacional, na sua mais recente análise da economia do país ao abrigo do artigo IV, referia, em outubro, que deveriam haver quatro objetivos fundamentais para a política económica: mais procura interna (a poupança anda perto de 50% do PIB), menos excedente externo (que é dos mais altos do mundo, de quase 18% do PIB), mais investimento público, e menos dependência na mão-de-obra imigrante. Isso chega?

São objetivos necessários, e já estão inclusive em curso. O próprio orçamento terá um défice este ano, pois mais despesa será afeta a subsídios sociais. O excedente estrutural orçamental reduziu-se de 6,3% em 2009 para 4,2% em 2014 e deverá baixar para 3,7% em 2019. Com o tempo essas novas políticas produzirão efeitos. Singapura é muito rica e com uma população com um nível alto de ensino pelo que tem os recursos suficientes para fazer essas mudanças.



O choque político eleitoral de 2011 provocou essas mexidas?

De facto, nas eleições legislativas de 2011, o Partido de Ação Popular [Partido do governo desde 1959, acrónimo PAP] perdeu alguns deputados e a representação de uma parte significativa do eleitorado. A sua votação baixou para 60%, a mais baixa em várias décadas, apesar de reter 90% dos lugares no Parlamento. Em eleições intercalares em 2013 voltou a perder deputados e atualmente a oposição dispõe de sete lugares. Em virtude dessa mudança, o governo tem adotado três linhas de ação. Reduziu o influxo de imigrantes e instituiu alguma proteções - ainda menores, a meu ver - contra a discriminação de cidadãos de Singapura no local de trabalho. Incentivou a produtividade, incluindo incentivos para os empregadores apostarem no investimento e na formação. E teve de aumentar os subsídios sociais, como já referi, sobretudo em relação aos cidadãos idosos, nomeadamente na área da saúde. Atuou ainda, com medidas do âmbito macro-prudêncial no mercado imobiliário e em relação à inflação que têm reduzido o rendimento real dos singapurenses. Neste último aspeto já se vêm efeitos, nos outros casos vai levar tempo. A produtividade continua muito baixa e a dependência na mão-de-obra estrangeira muito elevada.



Há novas eleições legislativas em 2017. Mesmo que a Oposição aumente a sua votação, a relação de forças não se alterará substancialmente. É de esperar algum vento novo político?

Não creio que o PAP baixe dos 50% dos votos na próxima eleição. Na verdade, mesmo com 55% dos votos, por exemplo, conseguirá 75% dos deputados. Permanecerá no poder, sem dúvida. Contudo, mais deputados de Oposição mudam o ambiente político. Haverá mais debate no parlamento e algumas leis poderão ser alteradas. Na realidade, mais oposição tornará o próprio governo mais forte, pois terão de defender as suas políticas com mais vigor. Aliás, já o mostraram com as mudanças políticas que fizeram desde 2011.



Qual é o calcanhar de Aquiles da economia de Singapura?

É uma baixa produtividade desde há várias décadas. O milagre baseou-se no que os economistas chamam de modelo extensivo de crescimento, mais e mais inputs para obter mais output, o que, eventualmente, implica uma diminuição de resultados. O índice de inovação do INSEAD demonstra que mais inputs não se traduzem necessariamente em mais output. Ou se estamos a usar muitos inputs para obter pouco output, isso chama-se ineficiência.



E qual é a razão desse problema?

Sabemos da história de muitas sociedades que a inovação resulta de pequenas empresas empreendedoras, o que designamos de start-ups. Ora, Singapura não tem um sector empreendedor vibrante. Por isso, não é surpresa que não seja uma economia inovadora. As subsidiárias de multinacionais que moldam a economia de Singapura e as empresas ligadas ao governo não são particularmente inovadoras. Repare que até a China está a procurar diminuir o peso do Estado na economia para gerar mais espaço para as pequenas empresas e para a iniciativa privada.



Mas o modelo de Singapura não inspirou em particular a transformação na China desde que Deng Xiaoping se surpreendeu aquando de uma visita que fez à cidade-Estado em 1978?

Singapura não foi o único país asiático que conseguiu industrializar-se até 1978 quando Deng iniciou as reformas na China. Houve também a Coreia do Sul, Taiwan e Hong Kong - com Singapura formaram os quatro "tigres". Singapura surgia, então, como o único "modelo politicamente correto", com uma larga maioria étnica chinesa e com um estado de partido único. Os líderes e os burocratas chineses visitam Singapura para aprender e mesmo para formação. Autarcas de cidades chinesas geminadas recebem formação regular em Singapura. Tudo isso é verdade. Mas as políticas que a China acabou por lançar são de sua autoria, e basearam-se em lições para além das de Singapura. Por exemplo, a política industrial é similar à de Taiwan e Coreia do Sul. A China não adotou o comércio totalmente livre nem os fluxos de capitais livres nem a política cambial de Singapura. As zonas económicas especiais da China são mais parecidas às da Malásia, Filipinas, Taiwan e Coreia do Sul.



Qual é a grande transformação que a economia de Singapura tem de realizar nos próximos anos?


É cada vez mais difícil para Singapura manter-se como um nó nas cadeias de fornecimento das multinacionais. As oportunidades estão a diminuir na manufatura global, inclusive para a Índia, e a subir na área dos serviços regionais. Os recursos têm de ser realocados da lógica da manufatura global para os serviços regionais, como tenho defendido.



Essa mudança não poderá levar Singapura a perder o papel global que tem hoje?


Singapura vai continuar a ter um papel global, especialmente na ligação do mundo à região do Sudeste asiático. Mas em termos relativos o seu papel nos serviços regionais aumentará em relação ao seu papel nas cadeias de manufatura global. É o que chamo de passar de um modelo de venda de bens aos ricos cujos rendimentos estão a crescer lentamente para um de venda sobretudo à gente mais pobre do que nós mas cujos rendimentos estão a crescer mais rapidamente.





Singapura não ganhou o estatuto de nó da globalização financeira da China e da internacionalização da divida chinesa?

Sim, é verdade, mas é um nó entre outros, como os de Hong Kong, Londres e mesmo outros. O negócio do yuan - da moeda chinesa - é um acrescento, não o negócio definitivo para os serviços financeiros de Singapura. Tal como o facto de Singapura tratar de transações em yuan é marginal para a internacionalização da dívida chinesa.



Tal como a China, Singapura também tem de projetar-se financeiramente no mundo? Ainda recentemente foi anunciado um novo investimento da Autoridade Portuária de Singapura no porto estratégico português de Sines...


Claro. Isso, no fundo, é explorar vantagens competitivas que Singapura tem à escala internacional. É uma boa utilização das enormes reservas de divisas que temos e dos excedentes na balança de pagamentos. Singapura, tal como as outras economias desenvolvidas, tem um desequilíbrio, com os fluxos de investimento direto estrangeiro em Singapura muito superiores aos fluxos de investimento direto de Singapura no estrangeiro.