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Será a Índia a excepção à crise?

Os seis analistas e empresários indianos ouvidos pelo Expresso acham que sim. A potência emergente do Índico teria uma maior resiliência para navegar na actual crise mundial.

Os indianos celebraram na semana passada o 'Holi', apesar do choque dos atentados terroristas em Mumbai ainda perdurar, e pareceram ter mais motivos para gozar este festival hindu de cor do que os chineses quando puseram o pé no novo ano do Búfalo.

A Índia recolhe estranhamente unanimidade entre os analistas de assuntos internacionais: num deve e haver, parece ser uma excepção à crise que o director do Fundo Monetário Internacional garantiu recentemente que empurrará a economia mundial para uma recessão global este ano. "Provavelmente sofreremos metade do que as economias desenvolvidas em termos de intensidade", alvitra Soumodip Sarkar, professor em Évora.

A desaceleração económica será certa na Índia, mas continuará a ser suave diz a maioria - de 9,3% em 2007, para 7,8% em 2008 e talvez 6,9% este ano quanto ao crescimento do produto interno bruto (PIB). Mas cresce o número de analistas que aponta para um patamar entre 5 a 6% e um dos mais pessimistas vaticinou no 'The New York Times' que em 2010 o crescimento não seria superior a 2,6%.

Mesmo com tantas nuvens e incerteza, alguns analistas esperam que a Índia até consiga ficar acima da China, que tem sido a campeã do crescimento nos BRIC (grupo das quatro potências emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China, criado pela Goldman Sachs em 2003).

A longo prazo, diz o Professor Rajesh Chakrabarti, da Indian School of Business, em Hyderabad, "a Índia será o BRIC com a trajectória de crescimento mais longa, dada a sua demografia, pelo que estará em muito boa posição aquando da próxima retoma".

Teoria virada do avesso

O optimismo moderado sobre a Índia não resulta da ficção 'Slumdog Millionaire' ter sido premiada em Hollywood com oito Óscares e prometer dar mais um empurrão no negócio de Bollywood. Advém do facto da teoria económica do desenvolvimento rápido ter sido virada do avesso.

O que ontem era um ponto forte para um crescimento rápido dos famosos "tigres" e candidatos a tal - o papel motor das exportações -, hoje parece ser uma dependência que só dá dor de cabeça porque o comércio internacional, já o disse o Banco Mundial há algum tempo, vai quebrar este ano. Os chineses estariam a sofrer mais com essa reviravolta.

"As exportações em relação ao PIB pesam apenas 15%, comparado com 35 a 40% na China, Filipinas e Coreia ou 60% na Tailândia e Taiwan ou quase 90% na Malásia e Singapura", observa Ashutosh Sheshabalaya, consultor e autor de 'Made in India'. Analisando pela óptica da "abertura ao exterior", incluindo todo o comércio internacional realizado pelo país (ou seja importações e exportações), "o peso no PIB é apenas de 44%, menos de metade, um valor muito mais baixo do que nos outros países asiáticos", sublinha, por seu lado, Mohandas Pai, responsável pela área de Recursos Humanos da Infosys, uma das "estrelas" do sector tecnológico.

Na Índia, a orientação dominante "para dentro" levou as empresas indianas a disporem de um enorme "mercado cativo", sublinha, por seu lado, P.A.Narayan, um empreendedor da área farmacêutica, fundador da Cleatus Laboratories, em Bangalore. O que, aparentemente, surge como uma "almofada" para o embate actual.

Na verdade, a Índia escapa aos maiores rigores da crise sobretudo ao nível dos impactos na economia real porque está menos exposta às oscilações da exportação e porque dispõe de um mercado interno com mais de 250 a 300 milhões de consumidores da classe média em termos de paridade de poder de compra.

Válvulas de escape

Mas mesmo na exportação, a Índia tem uma particularidade que a pode imunizar relativamente: "alguma inelasticidade", diz Sheshabalaya. Uma parte muito dinâmica são exportações de serviços de alto valor (nomeadamente serviços críticos às empresas apoiados em tecnologias de informação), joalharia e pedras preciosas (um valor de refúgio em tempos de crise), turismo de saúde, farmacêutica e biotecnologia, saúde à distância (e-health), manufactura flexível e produtos e tecnologias desenhadas propositadamente para o mundo em desenvolvimento.

No entanto, globalmente, a exportação caiu 20% nos últimos quatro meses, particularmente afectando os sectores da confecção e automóvel.

É de esperar, também, que a externalização de serviços e funções empresariais se venha a ressentir, diz-nos K R (Lan) Lakshminarayana, chefe de estratégia da Wipro, um dos três grandes das TI (juntamente com a Tata e a Infosys). "Os principais clientes do sector tecnológico e do afamado Bangalore são bancos e indústria, sectores que estão a ser afectados seriamente pela crise. Quando os nossos clientes estão doentes, nós também sofremos por tabela".

Mas, no entanto, Lan é de opinião que a necessidade de externalizar para a Índia falará mais alto no Ocidente do que as tendências para uma subcontratação geograficamente mais próxima (designada por nearshoring) ou mesmo do que a re-internalização de funções: "A racionalidade económica do nosso modelo de negócio - que, recorde-se, é tripla, escala, competências e preço - é difícil de replicar".

Nas competências, a Índia inclusive tem "subido na cadeia de valor" com serviços cada vez mais baseados no conhecimento intensivo, sublinha Narayan. "Note-se que 50% das exportações nesta área são a este nível", diz Sheshabalaya, que acredita até que "a dependência internacional no software indiano vai ser crítica para a retoma económica". Mohandas Pai considera que "o sector [indiano] das tecnologias sairá ainda mais forte desta crise, pois o resto do mundo se verá obrigado a fazer o downsizing", frisando ainda: "O impacto da crise é perfeitamente temporário. A especialização da Índia [no outsourcing e no offshoring de serviços para clientes internacionais] é uma tendência permanente, evidenciada, aliás, pela falta de talento técnico adequado nos países da OCDE".

É, contudo, curioso que a associação representativa do sector, a NASSCOM, não tenha apresentado uma estimativa dos negócios para o ano fiscal 2009-2010. Refere 34 mil milhões  de euros em 2008-2009 e vaticina um salto para 47 em 2010-2011.

O caso da fraude da Satyam é considerado por todos um "incidente isolado", uma "anomalia", e não a ponta de um icebergue, pelo que não afectará seriamente a imagem do sector no estrangeiro.

Também o sistema financeiro é tido como mais sólido do que em grande parte da Ásia e claramente face à China: "Conseguimos um bom equilíbrio entre poupanças (35%) e investimento. O nosso sistema bancário é intrinsecamente forte", assegura Lan, no que é acompanhado pelo outro empresário, Narayan. O "lixo" financeiro deve ser inferior a 2%. Já foi referido que apenas 1/500 do valor total dos activos bancários indianos foi associado a títulos de crédito hipotecário de alto risco. A concessão de crédito tem também, nos últimos meses, crescido a um bom ritmo (20% mais recentemente).

O principal ponto fraco indiano, diz Sarkar, são as infra-estruturas. "Agora é a melhor altura para mexer nessa área que está em situação desastrosa". "A que se junta uma bolsa devastada por uma queda de 60% desde o pico em Janeiro de 2008 e um sector imobiliário que quebrou mais de 30%. A rupia caiu mais de 25%. Mas não estamos numa situação de pânico", conclui Rajesh Chakrabarti.

A China tem, no entanto, nestas áreas duas vantagens sobre a Índia, refere-nos Mohandas Pai: "Uma muito melhor infra-estrutura e umas colossais reservas em divisas estrangeiras que pode usar como almofada de segurança".

Tesouros escondidos

No campo do consumo, paradoxalmente, há uma grande margem de crescimento, mesmo no fundo da pirâmide, como anda há décadas a dizer o guru da gestão C.K. Prahalad. Uma "mina de ouro" escondida nas tais 'cidades de lata´ como Dharavi - mesmo no centro de Mumbai,  considerada a maior "favela" da Ásia - de onde saiu o jovem milionário do conto de fadas.

'Slumdog Millionaire' é uma ficção extravagante num país que detém 2 magnatas no "top" dos 10 mais ricos do mundo da revista Forbes (segundo a  última lista saída na semana passada) e em que grande parte da elite se enoja com os chaiwala (literalmente vendedores ambulantes de chá), apesar de alguns deles já serem apresentados como casos de estudo de micro-empreendedorismo em escolas de negócio.

Outro tesouro escondido é a diáspora indiana de alto nível que está a regressar para se reinstalar ou desenvolver projectos em parceria: "Essa é a vantagem de médio e longo prazo", diz o empresário P. A. Narayan. O consultor Ashutosh Sheshabalaya estima que nos próximos 2 a 4 anos cerca de 100 mil indianos deixem os Estados Unidos e regressem à casa mãe.

Em suma, nos BRIC, a Índia é o caso mais intrigante. A seguir de perto.